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Crónica de uma vitória anunciada em Fafe

Há uma regra não escrita segundo a qual quem chegar aos troços de Fafe à frente do Rali de Portugal dificilmente perderá aqui a liderança. Assim foi uma vez mais este ano com a dupla Thierry Neuville/Nicholas Gilsoul em Hyundai

Rui Cardoso

JOS\303\211 COELHO

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Este terá sido um dos anos em que o pó mais marcou presença no Rali de Portugal. Esta manhã, no troço de Montim, perto de Fafe, um dos espectadores, ao ver uma série de figuras a cambalear no meio de uma nuvem cinzenta não se conteve e disse: “Olha para aqueles gajos. Parecem os mortos do Walking Dead!”

No ponto onde me encontrava a pista fazia várias voltas e acontecia um carro passar e levar com o pó que tinha levantado do outro lado dos pinheiros nas curvas anteriores. Foi o que aconteceu ao nº 11, o Citroen de Craig Breen que estava a abrir a pista e terá apanhado um belo susto.

Com três dias a apanhar sol forte no alto dos montes alguns espectadores estrangeiros começam a apresentar-se vermelhos que nem pimentões e a tornaram-se prováveis candidatos a uma ida à farmácia mais próxima. Há também algumas raparigas doutras latitudes suficientemente desinibidas para exporem algumas carnes bastante nutridas às carícias do astro rei. Foi talvez à vista de beldades destas na corte de Lisboa que D. Francisco Manuel de Melo se sentiu inspirado para compor um famoso epigrama que terminava assim: “E arrenego de tais damas/pois é forçoso que o diga/que tudo é cú, mamas e barriga…”

Se este é o público estrangeiro, o nosso não tem igual. Sabiam que em 1999, penúltimo ano em que o Rali se disputou ainda pelo formato antigo com Carvalho de Rei, Viseu, Arganil, Coruche, etc, foram os espectadores que apagaram sozinhos um incêndio nascente? Foi mesmo assim, de madrugada na zona espectáculo do Alto de Arganil e para celebrar o feito cantaram o hino nacional…

Enquanto se esperava a passagem dos primeiros carros, o sempre bem-vindo ecrã gigante ia mostrando alguns dos concorrentes do WRC2 a fazer o último salto de Fafe, antes da tomada de tempo. Não estavam na primeira categoria mas alguns não se saíam nada mal. A emissão em inglês informava-nos de que na antevéspera não tinha sido somente o Citroën de Kris Meeke a fazer habilidades em três rodas: lá para trás também não faltou quem só tivesse tracção ou travões às três. Se a moda pega…

E finalmente lá começam a passar os carros. Como em qualquer boa zona-espectáculo, ouvimos o ronco do motor em crescendo, avistamos fugazmente o carro e o seu penacho de pó do outro lado das árvores e, finalmente, ei-los a chegar ao gancho, completamente de lado e a partir à desfilada no meio de um nevoeiro acastanhado.

Sem levantar o pé

Passaram os dois Citroen (11 e 12) de Breen e Ostberg, com este último a andar muito bem e a dizer nas declarações transmitidas no final do troço: “finalmente tenho o carro a andar como queria”. Já o nº 16, o Hyundai conduzido pelo espanhol Dani Sordo não foi propriamente entusiasmante. No final explicou: “Levámos com uma pedra no pára-brisas a meio duma curva”.

Grande e espectacular atravessadela do Ford de Sunninen correspondeu a um tempo a condizer no final do troço, uma vitória que lhe permitiu garantir o terceiro lugar. E finalmente Neuville a apresentar um compromisso verdadeiramente científico entre andamento e poupança dos pneus.

Para a derradeira etapa, a segunda passagem por Fafe (que também permite amealhar pontos suplementares para o Campeonato do Mundo) os quase 40 segundos de vantagem de Thyerry Neuville permitiram-lhe ganhar o Rali, com Elfin Evans da Ford em segundo e o já referido Sunninem em terceiro. Esapekka Lappi, no único Toyota sobrevivente conseguiu roubar o quarto lugar a Sordo que passou a fechar o lote dos cinco primeiros.

Pelo caminho e nos dias anteriores já tinham ficado alguns dos candidatos à vitória: Sebastien Ogier (Ford) vendedor o ano passado, Ott Tanak e Latvala (Toyota), Hayden Paddon (Hyundai) ou Kris Meeke, vencedor há dois anos. E mais atrás não faltaram capotanços nos últimos troços de hoje, caso de Luilhas 2, ou avarias irremediáveis porque a mecânica é boa mas não aguenta tudo.

No que respeita aos portugueses e à prova do Nacional de Ralis disputada conjuntamente com a do WRC, a vitória foi para Armindo Araújo em Hyundai que superou Miguel Barbosa em Skoda.