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Renato Sanches, o bom rebelde

Cresceu num bairro de lata e há menos de um ano ainda estava na equipa B do Benfica. Em poucas semanas, Renato Sanches tornou-se campeão nacional e europeu, foi eleito o melhor jogador jovem do Euro-2016 e selou uma transferência recorde para o Bayern de Munique. O voo de Bulo, a Águia da Musgueira, é digno de Hollywood

Nelson Marques

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tiago miranda

No dia em que a vida de Renato Sanches mudou, naquele ano de 2005, a redondinha andava ali a saltitar, de pé para pé, numa rua da Musgueira, bairro pobre, outrora feito de barracas, com vista para o aeroporto de Lisboa. Dias antes, aquela bola tinha sido chutada para fora do Complexo Desportivo do Alto do Lumiar, onde joga o Recreativo Águias da Musgueira, um clube modesto que faz da principal missão tirar as crianças da rua e dar-lhes um propósito através do futebol. Era sempre assim em dia de jogo: quando uma bola pingava para fora do estádio, um puto agarrava nela, chutava-a para longe, outro agarrava-a, fugia com ela debaixo do braço, nunca mais ninguém a via.

António Quadros, presidente do clube praticamente desde que este foi fundado, em 1963, há muito reparara no jeito daquele pequenote de tranças impecáveis, tantas vezes arranjadas pela irmã mais velha. Os pais do miúdo tinham-se separado quando ele nem meio ano tinha. O pai — um são-tomense de quem Renato herdou o nome, mas com quem pouco conviveu — foi trabalhar para França e a mãe, cabo-verdiana, não teve alternativa senão mudar-se para a barraca da avó na Musgueira para tentar compor a vida. Enquanto Maria da Luz aceitava vários trabalhos de limpeza para pôr comida na mesa para os quatro filhos, o puto passava a vida a jogar na rua e insistia em escrever nas paredes do estádio a alcunha que a avó lhe dera e que nem ele sabe explicar: Bulo.

Naquela tarde, ao vê-lo dar uns toques com o inseparável amigo Xibinho, Quadros pensou: “Foi este sacana que a roubou!” Decidiu chamá-lo. “Ó Bulo, traz-me cá essa bola!” O puto, gingão, tentou enganar o velho: “Não é sua! Veja, está toda pintadinha. Não está mais bonita?” Tinha usado lápis de cor para esconder as iniciais do clube. Quadros riu-se. “Fica lá com ela. Vê se tens juízo!”

Precoce. Com a camisola de Portugal tornou-se o mais novo de sempre a vencer um Europeu e foi eleito o melhor jovem jogador da prova. Apesar da época fulgurante com o Benfica, a sua chamada para França, ainda com idade júnior, esteve longe de ser consensual: tinha disputado apenas dois jogos (particulares) com a seleção, em março, e não se tinha sequer estreado nos sub-20 ou nos sub-21

Precoce. Com a camisola de Portugal tornou-se o mais novo de sempre a vencer um Europeu e foi eleito o melhor jovem jogador da prova. Apesar da época fulgurante com o Benfica, a sua chamada para França, ainda com idade júnior, esteve longe de ser consensual: tinha disputado apenas dois jogos (particulares) com a seleção, em março, e não se tinha sequer estreado nos sub-20 ou nos sub-21

foto Matthias Hangst/Getty Images

O rapaz já tinha virado as costas quando o homem o chamou de novo. “Ouve lá, tu queres mesmo jogar à bola?” “Quero presidente, mas não me deixam”, respondeu Renato. “O treinador diz que não tenho idade.” No Águias da Musgueira não havia equipa de escolinhas (sub-11) e Bulo era demasiado novo para jogar pelos infantis (sub-13): ainda não tinha feito 8 anos. Quadros disse-lhe que não se preocupasse. “Amanhã apresentas-te com o BI e vens todo equipadinho, OK?”

Como não podia ser inscrito, ficou um ano a treinar com os colegas e a jogar apenas em partidas amigáveis. Era um miúdo “rebelde, malandro, mas muito humilde”, recorda o dirigente. “Levava pau [gíria para uma entrada dura], revoltava-se, ficava pior do que estragado. Dizia que não jogava mais.”

