Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

O Benfica é bom de bola, mas só de bola parada (a crónica de uma vitória tremida)

Os encarnados ganharam por 2-0 ao Desportivo de Chaves, um adversário que rematou duas vezes ao poste de Ederson e teve um falhanço incríve na primeira parte. A equipa de Rui Vitória marcou depois do intervalo, em lances de bola parada

Pedro Candeias

Comentários

FRANCISCO LEONG

Partilhar

Há dois tipos de treinadores, os que se adaptam ao contexto e os que constroem o contexto, e Jorge Simão está claramente entre os segundos – e estes são normalmente entre os primeiros quando se fecham contas e se fazem balanços. Não vou dizer que é o tipo mais criativo e original que por aí ainda, um reinventor da roda, do motor de combustão ou do compasso, mas as equipas dele andam bem, não se engasgam e raramente se perdem - e perdem menos do que era suposto, se olharmos para os jogadores que tem.

A estratégia de Simão está assente num princípio simples e primário, estilo slogan de t-shirt: a irracionalidade do medo. Mas aqui é que a coisa se complica. Vão lá explicar que o medo não existe a um clube que não andava na primeira divisão desde que a Cher dominava as vendas com a canção “Believe. Para quem não sabe, isto foi em 1999, o ano em que o Manchester United believed que podia dar a volta ao Bayern de Munique, em Camp Nou.

A palavra-chave é acreditar. E o Chaves de Jorge Simão, tal como o Belenenses e o Paços de Ferreira de Jorge Simão, acredita pode ganhar todos os jogos, mesmo os mais improváveis, como são os que opõem os mais pequenos aos maiores.

Há bocadinho, contra o Benfica, foi assim:
O Chaves entrou a pressionar alto com Braga, Battaglia e Assis, Fábio Martins e Rafael Lopes. Sim, todos. Quando tinha a bola, atacava a baliza de Ederson à qual chegava com três ou quatro toques; e quando a perdia, não recuava, ficava lá à frente, porque quem quer marcar consegue fazê-lo assim, sobretudo quando encontra laterais que atacam melhor do que defendem.

Esta, obviamente, é uma indireta para Semedo, embora o defesa tenha direito a um desconto, porque quem ficou de o ajudar só fez disparates: o dia em que Salvio deixar de perder bolas no um-contra-três e de se estatelar no chão como quem põe os pés numa tábua de skate continuadamente pela primeira vez, será um dia bom para Semedo.

De volta ao Chaves e aos jogadores do Chaves, a quem Jorge Simão deve ter lido uma passagem de Miguel Torga, a que diz “estes homens não têm medo senão da pequenez, medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura”.

Está n’ “Um Reino Maravilhoso”, o mesmo em que se escreve “para cá do Marão, mandam os que cá estão” e os rapazes do Chaves quase, quase justificaram o ditado naquele lance (40’) que durou quatro segundos, mas pareceu uma eternidade para ambos os lados: uma bola ao poste por Braga, a segunda bola ao poste por Fábio Martins, e um falhanço de Rafael Lopes, a Zita Seabra do futebol português, tantas são as camisolas que vestiu nos últimos anos: Varzim, Vitória de Setúbal, Moreirense, Penafiel, Académica e Chaves.

Rafael é duro, expedito, espevitado e trabalha muito, mas não marca golos (10 golos nos últimos dois anos) e o que marcou hoje foi anulado por fora de jogo (19’). A Mitroglou também invalidariam dois (37’ e 62’), mas ele não é homem para ficar incomodado com isso – já lá iremos – e é por isso que custou €7 milhões.

Concluindo a primeira parte: o Chaves criou perigo de todas as maneiras e feitios e não fez o golo; o Benfica teve sorte e só de bola parada conseguiu mexer com o jogo.

FRANCISCO LEONG

A troca

Depois do intervalo, Rui Vitória trocou Guedes com Pizzi e o transmontano passou a andar ali pelo meio, atrás de Mitroglou, e o Benfica equilibrou as forças no meio-campo em que Battaglia ia ganhando todas as - vem aí trocadilho - batalhas em que se metia.

Aos poucos, os encarnados assumiram o jogo e ganharam velocidade, ou melhor, pareceram ganhar velocidade simplesmente por estarem a ligar jogadas, coisa que não sucedeu na primeira parte. Isso criou a ilusão de que corria mais e com mais intensidade, o que não é verdade.

O que é verdade é que o Benfica é bom de bola parada e foi assim que marcou o primeiro golo (legal), por Mitroglou (69’) a passe de Grimaldo, e o segundo, por Pizzi, depois de um ressalto de um remate de Grimaldo à barreira. No meio disto tudo, saíram Salvio (por Cervi), Horta (por Celis) e Guedes (por Carrillo) e, das três substituições, a que melhor resultou foi primeira. Não que Cervi tenha feito muito, mas o que fez, fez melhor do que Salvio - e esta é uma história que não vem de agora.

Resumindo, este Benfica amorfo, às vezes vulnerável e incapaz de controlar o jogo, segue na frente e é, agora, o único clube que não perdeu neste campeonato. Mas o Benfica está onde está sem Jonas, Jardel, André Almeida ou Rafa e é aí que está o mérito de Rui Vitória, o treinador que olha para o contexto, abraça-o, dá-lhe a volta, uma palmada nas costas e segue a sua vida como se nada se passasse. Os gregos diziam que a virtude é o traço que distingue aquele que consegue pôr uma coisa a fazer o que ela deve fazer – e, em última análise, o Benfica, o Sporting e o FC Porto foram feitos para ganhar.

P.S: Uma palavrinha para Vukcevic, que voltou a jogar em Portugal, e até fez um remate perigoso à baliza de Ederson. O montegrino diz que regressou porque gosta da nossa comida; o perímetro abdominal não o desmente.