Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

O problema do Benfica? Dor do membro fantasma (O Azar do Kralj explica tudo)

Vasco Mendonça e Nuno Dias estão insatisfeitos: o Benfica empatou, Júlio César continua sem instalar o Snapchat, houve Jonhas em vez de Jonas e aquela espécie de Panenka do Jimenez devia valer mais qualquer coisinha - reveja-se as regras

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar do Kralj

Carlos Rodrigues / Getty

Partilhar

Júlio César

Horas depois de ter voltado a chorar com um Brasil-Alemanha, desta vez de alegria, o imperador regressou à Luz com 90 minutos para tratar de alguns assuntos pendentes. Já estava no homebanking a tentar pagar a electricidade (13’) quando a frente atacante do Vitória deu a entender que tinha outros planos para si, que lhe viriam a exigir mais algumas boas defesas. A sua posição privilegiada no campo permitiu-lhe protestar por algumas faltas não assinaladas junto à área adversária, mas pouco o deixou fazer no lance do golo setubalense. Com tudo isto continua sem instalar o Snapchat.

Nelson Semedo

Começou a partida muito #rumoao36, com duas arrancadas excepcionalmente bem intencionadas que tornavam evidente o regresso do Nelson Semedo avistado naqueles 4 jogos em 2015. A partir daí, passou grande parte do tempo a tentar interpretar a presença de Salvio em campo, um esforço que deixou extenuados pelo menos mais 60 mil indivíduos que visitaram a Luz. Há que reconhecer a bondade das suas intenções. Num outro país, poderia ter acabado expulso.

Lindelof

Tem por norma a exibição de qualidades que justificam a abolição do fair-play financeiro, nem que para isso precise de dar alguns metros de avanço aos defesas, como num lance aos 12 minutos em que contrariou a dureza dos rins com a amplitude das suas pernas. Aquilo não foi um carrinho, foi o Bugatti dos cortes in extremis. Enfim. Num jogo com tantas exibições fracas, seria injusto bater demasiado no sueco. Protagonizou um lance caricato aos 66 minutos quando, num livre dos visitantes a pingar na pequena área, é visto de braço no ar a cumprimentar um amigo seu na bancada. Resultou em golo do Vitória, mas quem nunca parou o que estava a fazer por por causa de um amigo que atire a primeira pedra.

Lisandro

O realizador de diretos televisivos é, como sabemos, um intérprete de emoções e um observador frenético de cada acontecimento, mas é também alguém que dá pretextos a cronistas para encherem um parágrafo em que poucas conclusões conseguem tirar. Por isso mesmo não consideramos mero acaso que, durante a primeira parte, as câmaras da BTV nos tenham mostrado Luisão e Jardel algures na bancada. Se Luisão brincava com a filha enquanto esperava por um telefonema do empresário, Jardel parecia demonstrar a apreensão de alguém que quer voltar a ser titular, mas por outro lado gostava que o seu colega de equipa não desse tantas vezes as costas aos atacantes adversários. Não gostaríamos de estar na sua situação.

Grimaldo

Até a pentear-se revela uma intensidade acima da média. Aliás, dá a sensação de que passa o jogo inteiro a tentar fugir dos adversários e de Eliseu. Aos 61 minutos levou esse estado de espírito ao extremo, quando, ninguém sabe muito bem de onde, aparece fulgurante no flanco direito, um lance tanto mais estranho se tivermos em consideração que Cervi já tinha saído de campo e Eliseu continuava sentado no banco. Tem calma, rapaz. Estás a ir bem. Quase marcou num belíssimo livre canhoto aos 89 minutos, um lance em que a SAD do Benfica esteve simultaneamente bem e mal. Bem ao despachar Talisca, anterior especialista em livres, e mal ao despachar Varela, agora guarda-redes do Vitória.

Fejsa

Melhor em campo. Quase sempre bem a defender e sempre participativo nos muitos ataques desalmados deste domingo, Fejsa foi mais solidário do que a AMI. Entendeu-se bem com André Horta e impediu que o jogo se tornasse mais embaraçoso. Ajudou os centrais nas trincheiras, apoiou os laterais, apareceu a rematar, ganhou a segunda bola, depois ganhou a terceira, e ainda ajudou um adepto que tinha tropeçado nas escadas do sector 26 a levantar-se.

Horta

O novo líder dos No Name Boys até começou “in the zone”, cheio de ginga e recuperações de bola aqui e acolá, mas foi o sol de pouca dura. Parece-nos que não chegou a fazer um jogo péssimo. Dizemos que nos parece porque às tantas deixámos de o ver. Foi pena, porque queríamos pedir-lhe que voltasse a fintar três tipos a caminho da área adversária e marcasse o golo da vitória. Ainda assim, provavelmente acertou mais passes nas duas primeiras jornadas do que Renato Sanches nos seus primeiros 20 jogos. Não se pode dizer que seja um mau começo.

