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A angústia do piloto antes da partida

A descrição dos últimos minutos na grelha, antes da partida para as AFN 24 Horas TT Vila de Fronteira

Rui Cardoso

A emoção das primeiras curvas após a partida

XTROD

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Não é exactamente como no livro de Peter Handke sobre a angústia do guarda-redes antes do penalti mas é quase. Depois de uma seca de quase duas horas para formar a grelha, avizinha-se por fim o momento da partida. Mecânicos e convidados começam a ser mandados embora, enfiamos nos ombros aquela canga bovina chamada arnês Hans, ajustamos o capacete e os cintos e, ao sinal de motores em marcha, carrega-se no botão da resistência, ou não andássemos a gasóleo. Damos à chave e os seis cilindros do motor do Nissan Patrol GR começam a ronronar que nem um gato siamês à vista do prato da comida.

Mas ainda não é desta que largamos. Aparece a placa de dez minutos e começamos a pensar em tudo o que não convém: aquela batida atrás que se ouvia nos treinos será algum amortecedor a dar sinal, será que o motor vai aquecer como o ano passado, iremos ter algum furo? É com estas cogitações nem sempre optimistas que chega a placa dos cinco minutos. Começamos a olhar para as filas da grelha à nossa frente e a tirar as medidas aos adversários: este “avião” vai largar a toda a brida provavelmente pela esquerda e eu vou-me encostar todo à direita, roçar o talude e tentar ganhar uma ou duas posições à entrada do gancho e sobretudo, não amassar a lata.

Vem a placa de um minuto e começa um barulho ensurdecedor, vindo sobretudo dos motores a gasolina, seguido de algumas baforadas de fumo preto vindas dos dieseis com as goelas mais abertas. Antes da placa de 30 segundos, estendo à mão direita à minha “pendura” e aperto-lhe a mão esquerda porque amarrado com um cinto de cinco pontos e o Hans nos ombros é o mais parecido com o abraço das equipas de futebol que se consegue fazer.

Depois, como me ensinaram os meus mestres, aos 15 segundos, carrego na embraiagem, meto a primeira e começo a embalar suavemente o motor. E aí está a grande molhada: é uma espécie de estoiro de elefantes em todas as direcções permitidas pelas baias da pista. Tentamos esgueirar-nos pelo meio, como se estivéssemos no Marquês de Pombal às seis da tarde, rodeados por uma selecção dos taxistas mais ordinários de Lisboa, reforçados por alguns entregadores de pizzas e carros de dois lugares com rede.

Melhor ou pior faz-se o gancho ao fundo da recta da meta e logo depois o “enrolado” a descer para a direita e aí vamos nós. São duas da tarde de sábado dia 25 de Novembro. O penalti já foi marcado e daqui por 24 horas (às duas da tarde de domingo) sabermos se foi golo ou não…