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Toca, espera, recebe e passa. A caixa que faz magia no Seixal

No Seixal há uma caixa quadrada, chamada 360s, que coloca alguém no meio, dispara bolas dos cantos e pede ao jogador que reaja, receba e passe. Rápido. O Benfica e a Adidas convidaram-nos para a irmos experimentar enquanto Salvio e Grimaldo, que nunca a testaram, olhavam para nós

Diogo Pombo e André de Atayde

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“Nós? Nunca experimentámos isto.”

Resposta estranha. Tenho dois tipos profissionais à minha frente, recebem dinheiro para jogar futebol. Salários de milhares de euros para se preocuparem com treinar, cuidar do corpo, alimentarem-se bem, dormirem como deve ser e não darem bola aos excessos. Estão num clube dos grandes, com dinheiro suficiente para construir a coisa na qual entrámos, há minutos, e que é uma espécie de luxo para quem já tem a sorte de ganhar a vida a correr atrás de uma bola. E eles dizem-me que nem por uma vez entraram aqui, treinaram passes e foram analisados no meio desta geringonça.

Ao mais baixo e descontraído até percebo. Alejandro Grimaldo chegou há ano e meio ao Benfica e apanhou o avião em Barcelona, terra do clube que podia abrir uma licenciatura em como passar a bola. Mas o meu nariz torce-se quando olho para o tímido e reservado em palavras. Salvio vai na sexta época nos encarnados, já por ali andava quando a 360s apareceu no centro de estágio do clube, no Seixal. No entanto ali estão eles, treinadores por um dia, cada com o seu grupo de jornalistas que o Benfica e a Adidas convidam para experimentarem o que os jogadores nunca tentaram.

Para eles, aquilo deve ser como dar toques com a bola no início do treino, antes de o mister chamar toda a gente. A 360s é uma espécie de campo quadrangular, rodeado por uma rede, com mais de dois metros de altura, onde são projetadas imagens com painéis LED. Isto é a parte fácil. A difícil é anunciada por uma contagem decrescente para bolas começarem a ser disparadas, por máquinas, dos quatro cantos do quadrado. Comigo, que sou o primeiro a experimentar, e com os restantes jornalistas, a caixa é meiga - apenas usamos metade, ou seja, as bolas vêm de dois cantos. E chegam mais lentas, já que o responsável do Benfica Lab, que nos explica como a coisa funciona, diz que as bolas são disparadas a 40 km/h.

Mas podiam vir, no máximo, a 80 km/h. Pensem assim: se vos atirasse algo a essa velocidade, fora uma bola de futebol, o instinto diria para se desviarem. Assim que a máquina solta a bola, o jogador tem cinco segundos para fazer uma, de duas coisas. Passar a bola a um dos bonecos equipados à Benfica que é projetado e parece um miúdo nervoso a quem não ensinaram a correr devagar; ou optar pelo passe longo, que implicar acertar em alvos que estão nos cantos superiores das redes. Tenho num sorriso na cara enquanto escrevo isto, porque é bem mais fácil do que no dia em que estou lá no meio, a receber bolas e a ter que passá-las.

António Bernardo

O problema não é a velocidade ou o tempo que se tem para receber a bola, levantar a cabeça, olhar e chutá-la. É mais acertar no sítio certo, pois o objetivo não é fazer tiro ao boneco. A 360s exige passes para o espaço, para a desmarcação do boneco que corre - e, já agora, que foge a dois adversários que estão equipados à FC Porto. Acertar em cheio no jogador é um acerto que não dá pontos. E quanto mais lentos formos a receber, olhar e passar, menos pontos recebemos. A máquina mede tudo, o acerto no passe, o tempo de reação e a visão periférica do jogador, resultado numa pontuação que, no final, é projetada numa das paredes de rede.

Para quem anda ali no meio a receber bolas, a ideia é melhorar a técnica, aprimorar o tempo de reação e até regressar de lesões, com calma. Como Salvio e Grimaldo não costumam andar ali, deduzi que a caixa é mais abriga para jogadores da equipa B do Benfica e dos escalões de formação. E se o objetivo é mimicar o que se passa em jogo, tempo para se ter a bola será bem menor. Porque, no campo e na vida real, ter cinco segundos para decidir o que fazer à bola é um luxo que devia ser tributado.

Cada jornalista teve entre 30 a 40 segundos para experimentar a caixa. Era uma equipa contra a outra, a minha perdeu e viu Grimaldo juntar-se à sua, que pulou, berrou e abraçou-se assim que soube que tinha vencido. Todos tiveram direito a usar o balneário do Benfica na Caixa Futebol Campus, pisar o relvado e dar uma volta no centro de treino onde, todas as manhãs, Luís Filipe Vieira diz que gosta de passear.

António Bernardo

Voltando à caixa, e depois de a experimentar, já percebo. Passamos a vida rodeados por filmes, livros e ideias que teorizam as alturas em que a máquina se junta ao homem e o ajuda em coisas que ele, sozinho, faz pior do que ela. O argumento de que tudo o que é robotizado nunca será uma réplica fiel, sem aldrabices, ao que nós fazemos, vale quase sempre. Talvez por isso a 360s seja melhor para miúdos que o Benfica faz crescer do que para jogadores a quem o clube paga para o fazerem ganhar.

Estar circunscrito a um círculo, onde se recebe bolas com força para depois as passar contra alvos projetados com luzes LED não chega a imitar uma situação de um jogo de futebol. Porque não há oposição, não implica desmarcações, não exige o toca-e-vai, e a imprevisibilidade é pouca (as bolas só podem vir de quatro sítios). Mas é bom para treinar a receção, o passe, a pontaria, o tempo de reação e a capacidade de concentração. Isso ninguém lhe tira.

*O Expresso foi à Caixa Futebol Campus a convite do Benfica e da Adidas, para a apresentação das chuteiras "Speed of Light".