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De C4 Cactus atrás da bruxa do Monte Córdova

Camilo viveu ali perto em São Miguel de Seide e dedicou um romance inteiro à “Bruxa de Monte Córdova”. Fomos tentar ver o que era feito dela no “tapete voador” da Citroën

Rui Cardoso

O novo C4 Cactus no alto do Monte Córdova, junto à basílica de Nossa Senhora da Assunção

D.R.

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Erguendo-se a 420 m de altitude o Monte Córdova domina o vale do Ave junto a Santo Tirso. Habitado desde tempos imemoriais, ficou associado a lendas e prodígios e inspirou poetas e letrados, a começar pelo grande Camilo Castelo Branco.

Em 1867 o romancista publicou “A Bruxa do Monte Córdova”, centrado na figura, não de uma tenebrosa feiticeira, mas de Angelica Florinda, cujo único feitiço era ser tão bonita que punha a cabeça a andar à volta. Era, “a tentação dos homens e dos anjos, incluso os seres intermédios do género humano e dos serafins: os frades…”

Como quase todas as heroínas camilianas acaba mal, doente, traída pelos homens e só resgatada do oblívio pela chegada, à hora da morte, do seu filho, o barão de Burgães.

Foi a bordo do novo Citroën C4 Cactus que partimos da Quinta da Picaria, simpático turismo de habitação vizinho de Santo Tirso, monte acima no encalço da bruxa camiliana. O que este carro tem de novo relativamente à versão de lançamento é, para além de pormenores estéticos, um novo tipo de suspensão, dita de batente hidráulico progressivo, que nos promete este bruxedo dos tempos modernos: conciliar o conforto de um tapete voador com o comportamento de um carro semi-desportivo.

A sinuosa subida por asfalto estreito confirmou as impressões trazidas desde Lisboa: a precisão da direção é irrepreensível e nas curvas vai para a trajetória que idealizámos e não por onde lhe apetecer como noutros casos sucede.

Acresce que, uma vez fora de estrada, como foi o caso da vereda que, no alto do Monte Córdova, leva ao Castro do Padrão, povoado pré-romano de que nos ficaram interessantes vestígios, se desenvencilha razoavelmente sem, é claro, pretender ser um jipe.

Ao encontro da obra de Korrodi

Estamos no Minho e, portanto, na linha do Sameiro, do Bom Jesus ou de Santa Luzia, no alto do Monte Córdova há uma vasta esplanada com basílica e casa da confraria, neste caso de Nossa Senhora da Assunção, com múltiplos pontos de observação dos vales do Ave e do Leça, o qual nasce nestas serras e vai desaguar a Leixões.

Alguma versatilidade fora de estrada permitiu ao C4 Cactus chegar às portas do Castro do Padrão (Monte Córdova)

Alguma versatilidade fora de estrada permitiu ao C4 Cactus chegar às portas do Castro do Padrão (Monte Córdova)

D.R.

O templo, de traça revivalista é de 1934, desenhado por um arquiteto que marcou a época, Ernesto Korrodi (com prémios Valmor em Lisboa e obra dispersa por Leiria e Aveiro). Um desenho no interior da igreja mostra o nunca concretizado plano de urbanização que previa campos de ténis, diversos hotéis, etc.

A aventura com o novo C4 Cactus não ficou por aqui. Descendo do Monte Córdova ainda se abalançou a uma passagem pelo troço de Fafe do Rali de Portugal, com passagem nos dois famosos saltos, o do Pereira e o da Pedra Sentada e na famosa descida do Confurco junto a Várzea Cova.

Um motor redondo

O motor turbodiesel de 1,6 litros e 100 cavalos revelou-se de uma “redondeza” assinalável, respondendo em todos os regimes de rotação. Isto torna a condução corrente muito agradável e também possibilitou algumas habilidades nas zonas com visibilidade mais desafogada do troço. O consumo, esse variou entre os 5,9 e os 6,5 litros aos cem, dependendo, claro está, do andamento.

Estar em Cabeceiras de Basto (perto da qual termina o referido troço do rali) e não ir à vizinha vila de Arco de Baúlhe provar o cabrito ou os filetes de polvo do “Caneiro” seria pecado do qual nem a supracitada bruxa Angelica nos conseguiria redimir e, portanto, assim se fez.

Relativamente ao C4 original o carro perdeu (infelizmente, digo eu) a graça das almofadas pneumáticas nas portas (os air bumps). Os bancos dianteiros e a posição de condução (elevada, quase de um SUV) continuam a merecer nota alta. O banco traseiro já rebate assimetricamente mas as janelas traseiras continuam a só bascular lateralmente sem abrirem na vertical.

A concentração de quase toda a informação no ecrã tátil central obriga a alguma trabalheira para pôr em evidência variáveis tão relevantes como a distância parcial percorrida ou os consumos instantâneo e médio. Termómetro e conta-rotações não há, sendo este último substituído por um “destrocador” que nos sugere com setas o regime ideal de passagem de caixa (manual, de cinco velocidades nesta versão). Modernices…

Ecrãs e mochilas

Ajudados pela graça que, indiscutivelmente, este carro tem e, quem sabe, graças aos bons ofícios da bruxa, ainda descobrimos numa feira outro prodígio minhoto: uma designer jovem mas cheia de ideias que conseguiu desenhar um objecto mágico em neoprene que tanto é uma mochila de viagem como uma confortável cadeira de campismo (se não acredita, espreite a marca Wingdo num qualquer motor de busca).

E assim terminou a nossa incursão camiliana ao volante do novo C4 Cactus que, já agora, custa € 22250 nesta versão e um pouco menos a gasolina para idêntica potência.