Quando foi inscrito nos infantis, era o mais novo e o mais pequeno da equipa: todos os colegas tinham mais três ou quatro anos. Jogava a avançado e depressa começou a mostrar as qualidades que o levariam à equipa principal do Benfica e à seleção nacional. “Era fervoroso, destemido, cheio de genica, com força. Não tinha medo, ia para cima deles. Chamava-lhe ‘lebrezinha’, porque era pequenino mas muito rápido. Fugia que era uma coisa disparatada”, conta Quadros, que já se habituou às visitas dos jornalistas depois da ascensão fulgurante da nova estrela do futebol português.

15 MINUTOS À BENFICA

Não demorou até o Benfica reparar nele. Jorge Mendonça, olheiro do clube, pediu ao dirigente que levasse o puto a um treino de captação no campo dos Pupilos do Exército. Bastaram 15 minutos para toda a gente ficar convencida. “As pessoas nas bancadas começaram logo a comentar ‘olha aquele pretinho todo dinâmico, tem cá um toque de bola’”. O destino de Bulo ficou selado ali.

O Sporting também estava interessado, mas chegou tarde: Quadros já tinha dado a palavra ao Benfica. Quando um responsável do clube de Alvalade perguntou a Renato se este queria jogar de verde e branco e lhe pediu o número da mãe, o rapaz respondeu-lhe que ela não tinha telefone. Era mentira. A verdade é que só queria jogar no Benfica, o clube dele e de toda a família. Depois de dois anos e meio no Musgueira, Bulo lá foi para a Luz, em dezembro de 2007, tinha então 10 anos e quatro meses, embora contrariado por ter de treinar todos os dias no Seixal, longe da família e dos amigos. “Disse-lhe: ‘não sejas parvo, faz o que te digo’. E lá fui, na minha carrinha, levá-lo para aqui e para acolá. Andei com ele para todos os lados, enquanto a vista me permitiu”, revela Quadros, que perdeu a visão e um pé devido à diabetes. Sanches só foi viver para o centro de estágio aos 16 anos. Tornara-se inviável andar sempre de um lado para o outro do Tejo. “Saía da escola e era tudo muito rápido. Às vezes perdia o autocarro, o metro e o barco”, contou num vídeo de despedida do Benfica.

O negócio ainda faz correr muita tinta. Como o miúdo era menor de 12 anos, o clube não tinha direito a ser compensado no futuro pela sua formação e sabia que ele poderia sair livre no final da temporada. Quadros não quis “cortar-lhe as pernas” e a transferência lá se fez, a troco de 750 euros de “subsídio para apoio à formação”. Segundo o dirigente, o então responsável pelas camadas jovens do Benfica, Manuel Ribeiro, terá também prometido 25 bolas, que o clube só recebeu recentemente, e uma compensação caso o jogador viesse a assinar contrato profissional com os encarnados. O alegado acordo [que Ribeiro nega ter existido] não ficou registado em papel e o dinheiro nunca chegou.

“Se calhar, ele não esperava que o miúdo viesse a atingir o que atingiu. Eu, honestamente, também não. Acreditava que chegasse a profissional, mas não que desse este salto”, admite. Depois dos protestos de Quadros terem chegado à comunicação social, as bolas apareceram por fim, com juros: em vez de 25, Nuno Gomes, o novo responsável pela formação do Benfica, ofereceu 50. Os dois clubes assinaram ainda um protocolo que dá direito de preferência ao clube da Luz sobre as pérolas do Musgueira, a troco de cinco mil euros por ano. Caso um jogador transferido cumpra determinados objetivos, como assinar um contrato profissional, o clube recebe uma verba adicional. É uma ajuda importante para uma coletividade com mais praticantes (250) do que sócios (cerca de 200, menos de 70 dos quais com as quotas de dois euros em dia) e onde nenhuma criança paga para jogar futebol. Os perto de 95 mil euros de receitas do último ano não chegaram para fazer face a todas as despesas: o exercício terminou com um prejuízo de oito mil euros.