Cervi

Este não engana. Ao fim de dois jogos, Cervi começa a demonstrar o seu valor e qual a posição natural que deve ocupar em campo: o banco de suplentes. O novo extremo-esquerdo do Benfica até dá ares de querer fazer acontecer, todo pulga atómica, bola colada à canhota e tal, mas depois as tabelinhas desafinam e os cruzamentos não saem. Qualquer defesa com um QI superior a 80 percebe o que é preciso fazer nestas circunstâncias. Geraldes, membro do clube Mensa, rapidamente assimilou que bastaria estar disposto a ser atingido pela bola em diferentes partes do corpo para anular o pequeno argentino convencido de que estava a defrontar hologramas.

Salvio

Alguém com lugar na tribuna e grande proximidade física do álcool terá eleito Salvio melhor em campo, uma escolha que pareceu surpreender até mesmo o argentino. Não nos interpretem mal. Toto faz das tripas coração para demonstrar que é ali que gosta de estar, que quer pegar o touro da sua carreira intermitente pelos cornos, como se fosse Maradona contra aqueles seis belgas e um maqueiro, mas as coisas não saem tão bem como outrora. A bancada perdoa-lhe porque todos queremos voltar aos lugares onde fomos felizes, mas aquele estilo de jogo entre o estonteante e o tonto dá vontade de chegar ao pé dele e dizer “o problema não és tu, sou eu”, até ele nos obrigar a desembuchar que o problema não é ele nem somos nós. É o Rafa, tens razão.

Pizzi

Errata: há alguns dias afirmámos neste espaço que Pizzi é um jogador do cara$%& e joga bem em qualquer posição do meio-campo. Estávamos enganados em relação à segunda parte. Obrigado ao mister Rui Vitória por nos ter devolvido à razão. Algumas pessoas mais entendidas na modalidade dizem-nos que Pizzi foi colocado a jogar a 9, ou seja, teve de fazer uma espécie de imitação de Jonas. Como sabemos, é muito difícil imitar o brasileiro, seja na forma de jogar seja na forma de falar. Assim, tivemos um Jonas da feira. Um Jonhas. Acabou por retomar a carreira de futebolista quando voltou para as alas, e foi tentando aparecer na tal zona central em que antes tinha sido pregado, mas o jogo não quis nada com ele. Ainda assim, #pissi.

Mitroglou

Já ouviram falar de uma condição chamada dor do membro fantasma? É um problema que afeta pessoas que perderam um membro, mas continuam a sentir esse membro entretanto desaparecido. Se já em Tondela o vimos sofrer, este domingo foi horrível. Mitroglou passou 90 minutos cheio de dores à procura de Jonas, sabendo que não haveria analgésico técnico-tático capaz de o aliviar. Mas qualquer homem com aquela cara está disposto a sacrificar-se e Mitroglou deu tudo o que tinha. Aos 37 minutos, após um remate desastrado de pé direito, Hélder Conduto explicou que Mitroglou é canhoto, ou pelo menos tende a utilizar o pé esquerdo, uma definição justa dos tempos de incerteza vividos pelo ataque benfiquista.

Jimenez

O talismã. O homem dos golos importantes. O senhor 24 milhões. Enfim, um mexicano que ainda não percebemos exatamente o que está a fazer no Benfica, mas vai dando muito jeito. Entrou para dar a volta ao resultado e conseguiu apenas metade daquilo a que se propôs, mas aquela espécie de Panenka devia valer mais qualquer coisinha. Reveja-se as regras.

Carrillo

Viu a sua nova equipa sofrer um golo no exato momento em que recebia instruções de Rui Vitória, num momento em que o peruano pensou por instantes “ui, onde é que eu me vim meter” e o treinador do Benfica disse “ui, onde é que eu o vou meter agora”.

Guedes

Entrou para o lugar de Nelson Semedo e cavou uma falta que resultou em penálti que resultou em empate, tendo por isso atenuado algum do choro relativo à arbitragem. De resto, tentou fazer ali umas coisas no flanco direito. Aos 84 minutos fez uma tabelinha de belo efeito que prometia romper a defesa setubalense, mas esqueceu-se de acompanhar a trajetória da bola com os olhos.

Rui Vitória

Além de colocar Pizzi a 9, apareceu na flash-interview para dizer que o Benfica merecia ganhar. Logo depois queixou-se da arbitragem, algo que prometera 43 vezes na época passada que não faria. Aproveitou o primeiro jogo da época na Luz para testar a equipa numa situação de inferioridade numérica, nomeadamente ao colocar Pizzi a tentar jogar futebol nas costas de um marreco grego.

Um Azar do Kralj é uma página humorística no Facebook criada por Vasco Mendonça e Nuno Dias

Partilhar