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A longa noite de Fronteira

Entre as cinco e meia da tarde e as sete da manhã guia-se à luz do lampião nas AFN 24 Horas TT de Fronteira. O relógio não pára e a corrida também não

Rui Cardoso

DR

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Entre a largada das AFN 24 Horas TT de Fronteira, às 14 horas de sábado e o anoitecer vão pouco mais de três horas e nem todo este período de luz do dia acabou por ser aproveitado pelos concorrentes. A necessidade de assistir e transportar ao hospital um espectador que tinha dado uma queda grave obrigou à interrupção da corrida durante 20 minutos. Algo raro nestas 20 edições da prova, fundada por José Megre e organizada pelo Automóvel Clube de Portugal.

Daqui resultou que o tempo útil de corrida até ao pôr-do-sol foi de pouco mais de duas horas. Eram exactamente 16.10 quando entrei na box para o final do meu primeiro período de condução. O meu companheiro de equipa António Conchinha ainda terá conseguido dar uma volta com luz, o mínimo para reconhecer a pista e agora até à próxima madrugada a corrida ganha novas características.

Com os jogos de luz e de sombras a pregarem-nos constantemente partidas, o essencial passa a ser fazer voltas, rodar sempre, mesmo que num andamento muito contido, para evitar problemas. É uma pura questão de aritmética. Mesmo andando a passo e fazendo 20 minutos por volta são três voltas por hora o que multiplicado por 14 horas de escuridão dá 42 voltas: a espinha dorsal da corrida e o suficiente para decidir uma classificação, quer se lute por ganhar, quer se lute apenas por chegar ao fim, como é o meu caso. Recordemos que mesmo com a pista muito rápida o primeiro classificado nunca cumprirá mais de 110 voltas, logo 42 voltas nocturnas é a base para chegar ao fim classificado dentro das condições do regulamento (fazer pelo menos 40% das voltas do vencedor).

Nem todos gostam de guiar de noite mas esta é a minha parte favorita da corrida. Quando pegamos no carro a partir das 11 da noite há muito pouco “trânsito”, ou seja há bastante gente nas boxes a consertar avarias, quem anda lá dentro roda mais ou menos à mesma velocidade e dificilmente se encontram ao longo de uma volta. A aproximação dos “aviões”, isto é dos 10 ou 15 primeiros classificados que rodam a um ritmo impressionante, é muito mais nítida porque o clarão dos projectores os anuncia a grande distância.

Só quando o dia começa a nascer, um dos momentos mais bonitos da corrida, é que começamos a ver que metade das valas tenebrosas que passámos a noite a evitar eram tão substanciais como o Gigante Adamastor. Outras continuam lá e quando passamos ao lado suspiramos de alívio e dizemos “ena pá do que me fui safando…”.

Tudo indica que este ano não vai haver muito frio e sobretudo que não cairá o temido nevoeiro alentejano que não deixa ver um palmo à frente do nariz. Anos houve junto às ribeiras, que a condensação era tal que tinha de se fazer um rumo com o dos barcos a demandar um porto: um carro da organização em cada margem com luzes rotativas no tejadilho e apontavase a direito de um para o outro para atravessar aquela espécie de puré opaco.

No momento em que escrevo esta crónica, ou seja um bocado depois das seis da tarde, a cabeça da corrida não podia estar mais animada com sucessivas mudanças de comandante que foi oscilando do protótipo da equipa luso-francesa de Mário Andrade e a do francês Laurent Poletti (cuja equipa inclui o campeão nacional de TT Ricardo Porém).

Pela nossa parte lá fomos fazendo pela vida com o nosso vetusto Nissan Patrol GR, comendo grão a grão e subindo lugar a lugar na direcção do nosso modesto e primordial objectivo: o meio da tabela. Daí para cima o que vier à rede é peixe.