UM PRODUTO DO FUTEBOL DE RUA

Sempre que podia, depois dos jogos, Bulo fugia para o bairro, para rever os amigos e os antigos colegas. Poucas semanas depois de sair do Águias da Musgueira, voltou ao Complexo Desportivo do Alto do Lumiar para disputar um amigável com a camisola do Benfica. Vestiu o fato de treino do clube, aproveitou a boleia do autocarro para o bairro, mas, ao chegar lá, enfiou-se no balneário da antiga equipa. “Veio ter comigo e disse-me que queria jogar com a camisola do Musgueira”, conta Quadros. “Disse-lhe que não, que não podia ser, que ele agora estava no Benfica, mas não quis saber. Recusou-se a jogar.”

De início não era muito obediente, recorda Renato Paiva, que o treinou nos juvenis dos encarnados. “Vinha do bairro, onde não havia regras, e teve alguma dificuldade em adaptar-se aos horários e à disciplina do clube.” Mas impressionou logo pela paixão como se entregava ao jogo e pela forma como contagiava os colegas. “O que mais me chamou a atenção quando chegou foi essa sua atitude perante tudo o que o rodeava”, admite João Tralhão, o primeiro treinador que o orientou na Luz. “Revelava uma atitude vencedora incrível. Lembro-me de ouvir comentários de alguns pais que assistiam aos treinos na bancada, apreensivos com a forma como ele encarava cada bola.” Era a mesma “força da natureza” que é hoje, só que em ponto pequeno. Um típico produto do bairro, irreverente, com “qualidades técnicas muito evoluídas” e uma intensidade fora de série, como o seu ídolo de infância, o holandês Clarence Seedorf, que também dava nas vistas pelas rastas e pelo estilo vibrante.

Paixão. Quando chegou ao Benfica, com 10 anos, tinha dificuldade em aceitar as regras, mas logo se destacou por ser “uma força da natureza”.

Paixão. Quando chegou ao Benfica, com 10 anos, tinha dificuldade em aceitar as regras, mas logo se destacou por ser “uma força da natureza”.

d.r.

O descaramento com que encarava o jogo permitiu-lhe destacar-se dentro e fora do campo, mas era também o seu calcanhar de Aquiles: queria resolver tudo sozinho, era só ele e a bola, não havia mais nada. “Tentava estar em todo o lado, mas prejudicava a equipa e prejudicava-se a ele, porque se desgastava demasiado”, explica Paiva. Com a ajuda de um psicólogo do clube, os treinadores da formação tentaram “trabalhar muito as noções coletivas do jogo”, mas sem sucesso pleno. “Tentou-se minimizar, mas não é possível anular isso, é um traço da personalidade dele, algo inconsciente. Mesmo nos seniores, rodeado de jogadores mais velhos, acaba sempre por vir ao de cima.” Sanches tinha já uma confiança inabalável nas suas capacidades. Quando Paiva o chamou a ele e outros três colegas dos sub-16 para integrar a equipa de sub-17, avisou logo que não vinha para fazer número: “Mister, não venho para aqui para compor plantel. Venho para jogar!” Nessa época foi campeão nacional de juvenis e no ano seguinte integrou, juntamente com uma dezena de colegas da Luz, a seleção nacional que atingiu as meias-finais do Europeu de sub-17.

