Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

Foi o pé que não contou para o Rui a fazer o Rui lamentar

O Benfica nunca teve mais bola nem acertou mais passes que o Besiktas. Mas inventou soluções para jogar como não costuma e ficar a vencer o durante mais de 80 minutos. Até Talisca, que marcara o último golo dos encarnados na Liga dos Campeões, lhes dar o primeiro golo sofrido nesta edição da prova - e outra vez de livre

Diogo Pombo

Comentários

Anderson Talisca, o esguio brasileiro que fechou a última Liga dos Campeões a marcar de livre (ao Bayern de Munique), começou esta a marcar da mesma forma. Só que ao Benfica

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Partilhar

Depois de ser jogador e antes de se tornar treinador, Guardiola teve umas ideias. Estava numa altura mais parada, muito amigo do sofá lá de casa, e o El País pediu-lhe para estar com atenção ao que se passava no Mundial de 2006. Não ficar longe de um computador e bater no teclado com as coisas que lhe iam passando pela cabeça. Foi nesta onda que viu Zidane jogar e o considerou como o melhor defesa da seleção francesa que chegou à final, para perder com a Itália.

Ora, nem nessa equipa e tão pouco em qualquer outra, Zidane estava perto de ser o melhor a roubar bolas, fechar espaços, vigiar adversários ou tudo o que se pareça com defender. A arte do careca estava no relacionamento sério que mantinha com a bola - mas era aí mesmo que Guardiola o via a defender. Porque o careca “a pedia, a tinha, a passava, a voltava a pedir, a voltava a ter e a voltava a passar”. Era assim que "os franceses se iam organizando”. O que ele queria dizer com isto é que a equipa sabia como respirar sem bola quanto maior fosse o tempo que o melhor jogador da equipa passava com ela.

Fazia, e faz, sentido: uma equipa é feita de boas escolhas e, se as tiver com fartura com bola, é mais fácil que não se desorganize quando a perder. O problema desta ideia, para uma equipa como o Benfica, divide-se em dois. Porque não há nos encarnados, nem em Portugal, nem na Europa, nem no Mundo, um jogador como Zidane; e porque, à escala do Benfica, há a lenga-lenga de já não haver Gaitán e de ainda não existir Jonas, embrulhado em astrágalos, osteófitos, hematomas e drenagens e os demais nomes médicos que não o deixam o jogar.

E se o brasileiro não joga, Rui Vitória não tem a equipa a jogar com calma. A ter a bola com tino, a preferir o passe à velocidade e a organização ao risco. Sem Jonas não há pés que segurem a bola, que a toquem bem para os outros, que orientem os restantes com um passe, que sirvam de referência perto da área ou longe dela. A coisa não seria tão má se houvesse o físico de Mitroglou para segurar bolas, ou a quilometragem de Jiménez para cansar os centrais. Não havendo, o Benfica tem de ser diferente. Por isso é que demora seis minutos a passar a linha do meio campo com passes rasteiros. Raramente tem a bola mais do que 30 segundos. Sempre a tem durante menos tempo e com menos passes certeiros que o Besiktas, até ao intervalo. Sofre para avançar a equipa para o ataque, por serem poucos os jogadores que aguentam a bola e deixam que os restantes avancem.

Os turcos encostam os encarnados à área durante os primeiros dez minutos e, nos restantes, recuperam rápido a bola. Avançam, tentam passes para a corrida de Aboubakar e fazem muitos para Quaresma, que com fintas, simulações e pedaladas na bola vai ganhando faltas e fazendo Grimaldo perder cabelos. Joga como não costuma e sofre, mas isso não quer dizer que jogue mal - joga é diferente. Mais simples e direto, como o passe que Salvio pediu para as costas da defesa do Besiktas e Lindelöf lhe deu, quando viu o argentino a sprintar em diagonal, da direita para a esquerda, e rematou a bola com o pé esquerdo. Foi tudo tão rápido que o guarda-redes Zengin defendeu para a frente de Cervi, que estava na pequena área para pôr um estádio a festejar (12’).

