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Não há melhor sítio para ver o Rali de Portugal

Descubra a descida mais espectacular do Rali de Portugal, não muito longe de Caminha

Rui Cardoso

Sébastien Ogier no Rally de Portugal

Octavio Passos/Getty

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Não tem a moldura humana da rampa do Confurco no troço de Fafe nem a emocionante descida na direcção da eira e do tanque de água do antigo troço de Carvalho de Rei (Amarante). Contudo, não deixa de ser um dos mais extraordinários locais para ver o Rali de Portugal, disputado no Minho até domingo dia 20 de Maio.

Fica nas cumeadas a sul de Caminha no troço homónimo do Rali, com acesso (condicionado) através das aldeias de Azevedo e Riba d’Âncora. Mesmo que não houvesse carros a passar a paisagem só por si valeria a viagem: para norte vê-se a foz do rio Minho, o monte galego de Santa Tecla e vastas extensões de serrania.

No que respeita à vertente desportiva é um sonho. Estamos ao quilómetro 14 do troço (que tem 20), iniciado em Caminha. Vêem-se os carros a dar a volta à serra lá longe, ouve-se o roncar dos motores quando se aproximam a uma cota inferior e atacam a subida, até apareceram no alto, junto à capela, iniciando uma descida sinuosa com uma primeira curva apertada à esquerda, uma direita longa a descer e, por fim, um tremendo gancho à esquerda. Depois de levantarem uma poeirada digna do deserto do Sara, ainda os vemos a descer a serra, passando num viaduto sobre a A28 e desaparecendo na direcção de Gondar onde termina o troço.

Como nos últimos dois anos o troço passou a ser feito a descer neste local, o ponto ideal de observação é do lado esquerdo da pista e não nas bancadas montadas na encosta para a Zona VIP, onde a visibilidade é inversamente proporcional ao banho de pó. Um recém-chegado confirmava esta observação: “Lá em cima é de fugir. Parece que estávamos na Palestina…”

Ligados à rede

As aplicações para telemóvel substituíram os velhos transístores de pilhas onde ouvíamos o Pedro Castelo ou o Fernando Petronilho contar as peripécias da corrida. Ficou-se logo a saber que o vencedor da superespecial de Lousada na véspera, o estónio Ott Tanak tinha batido com o Toyota Yaris no troço anterior (Viana do Castelo) e que o tetracampeão Sebastien Ogier pilotando um Ford Fiesta e primeiro a ir para a pista da parte da manhã se estava a ressentir dessa posição e a perder tempo para os rivais. Ao meu lado, um entendido sentenciava: “E no troço de Ponte de Lima que tem 20 km ainda vai ser pior. Só à tarde, na segunda passagem é que é capaz de se safar…”

Ogier, se porventura vencesse em Portugal, bateria o recorde do histórico Markku Alen, obtendo cinco vitórias na prova mas ao primeiro dia na estrada é sempre cedo para fazer esse tipo de contas. Na verdade, após um furo Ogier capotou da parte da tarde na segunda passagem por Viana do Castelo, deixando para futuras edições a quebra do recorde do finlandês voador, ficando a liderança do final do dia a ser disputada entre Kris Meeke (Citroen, vencedor há dois anos) e Dani Sordo (Hyundai).

Volantes com truques

Outra coisa com que também se aprende é com os vídeos que passam nos ecrãs gigantes das zonas espectáculo (as únicas onde é permitida a presença de público). Se pensava que os volantes dos carros de ralis só diferiam dos de todos os dias no diâmetro e na consistência do forro, desengane-se: estão cada vez mais cheios de botões através dos quais o piloto pode, entre muitas outras coisas, alterar em andamento o equilíbrio do carro, dar ao arranque se o motor for abaixo ou comunicar para os engenheiros da marca se detectar alguma anomalia.

Campeonato do lixo

O Rali de Portugal tem muito mais do que parece, como se vê. Até na parte ambiental, dado que cada edição terá à volta de um milhão de espectadores. Sabia quanto lixo se recolheu o ano passado? Nada menos de 54 toneladas de resíduos indiferenciados, 9 de vidro, 12 de embalagens e duas de cartão. Um cuidado com os impactos na natureza que valeu à prova portuguesa em 2017 uma distinção especial da FIA, o prémio de excelência ambiental. Portanto, se está a ler estas linhas e vai ver o Rali lembre-se que o primeiro responsável pela limpeza é você próprio e não quem tem de andar no fim a recolher embalagens e outras porcarias.

Posto isto, encerro esta crónica e começo a dirigir-me para a Baixa do Porto onde se realizará a etapa urbana (street stage) entre os Aliados, os Clérigos e a Sé. Não resolve nada do ponto de vista desportivo mas é animação garantida, pesem embora os efeitos no trânsito de sexta-feira à tarde na Invicta. Disso falarei em próxima crónica.