O VOO PICADO DA ÁGUIA DA MUSGUEIRA

4 de dezembro de 2015. Rui Vitória tinha passado as últimas semanas a preparar um miúdo para resolver os problemas do meio-campo do Benfica. Samaris, Talisca, Pizzi, todos passaram pela posição “8”, a ligação entre o meio-campo e o ataque, mas nenhum se fixara. Então, contra a Académica, na 12ª jornada do campeonato, o treinador lança para o ‘onze’ o miúdo de 18 anos, que começara a época na equipa B e tinha feito a estreia na equipa principal um mês antes, entrando aos 48 minutos para o lugar de Jonas na vitória por 4-0 sobre o Tondela. O jogo corre-lhe de feição. Enche o campo, ataca e defende, pede a bola, assume o risco. A Luz rende-se ao menino, que parece que jogou sempre ali. Como um veterano. Aos 84 minutos, o resultado está feito: 2-0, “bis” de Jonas, o goleador brasileiro da equipa. Então, Renato recebe a bola sobre o meio-campo, vira-se como uma mola em direção à baliza adversária, um pouco descaído para a esquerda. Tabela com Jonas, dá um toque curto, puxa a culatra e, a 35 metros da baliza, desfere um potente remate que entra junto ao poste. Um golaço. O estádio quase vem abaixo. No banco do Benfica, Rui Costa, a última grande pérola nascida na Luz, rasga um sorriso. Antes do jogo, dissera ao puto que ele ia marcar. “Nem soube como festejar, foi um dos momentos mais bonitos da minha vida”, contou Sanches à “Sábado”. As câmaras de TV filmam a seguir Luís Filipe Vieira, o homem que começara a época apostado em fazer uma mudança de ciclo no Benfica, assente na formação do clube. Tinha encontrado o rapaz-propaganda desse projeto.

“A evolução do Renato Sanches simboliza o trabalho que a escola de formação do Benfica tem vindo a desenvolver e todo o investimento que temos feito. Chegou aos 10 anos a esta casa e nos últimos três todos acompanhámos com muito entusiasmo a forma consistente como cresceu”, diz Vieira ao Expresso, lembrando que vários outros jovens triunfaram na última época: Nélson Semedo e Gonçalo Guedes chegaram a internacionais “A”, Victor Lindelof fixou-se no centro da defesa e foi titular da Suécia no Euro-2016, e Ederson agarrou o lugar na baliza e foi convocado para a seleção brasileira. “Tenho orgulho no trabalho que está a ser feito. O Benfica é cada vez mais também um clube que se distingue pelas condições que cria para a afirmação dos seus jovens talentos.”

Naquele final de tarde de outubro, a Luz viu nascer uma estrela. Rui Vitória garante que o percebeu mal chegou ao Benfica, mas era preciso dar tempo para deixar o rapaz crescer e assimilar as ideias da equipa. Quando entrou no ‘onze’, Renato nunca mais saiu. Cumpriu assim uma promessa feita aos colegas um mês antes, quando lhe foi comunicado que passaria a usar o balneário da equipa principal. “Disse-lhes: ‘Daqui já não saio!’”, conta o treinador dos tricampeões nacionais.

Aquele golo à Académica simboliza na perfeição o carácter de Bulo. “Não tem medo de nada”, garante Pepe, colega da seleção. Não se importa de errar, porque levanta a cabeça e volta a insistir com a convicção de que pode decidir um jogo. Não esperem dele que se limite a fazer passes certinhos, como se fosse uma máquina. Renato é um jogador diferente. Há nele uma ousadia admirável, quase arrogante, na forma como empurra a equipa, acelerando o jogo como um cavalo selvagem. “Foge ao estereótipo dos médios atuais. Joga para a frente, arrisca e mete-se em caminhos apertados com a convicção de que os ultrapassará, algo raro num jogador desta idade”, considera Vitória. Para o treinador, é esta mistura “entre profissionalismo e a irreverência do futebol de rua” que faz dele um caso de sucesso num tempo em que os jogos são decididos quase como num tabuleiro de xadrez. Renato apaixona os adeptos pela paixão que põe no próprio jogo. “Lembra-lhes aquilo que o futebol era antigamente.”

UM POUCO DE EUSÉBIO, MUITO DE COLUNA

O Benfica-Académica que lançou Sanches para a ribalta começou quando Jair Tavares regressava a casa depois de mais um jogo dos juvenis B dos encarnados. Jair, 15 anos, chegou mesmo a tempo de ver o golo do primo. “Ouvi o relatador, corri para o televisor, as lágrimas vieram-me aos olhos. Ele é um exemplo não só para mim, mas para todos os jovens que ambicionam atingir o nível dele. Hei de apanhá-lo lá em cima”, promete o rapaz, que marcou uma vintena de golos na época passada e tem dois irmãos futebolistas: um no Aves, outro no Braga.

