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O tio Zé da Horta foi aos agriões

Benfica 1-1 V. Setúbal. Crónica de um jogo com acontecimentos inesperados

Pedro Santos Guerreiro

André Horta, um dos homens do momento na Luz

PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP / Getty

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O miúdo jogava futebol do lado de lá do Tejo e na equipa que hoje estava do lado de lá do campo. André Horta já não está no Setúbal, onde era Hortinha, está no Benfica, onde o querem Hortão. A casa cheia na Luz lembrava-se do golaço da semana anterior em Tondela. Nós também.

Começou bem, o miúdo, com boas recuperações de bola no início. Aos 9 minutos entrou pela área a fintar meio mundo, acabou a cruzar para o meio de nada. E pronto, foi pouco mais do que isto. Depois disto, tio Zé da Horta foi aos agriões. Desaparecido do jogo.

Quando o intervalo chegasse, já teria passado o cheiro o golo. Num Estádio da Luz cheio, as duas equipas haviam entrado embaladas pelas vitórias na primeira jornada. O Benfica atacava melhor e defendia pior que o Setúbal. E era a dupla de ex-lesionados Nélson Semedo e Toto Salvio que melhor carregava o jogo. O lado direito dava o que Rui Vitória pedira antes do jogo: adrenalina. O lado esquerdo dava naftalina. Cervi, sobretudo, não puxava carroça. Foi aos agriões. Na defesa, foi também por ali, pela esquerda, que o inconformado Amaral mais perigo criou, em contra-ataques rápidos que tiraram a defesa benfiquista dos gonzos. Aos 12 minutos, Júlio César saiu em mancha, evitando o remate de Amaral (até estourar e ser substituído na segunda parte, foi quase sempre ele) depois de uma abertura sobre os centrais. Não há lá muitos: com as lesões de Jardel e de Luisão (o trio de lesionados completa-se com Jonas, todos na bancada), Lisandro e Lindelöf têm de jogar bem.

Salvio regressou à titularidade cinco meses depois, quis mostrar serviço antes que Rafa entre ao serviço (a contratação não está ainda confirmada) e enlaçou a braçadeira de capitão de Luisão, cuja transferência para o Wolverhampton não está oficializada. Ao contrário de André Horta, Salvio entrou bem e continuou bem. Foi o melhor do Benfica na primeira parte. Arrancada aos seis minutos, estoiro à figura aos 24. Mas o perigo estava para vir. De cabeça.

Aos 35 minutos, cabeceamento perigoso de Mitroglou, grande defesa. Cinco minutos depois, cabeceamento perigosíssimo de Pizzi, enormíssima defesa. Estava encontrado o melhor do jogo, o guarda-redes do Setúbal, Bruno Varela.

Foi com um terceiro cabeceamento perigoso na mesma baliza que o jogo voltou a sacudir. Mas o guarda-redes desta vez foi Júlio César. Já estávamos na segunda parte. Defesa gigante ao cabeceamento de Frederico Venâncio. Ou, visto de outra forma, o Setúbal continuava a ser perigoso quase sempre que ia à baliza adversária. As aparências iludem: o Benfica carregava muito mais mas nem por isso criava muitos mais lances de intenso perigo. Rui Vitória troca o desaparecido Cervi pelo aparecido Jiménez e o Benfica atacou mais. Mas o Setúbal confirmava-se como "uma equipa irreverente", como Rui Vitória anunciara na antecipação do jogo.

Muito irreverente. 66 minutos. Livre do Setúbal do lado direito, centro para as costas da defesa, golo. Frederico Venâncio. Os tais dois centrais que não podem falhar, falharam. Nesse lance, foram aos agriões.

Entra Carrillo que não entrou para fazer muito. O Benfica enerva-se e enerva os adeptos, passes falhados, poucos remates acertam na baliza e, nas bolas que lá vão, acerta-lhe antes Bruno Varela. Já não basta jogar como se da sucessão de ataques resultasse naturalmente o golo. 80 minutos e o Setúbal continua atracado ao esquema tático que lhe ia dando a vitória. Gonçalo Guedes entra em campo, corre para o ataque e mal tinha parado a sua corrida já estava ser rasteirado.

Penálti. 82 minutos. O empate saiu do banco, lance e golo: rematou Raul Jiménez, que entrara a meio de segunda parte.

O Benfica decide "deixar tudo em campo", como pedira Rui Vitória. Mas para deixar tudo em campo era preciso deixar também o nervosismo - e os agriões, de onde não saíra ainda nem sairia nunca André Horta. Ataques sucessivos, tudo a correr, aos 89 minutos lance muito perigoso na área, remate, Varela já não está no caminho da bola!... mas está a barra. E não deu para muito mais, nem nos quatro minutos de compensações. Deu adrenalina. Não deu golos.

Empate na Luz. Mérito do empenho e coesão dos sadinos, mérito do herói Varela. Nem vitória do Setúbal nem vitória do treinador do Benfica. Quem ganhou foi o FC Porto e o Sporting. Os adeptos saíram da Luz talvez pensando que na época passada também começaram assim e acabaram campeões. Mas para isso tiveram de voltar do mesmo sítio onde foram hoje. Hoje foram aos agriões.