As coisas, depois, continuaram mais ou menos na mesma. Pizzi tentava ser o senhor passe e ligar jogadas, mas a rapidez que Cervi, Guedes e Salvio colocavam em todas as bolas recuperadas tornavam o Benfica numa espécie de máquina que só tem um botão e uma função, contra-atacar. Foi assim que Guedes, o avançado à força, podia ter feito melhor quando só teve confiança no pé direito e, na área, quis ir para dentro e fez acabar num desarme uma jogada que tinha cara de golo (43’). De resto, a ideia de Guardiola do melhor defesa ser um homem com jeito de bola era coisa impossível. Ali defendia-se pela organização e por fazer com todos estivessem no sítio certo e a correr para compensar os outros. O que só deu aso a um livre batido por Quaresma à mãos (30’) de Ederson.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Essa forma de fazer as coisas continuou a resultar, mesmo que o Besiktas fizesse experiências. Quaresma foi da direita para a esquerda. Adriano, o defesa ambidestro que era do Barça, passou a ser extremo. E do banco saiu Talisca para os adeptos encarnados o aplaudirem enquanto assobiavam o extremo campeão europeu. Os turcos melhoraram, os laterais já passavam nas costas dos extremos, os médios chegavam-se à frente para as segundas bolas e, com isso, deixavam espaço nas costas. Coisa boa para o Benfica.

Passou a haver mais incentivo para a equipa encolher-se sem bola e esticar-se ao máximo mal a recuperava. O lema era contra-atacar e tornar os passes em cães de caça que farejam qualquer metro disponível de relva. Gonçalo Guedes, o miúdo que prospera a ir receber a bola no espaço, mas tem que se esforçar para a ter num cerco de adversários, já aparecia. Salvio e Pizzi davam os passes, Cervi corria para as segundas bolas. André Horta colava-se mais a Fejsa para deixar que os outros quatro descolassem para os ataques rápidos. Estes duraram até as pilhas de Guedes o deixarem correr, até mais ou menos aos setenta minutos.

Aí reapareceu o problema de Rui Vitória - ou de Arnaldo Teixeira, o amigo e adjunto que mandava no banco por o treinador estar suspenso na bancada -, pois o Benfica não tinha gente para se refrescar na frente e optou por se fortalecer atrás. Samaris juntou-se a Fejsa para serem os seguranças da porta da área e nada deixaram entrar pela relva. Só que, pelo ar, os turcos quase fizeram (74’) o que não gostaram que os encarnados lhes tivessem feito: passe longo, bola na área, e o peito de Tosun a amortecer a bola que Aboubakar lhe devolveu para o avançado, a três metros da baliza, rematar por cima. Foi um susto que não assustou tanto quanto a bola que Hutchinson rematou com a cabeça, após um livre, e que obrigou Ederson a salvar o 1-0, no primeiro minuto dos descontos.

Só que o árbitro quis compensar com quatro minutos. E, no último, alguém que não tem contado muito (Celis) tocou com o braço na bola e deu um livre a quem não contou esta época para o Benfica. A bola parou e o pé que melhor a batia quando estava nos encarnados fez, no primeiro jogo desta Champions, o que, na época passada, fizera na última partida desta competição. Talisca, o brasileiro, o pé esquerdo, o remate, o perigo nos livres que foi emprestado aos turcos, marcou. E o Benfica acabou a empatar e a apenas cumprir metade do que Rui Vitória disse antes do jogo: “Não vale a pena lamentos, mas arranjar soluções”. Até as arranjou, só que ficou com um motivo para lamentar.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

  • “Foi realmente um balde de água fria”

    Benfica

    André Horta e Franco Cervi, jogadores do Benfica, lamentam o resultado, relativizando contudo a importância do empate. Enquanto Ricardo Quaresma, que alinha pelo Besiktas, diz que o resultado “acaba por ter um sabor a vitória”

  • Em direto: Benfica 1-1 Besiktas (fim)

    Liga dos Campeões

    É a estreia do tricampeão nacional na edição 2016/17 da Liga dos Campeões. Estamos em direto na Tribuna Expresso. Cervi inaugurou o marcador (12') na primeira vez que o Benfica chegou perto da baliza turca, mas Talisca empatou, de livre, já nos descontos (93').