O golo à Académica foi o mais bonito de Renato Sanches com a camisola do Benfica, mas o mais importante aconteceu um mês depois. A 2 de janeiro foi com outro tiro certeiro do jovem médio que a equipa conseguiu três preciosos pontos em Guimarães que lhe permitiram manter-se na corrida pelo título. À entrada do último quarto de hora, quando os encarnados sofriam para ultrapassar a resistência vimaranense, rematou à entrada da área contra o corpo de um adversário, voltou a recuperar a bola e desferiu um míssil ao ângulo da baliza. Depois, só parou quando se deixou cair nos braços dos adeptos.

Naquela forma de procurar a baliza, José Augusto, glória do Benfica e da seleção nacional, vê algo de Eusébio. “Jogam os dois para a frente, de olhos na baliza, e em cada movimentação procuram sempre o remate e o golo.” António Simões, que brilhou com José Augusto e o Pantera Negra no Mundial de 66 e no Benfica dos anos 60, discorda. Renato lembra-lhe outra lenda do futebol português: Mário Coluna. “Como o Coluna, ele pega na bola e arranca, empurra a equipa para a frente, motiva os companheiros, diz-lhes que têm de ir atrás dele. É um jogador atrevido, alegre, forte física e mentalmente, que nunca foge ao contacto físico.”

Para Simões, Bulo conquistou depressa a admiração dos adeptos não só por ser uma “figura simpática” [todos lhe elogiam a boa disposição], mas também por ser diferente, “para melhor”, da maioria dos futebolistas de hoje. “Tem uma qualidade rara: assim que recebe a bola, vira-se logo para o jogo, procurando lançar o ataque. Enquanto muitos jogadores mais velhos e mais experientes têm uma atitude conservadora, procuram não perder a bola, ele arrisca descaradamente. É este atrevimento num miúdo de 18 anos que o faz especial.”

Os jogos contra a Croácia e a Polónia, no Euro-2016, foram bons exemplos disso. Renato entrou na equipa e deu um pontapé na inércia. “Foi como se dissesse que aquilo era para ser mais rápido, mais dinâmico, mais agressivo.” Apesar dos muitos elogios, Simões lembra que o médio ainda não é um produto acabado. Para continuar a evoluir e a triunfar ao mais alto nível falta-lhe melhorar a leitura tática, decidir melhor o timing das suas ações. “Tem de ler primeiro antes de executar, perceber qual o caminho que lhe dá mais hipóteses de sucesso. Se o fizer, vai tomar mais decisões acertadas.”

O DÍNAMO QUE FALTAVA AO CAMPEÃO

É fácil medir o impacto da entrada de Sanches na equipa do Benfica. Na jornada anterior, o clube tinha sido humilhado em casa (3-0) no dérbi com o Sporting e caíra para sexto, a oito pontos da liderança [com um jogo em atraso, com o União da Madeira, que viria a empatar]. Em sete jogos somava já três derrotas (tantas como nos 34 encontros da temporada anterior) e muitos adeptos pediam a cabeça do treinador. Depois da estreia do jovem prodígio, só voltou a perder uma vez, em casa com o FC Porto, embalando para uma série de 25 vitórias em 27 jogos, que incluiu o tal empate na Madeira. O dínamo da Musgueira deu o impulso que faltava para resgatar a equipa da depressão e conduzi-la ao sucesso. Sem ele, dificilmente o Benfica teria conquistado o tricampeonato ou chegado aos quartos de final da Champions. Visto de qualquer perspetiva, na época encarnada houve um AR (antes de Renato) e um DR (depois de Renato). “Estou seguro que 70% da melhoria que a equipa apresentou se deve à entrada dele”, estima António Simões.

