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Amigo não empata amigo

Benfica e Braga disputam o jogo grande da jornada (hoje, 20h) que opõe dois presidentes próximos e mais parecidos um com o outro do que gostam de reconhecer

Pedro Candeias, Isabel Paulo e Abílio Ferreira

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Às tantas, Jorge Jesus desistiu. Não estava mais para aquela conversa de quem lhe devia o quê, e desistiu dos 200 mil euros. Custou-lhe. É que se o dinheiro é um assunto sério para qualquer homem, é seríssimo para Jesus, que veio de baixo, perdeu um milhão de euros no BPP, e depois se transformou num hábil negociador (e renovador) de contratos. Mas, naquela altura, Jesus não conseguiu bater Luís Filipe Vieira, nem António Salvador.

Aconteceu no verão de 2009: o Benfica queria contratar J.J., o Sporting de Braga queria receber os 700 mil euros da cláusula de rescisão, o treinador exigia outros 200 mil euros que contratualmente lhe tocavam; o Benfica dizia que pagaria os 700 mil euros, mas que os 200 mil eram com o Braga e o Braga respondia que eram com o Benfica. Vieira e Salvador sacudiram a água do capote, sabendo que Jesus queria dar o pulo e que, por isso, quando chegasse o dia, deixaria cair o assunto. “Simularam um conflito para não terem de lhe pagar”, diz alguém próximo das duas estruturas.

A transferência de Jorge Jesus do Sporting de Braga para o Benfica é apenas uma entre estes clubes nos últimos anos: ao Minho já chegaram mais 23 milhões de euros provenientes da Luz; FC Porto e Sporting gastaram 11,625 milhões e 10,250 milhões, respetivamente. A última troca teve contornos estranhos, porque se prolongou no tempo, durante muito tempo, até ao limite, e envolveu uma verba recorde. Rafa começou por ser negociado com o FC Porto em janeiro de 2016; no verão, o Benfica pôs-se na corrida, os rivais andaram taco a taco e o empresário António Araújo esteve a um passo de dizer a Vieira que estava tudo feito com os dragões.

Mas, depois, o paradigma mudou: Pinto da Costa disse que não entrava em leilões, Vieira reposicionou-se, o Sporting pressionou, o Benfica mandou dizer que desistia, acabou por não desistir, e pagou mais de 16 milhões de euros ao Braga pelo futebolista. Contra a vontade de Rui Vitória, Luís Filipe Vieira cedeu Rui Fonte (e Benítez) ao Sporting de Braga como contrapartida, porque tinha dado a palavra a Salvador que o faria. Ficou tudo acertado entre eles e é aqui que tudo bate certo: os negócios entre os encarnados de Lisboa e de Braga intensificaram-se, porque à frente dos clubes estão dois homens que se conhecem há muito. São amigos e parceiros, numa relação que, garante quem os conhece, “é próxima”. Eles não desmentem.

“A relação com Vieira é anterior à convivência enquanto presidentes do Benfica e do Braga. Mantenho contactos quer profissionais quer pessoais, que vão além dos que estabelecemos enquanto representantes de duas grandes instituições”, diz Salvador ao Expresso. Vieira exclui as questões pessoais quando lhe perguntamos sobre o que o une a Salvador: “O Benfica procura ter sempre as melhores relações institucionais com todos. E o Braga é um bom exemplo, através de uma defesa eficaz dos interesses mútuos das instituições.” A expressão chave é “interesses mútuos”. Isto é verdade para o futebol e para a vida.

