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Um carro de sonho para uma pista de pesadelo

As AFN 24 Horas TT Vila de Fronteira contadas na perspectiva de quem esteve ao volante às primeiras horas do alvorecer

Rui Cardoso

O Patrol GR ao nascer do dia, perto da recta da meta

XTROD

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Há que começar esta crónica com um esclarecimento relativo ao título: nem o carro é assim tão bom, nem a pista é assim tão má. Mas a verdade é que o nosso velhinho Nissan Patrol GR (equipa 54) se está a revelar o carro ideal para uma prova destas: robusto, tão fiável quanto possível e quase indestrutível. Já o traçado não se degradou muito com as horas de condução noturnas, está muito rápido mas cheio de armadilhas e o esforço final dos pilotos mais rápidos nestas últimas horas de prova gera algumas ultrapassagens que desafiam aquela lei da física segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

O turno anterior de condução por volta das onze e tal da noite tinha-me brindado com o espetáculo do fogo-de-artifício visto de dentro do carro, com o seguinte diálogo a bordo:

- Tão bonito! Que estarão eles a celebrar?

- Deve ser para comemorar termos deixado a panela de escape lá atrás, na volta anterior…

De noite, como expliquei na crónica anterior é divertido guiar nesta pista mas convém ter algum tino. Alguns dos que passavam a voar baixo por nós, íamos encontrá-los encostados aos sobreiros, de capô aberto ou à procura de alguma roda perdida. Novo diálogo a bordo:

- Olha como os “aviões” estão a andar.

- Pois, mas tal como levantam também aterram…

Antes, o diálogo versara sobre as bandeiras azuis (mostradas num posto de controlo significam aproximação de um concorrente mais rápido e obrigação de facilitar a ultrapassagem).

- Tanta bandeira azul…

- Pois as praias aqui devem ser porreiras…

Para o meu último turno de condução calhou-me largar às 6h45. Para leste, na direção de Cabeço de Vide, havia uma ligeira sugestão de aurora. É a hora mais escura, fria e tenebrosa mas, ao cantar do galo, os espectros nocturnos regressam às profundezas infernais e a luz volta a brilhar.

Do ponto mais alto da pista viam-se as zonas mais baixas do circuito envoltas num manto de nevoeiro, rasgado aqui e ali pelos feixes dos faróis. É maravilhoso começar a ter perspectiva para além daquilo que o cone de luz dos faróis nos mostrava. Mas depressa surgem os primeiros raios de sol, ainda baixos e direitos ao pára-brisas e há momentos em que pura e simplesmente deixamos de ver. Se nesse momento estivermos a ser dobrados por um adversário mais rápido é verdadeiramente de arrepiar…

Findo o turno de condução, passei no secretariado para começar a escrever esta crónica e todos se começaram a meter comigo.

- Então, como é que vocês, saídos da antepenúltima fila da grelha de partida, já aparecem na primeira página das classificações (correspondente aos 40 primeiros)?

- É assim como o Saddam Hussein a invadir o Koweit. Pela calada…

Entretanto o final da noite e o nascer do dia eram marcados pelo regresso da formação de Mário Andrade (equipa 22) à primeira posição, em acesa luta com Thierry Charbonnier (equipa 1 de que faz parte o português Paulo Marques) e com Igor Skoks (equipa 6), luta esta que deverá durar até às últimas voltas.