A temporada de sonho culminou com a convocatória para o Euro-2016, que, segundo alguns analistas, não terá sido alheia à lesão de última hora de Bernardo Silva, do Mónaco. O médio do Benfica chegava à mais importante prova continental ainda júnior (era o mais jovem português de sempre num Europeu e o segundo mais novo nesta edição), tendo realizado apenas dois jogos pela seleção, em março, e sem fazer sequer a estreia nos sub-20 ou nos sub-21. A sua chamada foi uma incógnita até ao último segundo, mas não surpreendeu Rui Vitória. “A partir do momento em que começou a jogar no Benfica ficámos com a certeza que ia chegar rapidamente à seleção nacional.” Era também uma questão de tempo até se afirmar na equipa titular. “Assim que tivesse uma oportunidade não a largava mais.”

Emoção. A festejar com Pizzi e Jonas um golo do Benfica contra o Arouca

Emoção. A festejar com Pizzi e Jonas um golo do Benfica contra o Arouca

getty images

Depois de ter sido suplente utilizado nos jogos com a Islândia e a Hungria, na primeira fase da prova, saiu novamente do banco para empurrar a equipa para a vitória nos oitavos de final contra a Croácia, numa jogada que é a sua imagem de marca: recebeu a bola a meio do meio-campo de Portugal, correu com ela até à entrada da área adversária e entregou-a a Nani, no lance que terminou com a cabeçada de Quaresma para a baliza. No jogo seguinte, com a Polónia, foi ele a marcar o golo que permitiu à equipa empatar o jogo, que acabaria por ser decidido nos penáltis: fez uma diagonal para o centro a partir da direita, tabelou com Nani e disparou forte de pé esquerdo para o fundo das redes.

Com 18 anos e 316 dias, tornava-se o português mais jovem a marcar na fase final de uma grande competição, apenas um dos recordes que bateu no torneio: com a vitória portuguesa na final, tornou-se o mais novo de sempre a vencer um Europeu. Pouco depois de Cristiano Ronaldo levantar a taça, ficou também a saber que tinha sido considerado o melhor jovem futebolista da prova. Foi o culminar perfeito de um Europeu com sabor por vezes agridoce: colecionou elogios dos colegas, como Quaresma (“É um craque e merece tudo aquilo que está a viver”); do futuro treinador, Ancelotti (“É o melhor jogador deste Europeu, é um fenómeno”); e de muitos adversários, como o guarda-redes polaco Szczesny (“Foi o jogador que mais me impressionou”); mas teve também de lidar com os golpes baixos dos franceses, em especial Guy Roux, antigo treinador do Auxerre, que recuperou a polémica em torno da sua idade (“acredito que tenha 23 ou 24 anos”) para tentar desestabilizá-lo antes da final.

AQUI NÃO HÁ GATO

As dúvidas tinham surgido meses antes e foram alimentadas por alguns comentadores sportinguistas e pelo próprio presidente do clube de Alvalade. Em março, Bruno de Carvalho desafiou o Benfica a apresentar documentos que comprovassem a idade do jogador, para assim pôr fim à polémica. Na altura, os encarnados ignoraram o toque, mas, com a final mais importante do futebol português a aproximar-se, o Hospital Amadora-Sintra decidiu mesmo tornar público o registo de internamento da mãe do jogador, encerrando o caso. Não havia qualquer gato [gíria no futebol para o jogador que adulterou a sua idade] escondido com o rabo de fora: Renato nasceu a 18 de agosto de 1997, às 15h25, com 2,560 quilos, mas só foi registado cinco anos mais tarde, quando o pai voltou de França para o batizar.

Grande no talento, foi pequeno na compleição desde a nascença. Olhando as fotos e os vídeos do seu percurso do Benfica, só um mal-intencionado poderia questionar a sua idade: foi quase sempre um dos mais franzinos da equipa. Mesmo hoje, em que parece um touro em campo, agigantando-se com a bola, isso não passa de ilusão de ótica: mede 1,76 metros e pesa apenas 65 quilos, menos 11 centímetros e 24 quilos do que o sportinguista William Carvalho, por exemplo. “A estupidez às vezes vem de onde menos se espera”, disse à “Sábado” em resposta à campanha de difamação. “É algo que é tão baixo que não merece nenhum comentário. É um assunto que será tratado onde merece ser tratado [nos tribunais].”