Uma relação de betão

Luís Filipe Vieira tem 67 anos e António Salvador 45, o que faz dele seis anos mais velho do que Tiago, o filho varão de Vieira. Numa realidade alternativa e em circunstâncias muito peculiares, Luís Filipe podia ser o pai e António o filho, porque têm idade para isso e são mais parecidos um com o outro do que gostariam de admitir — acontece em todas as relações entre pais, mães, filhos e filhas. E são ambos teimosos e orgulhosos, nenhum dá o braço a torcer nas negociações e os dois acham sempre que saíram vitoriosos das mesmas e não os apanharão a reconhecer a derrota, mesmo que seja tão evidente como o sol num dia de sol e a chuva num dia de chuva. Além disso, têm cuidado com o que comem e com o que vestem, querem andar sempre na linha e apresentáveis. Diferem nos hóbis: Vieira não dispensa uma boa cartada com os amigos, Salvador é capaz de passar um fim de semana a ver futebol pela TV e sabe os nomes, um por um, dos jogadores dos plantéis das grandes ligas europeias.

Embora tenham chegado à liderança dos clubes na mesma altura, em 2003, os primeiros contactos entre um e outro começaram muito antes, no mundo do betão. Luís Filipe Vieira é detentor da Promovalor e António Salvador da Britalar, a empresa que constituiu no regime da era autárquica socialista de Braga para se emancipar ao pai, um pequeno empreiteiro local. Foi a Britalar que construiu, aliás, o Centro de Estágios do Seixal do Benfica , uma obra de 16 milhões de euros que acabou com um acordo extrajudicial, porque Salvador acusou o Benfica de lhe ter ficado a dever 1,7 milhões de euros.

Mas há mais. Salvador e Vieira terão tido, em 2011, um princípio de entendimento para que o primeiro liderasse o consórcio de Braga para um gigantesco empreendimento de 250 milhões de euros no Sotavento algarvio, que não saiu do papel. Há informações, finalmente, de que ambos têm negócios em Moçambique, e que Salvador poderá estar a tentar parcerias na promoção (ou de venda) de terrenos seus com a Promovalor. O presidente do Braga confirma o contacto, mas descola duas realidades: “São muitos anos de convivência e de amizade que não se sobrepõem ao lado institucional, quando defendemos os nossos clubes.” É uma lei da física: cargas opostas atraem-se, cargas iguais, repelem-se. E o Benfica e o Braga querem coisas iguais.

Não agressão

Na segunda-feira, as direções do Benfica e do Braga vão lanchar antes do jogo (20h, BenficaTV), a convite do clube da Luz. Os arrufos gerados pelo caso Rafa já lá vão e é tempo de reequilibrar as forças. Outra vez.

António Salvador e Luís Filipe Vieira têm um acordo implícito — se percebem que a coisa pode azedar, deixam que os clubes se resolvam, se entendam ou se chateiem por outros intervenientes. E isso não é difícil de acontecer, porque há gente no Benfica que não pode com Salvador e gente no Sporting de Braga que não pode com Vieira. E como eles podem um com o outro, afastam-se se o tema é quente — preservam-se desde aquele episódio da Britalar com o Seixal. “A proximidade com o Jorge Mendes também ajudou a serenar, porque o Jorge é um fazedor de pontes”, diz ao Expresso uma fonte próxima dos dois presidentes.

“Não minto se disser que há uma grande estima e consideração de parte a parte”, confessa Salvador ao Expresso, a propósito da sua relação com o superagente. Trocas como as de Tiago, Armando Sá, Ricardo Rocha e Amorim são patrocinadas por Mendes. E também é com ele que são feitos negócios peculiares: o de Danilo, o médio que chegou à Luz por empréstimo do Braga com opção de compra de 50% do passe (15 milhões de euros), após uma passagem pelo Valência; e o de Pizzi, que foi vendido pelo Braga ao Atlético de Madrid por 13,5 milhões de euros e comprado pelo Benfica, em duas fases (6 milhões, em 2013, mais 8 milhões, em 2015).

O Valência e o Atlético de Madrid são emblemas com a impressão digital da Gestifute, pelo que Mendes funciona como facilitador para Vieira e Salvador. E quando assim é, todos parecem sair a ganhar, mesmo que este seja um jogo em que só um pode ser declarado vencedor.

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de setembro de 2016