Os colegas garantem que não se deixou afetar pela polémica. “Nós até o chamávamos velho, a brincar com isso. E ele ria-se”, recorda Gonçalo Rodrigues, ‘Guga’, amigo inseparável das camadas jovens do Benfica. “Quanto mais falam, mais ele mostra às pessoas que estão erradas. É forte, não se deixa afetar.” Demonstrou-o mesmo nas situações mais complicadas, como quando foi alvo de provocações racistas: no final de um jogo contra o Rio Ave, em abril, alguns adeptos vilacondenses imitaram o som de macaco quando ele abandonava o jogo. Renato limitou-se a responder aos insultos com um sorriso e a mover os braços imitando, precisamente, um primata.

Guga, que formou com Renato uma dupla temida no meio-campo nos vários escalões de formação do Benfica, não se espanta com a rápida ascensão do amigo. As qualidades dele estavam à vista. Recorda um encontro na época passada contra os turcos do Galatasaray, para a Youth League, a Champions do escalão júnior. “Antes do jogo disse-nos que ia marcar um golo de cabeça, para o seu jogo ser mais completo. E marcou.” Entre os colegas, a sua capacidade de liderança era reconhecida por todos, mesmo que poucas vezes tenha usado a braçadeira de capitão. Não precisava. “Sentíamos que era um líder. A equipa ia atrás dele. Era um poço de força e acreditávamos nele. Hoje vejo-o a falar com os colegas como se tivessem a idade dele. É por isso que se destaca.”

Bulo sempre foi assim: mais emocional do que racional. Nos jogos grandes chegava-se à frente, sacrificava-se, nunca se escondia. Às vezes excedia-se. Renato Paiva recorda um torneio para juniores na Irlanda, a Milk Cup. Antes de um dos jogos, o treinador pediu aos jogadores para, em vez de cruzarem logo a bola nos cantos, darem primeiro um toque curto para desposicionar a defesa adversária. No regresso ao balneário depois do aquecimento, ouviu Bulo, na altura o mais novo da equipa, dirigir-se aos colegas: “Esqueçam lá isso dos cantos curtos. Para fazer golos é preciso meter a bola na área.” O técnico meteu-o na linha: “Disse-lhe apenas: ‘Se queres ser jogador deixa-te de dar indicações técnicas e de falar sobre bolas paradas. Treinadores há muitos.’” Se tivesse ficado mais um ano no Benfica, Sanches seria “já esta época um dos líderes” do balneário, garante Paiva, que o vê como o futuro capitão da seleção. “Durante o Europeu piquei-o e disse-lhe que se estava a preparar para assumir a braçadeira quando o Cristiano se retirar. Sem menosprezar os outros jogadores, pelo perfil que tem, pela forma como contagia a equipa — e sei que no Euro ele contagiou muitos colegas — não tenho dúvidas que chegará lá.” Pepe confirma a boa energia do benjamim da seleção: “Só de olhar para ele dá-me vontade de rir, porque está sempre com piadas.”

“WILLKOMMEN IN BAYERN”

Ainda antes do início do Euro, o Bayern antecipou-se a clubes como o Manchester United e selou a transferência do promissor jogador. O acordo entre os dois clubes foi anunciado em maio, um dia depois da difícil vitória do Benfica contra o Marítimo, num jogo marcado pela expulsão de Sanches ainda na primeira parte, que podia ter hipotecado o título. “O árbitro veio com o cartão e eu nem queria acreditar na falta que tinha feito. Só pensei que tinha estragado tudo. Fui a correr para o balneário, tomei um duche de água fria e fiquei a ver o jogo em silêncio. Quando o Mitroglou marcou o 1-0, olhei para ele e pensei: ‘Já me safaste’”, contou numa entrevista, onde admitiu que, às vezes ainda se belisca para acreditar em tudo o que mudou na sua vida. “Foram meses de loucura, com tanta coisa boa a acontecer”.

O jogador, que custou ao Benfica 750 euros há oito anos, valerá para já 35 milhões de euros aos cofres encarnados, mas o negócio poderá chegar aos 80 milhões, dependendo de objetivos fixados em contrato, incluindo cinco milhões por cada 25 jogos que o internacional português faça, até um máximo de 25 milhões. Em qualquer caso, é a maior transferência de sempre de um português para o estrangeiro [até à data de fecho desta edição] e a terceira maior a nível mundial de um jogador com menos de 19 anos. Bastará cumprir um dos objetivos previstos no contrato para passar de imediato para o topo da lista.

Negócio. Enquanto outros marcavam as férias, o Bayern antecipou-se e pagou 35 milhões de euros (que podem chegar aos 80, dependendo de variáveis) para ficar com o prodígio do Benfica. “Este jogador vale o risco”, garante o presidente do clube alemão. Para já, ficará afastado até setembro devido a uma lesão

Negócio. Enquanto outros marcavam as férias, o Bayern antecipou-se e pagou 35 milhões de euros (que podem chegar aos 80, dependendo de variáveis) para ficar com o prodígio do Benfica. “Este jogador vale o risco”, garante o presidente do clube alemão. Para já, ficará afastado até setembro devido a uma lesão

FOTO Marc Mueller/Bongarts/Getty Images

O presidente do clube alemão, Karl-Heinz Rummenigge, não tem dúvidas que os bávaros fizeram um grande negócio. “Sentei-me com Carlo Ancelotti em março e concordámos: este jogador vale o risco. No Europeu já vimos o poder tremendo que ele dá à equipa, bem como a personalidade que tem aos 18 anos. É impressionante”, destacou Rummenigge, que aproveitou para dar uma bicada nos clubes que pretendiam o médio: “Ganhámos a corrida porque os outros estavam a marcar as férias. Se não o tivéssemos contratado antes, não teríamos tido hipóteses após o Euro”. A mãe do futebolista garante que ele está “muito tranquilo” e preparado para o desafio. “Ele tem muita confiança nele, nas capacidades que tem e naquilo que tem para evoluir”, contou no rescaldo da festa do título do Benfica. Por agora, o filho terá de esperar pela estreia na equipa de Munique: depois de ter sido apresentado e de ter treinado com os colegas, foi anunciado que estaria afastado três a quatro semanas por causa de uma lesão muscular contraída no Euro.

UM RAPAZ EXCECIONAL

Antes de selar a transferência para a Alemanha, Sanches comprou um apartamento na Alta de Lisboa, não muito longe do bairro que o viu crescer. Por estar em França com a seleção, não pôde estar presente no casamento da mãe com o companheiro de vários anos, mas pagou não só a boda como as roupas dos noivos, familiares e alguns amigos mais próximos, e ainda duas limusinas (uma branca e outra preta) para transportar o casal e alguns convidados. “É um rapaz excecional”, confirma Renato Paiva. “É muito ligado às suas raízes, nunca se esquece de onde vem. Mesmo estando a atingir patamares inacreditáveis, volta sempre à família, aos amigos, ao bairro. Tem um íntimo top”.

Depois daquele golo à Académica, que fez dele o mais jovem do século a marcar na Luz com a camisola do Benfica, cumpriu um ritual tantas vezes repetido nos últimos anos: entrou no bar do Águias da Musgueira, sentou-se e pediu uma bifana. Para ele, tudo continuava igual. “As conquistas aconteceram rápido mas na minha cabeça nada mudou. Sou o mesmo Renato”. Só que a polícia já não o manda parar (foi revistado dezenas de vezes e numa ocasião passou pela esquadra por causa de um grafito) nem as pessoas passam para o outro lado do corredor quando se cruzam com ele no Centro Comercial Colombo. Agora, cercam-no para pedir autógrafos.

Mourinho, que quis levá-lo para o Manchester United, resumiu-o numa entrevista à Sport TV. “Tenho a sensação que está ali um tão bom miúdo como tão bom jogador.”

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 20 agosto 2016