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À vontade não queria dizer à vontadinha

O Benfica acabou a primeira parte a perder, sim, mas a jogar melhor do que o Nápoles. Só que depois sofreu três golos, dois de bola parada, e Júlio César fez má figura. Uma derrota humilhante só passou a ser pesada (4-2) porque Guedes e Salvio ainda marcaram. Rui Vitória bem dissera que os encarnados “encaram todos os jogos com um à-vontade tremendo”

Diogo Pombo

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CARLO HERMANN

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Perdoem-me, mas o jogo foi em Nápoles.

E não há melhor desculpa para falar em Diego Maradona do que a cidade que o viu a jogar melhor à bola. É a partir daqui que vou tentar fazer uma associação de ideias e vos convido a virem comigo. Entre os finais da década de 80 e o início dos anos 90, quando o argentino tinha a bola e gozava com quem corria atrás dele no campo, havia outro argentino em Nápoles. Chamava-se Fernando Signorini e Maradona pagava-lhe para ele olhar por aquilo que o talento, por muito que seja, não controla - o físico.

Como amigo de Diego nosso amigo é, acredito que uma frase que, há tempos, li do senhor Signorini seja uma das verdades absolutas desta vida. Ele disse, inspirando-se em César Luis Menotti, outro argentino, que treinou Maradona no Mundial de 1982, que “o futebol é uma das melhores desculpas desta vida para sermos felizes”. Rui Vitória, como anda nisto há bastantes anos e já ganhou umas coisas, sabe que a melhor maneira de se agarrar à felicidade é fazer o que lhe está no apelido. Mas, se isso fosse tarefa fácil, ele ganharia mais vezes do que ganha, que já são bastantes por o treinador do Benfica ser um tipo que se adapta ao contexto.

Esta característica, como escreveu outro dia o Pedro Candeias, faz com que ele mude consoante o quem, o como e o onde que vai encontrar. E o Nápoles, a Liga dos Campeões e a partida fora de casa mais difícil fizeram-no dar a titularidade a um peruano que nunca a tivera esta época (André Carrillo), e a um português (André Almeida) que apenas jogara um minuto até aqui.

Pareciam invenções a mais até se perceber que, com André Horta a correr atrás de Mitroglou, a ideia era ter mais um homem ao centro, habituado a fechar espaços e defender. Para não deixar os italianos trocarem bolas pelo meio e obrigá-los a jogar por fora. Na mouche.

O Nápoles não ganhava metros com a bola por dentro. Hamsik, o último dos moicanos, tinha de recuar para a conseguir receber e virar-se com ela em sítios onde já não fazia mal a ninguém. Mertens e Callejón, os extremos, só recebiam passes para os devolver para trás. Milik tinha um flirt sério com o fora-de-jogo. E o segundo classificado da Série A e única equipa sem derrotas em Itália era banalizado não por estar a sofrer, mas por não conseguir magoar. E o Benfica, com tantos jogadores ao meio que se mantinham perto uns dos outros, viciava-se em tabelas, toca-e-vai e em queimar adversários nas jogadas através de passes. Rápidos, de preferência, como os que lançaram Semedo e Grimaldo até à linha, para cruzarem rasteiro.

O pé esquerdo de Mitroglou não foi simpático com nenhum dos passes, mas era a prova de como os encarnados estavam bem. E eram melhores. Mas a posse, os passes, as oportunidades e os ímpetos no futebol desaparecem quando a bola pára. E foi um canto, à direita, que deixou Fejsa a reagir como uma preguiça que se lembra de agarrar outro ramo na árvore - sim, lento - quando Hamsik apareceu à sua frente, para cabecear perto do primeiro poste. O golo (20’) não premiou os dotes de camaleão de Rui Vitória e do Benfica, que foi saindo melhor a jogar e era a equipa que mais sabia como anular a outra.

CARLO HERMANN

Faltava todos chegarem perto de Mitroglou. A companhia que André Horta dava a Pizzi e a mão que André Almeida quase dava a Fejsa deixavam o grego sozinho, lá na frente. Ao intervalo, fora o golo que tinha a menos, este era o maior problema do Benfica em Nápoles. Tomara que todos os problemas fossem estes.

O lugar-comum “entrar no jogo a perder” existe devido a situações como a que aconteceu aos encarnados após o intervalo. Por culpa deles, claro. Porque não se perde uma bola no próprio meio campo e se demora tanto a fechar uma auto-estrada, ao ponto de se ter que fazer uma falta à beira da área. A bola parou e Mertens, no livre, fez Júlio César parecer uma árvore com raízes centenárias (51’). Ainda se tentava perceber como o Benfica reagia a isto quando Alan, com o bico da chuteira, rematava contra o corpo de Lisandro e o ressalto teve Callejón como o primeiro a visitá-lo - e Júlio César como a visita que chega atrasada. O penálti parou a bola outra vez e Milik marcou o seu sétimo (54') em oito jogos.

O que é mau pode sempre piorar e Júlio César, que já tinha feito de menos, ainda saiu da baliza para socar uma bola na qual não acertou. Resultado: ela bateu no corpo encolhido de Nélson Semedo e ressaltou para a frente de Mertens, que só teve de rematar para a baliza deserta, a um metro dele (58’). Em seis minutos, o Benfica passava de caçador a goleado e tanto a acontecer em tão pouco tempo, claro, mexe com a cabeça de quem joga.

Os encarnados desligaram-se entre eles. Mitroglou mais sozinho ficou, os extremos queriam era provar algo com bola e não recuavam quando não a tinham. André Almeida acusava a falta de ritmo e apenas ficava, sem subir e descer no campo que lhe parecia ser uma serra inclinada. A equipa partiu-se, falhou mais passes, teve jogadores a tentarem reagir sozinhos e em vez de acompanhados. E não sofreu mais porque não calhou Milik marcar outro, depois de Júlio César, de novo, não agarrar uma bola.

E o Nápoles, tranquilo, com mais espaço, cheio de moral e com a confiança de um resultado que deixava arriscar, ficou melhor.

Trocava passes bonitos, pela relva e pelo ar, os jogadores mexiam-se muito e queriam mais. A confiança, contudo, só é boa quando não se deixam inchar por ela. Como Jorginho, que na metade do campo italiana passou para trás, sem olhar, e não viu Gonçalo Guedes a ler-lhe a mente e a apanhar a bola com que sentou Reina (71’). Depois, todos os napolitanos no estádio pareceram ter ficado a olhar para os jogadores do Benfica, que foram trocando a bola livremente até Salvio se fartar. O argentino, da direita para o meio, desmarcou-se a sprintar e esperou que Fejsa cortasse um passe pelo ar. A encomenda foi entregue e o extremo teve o único momento de classe do Benfica para dominar e desviar a bola (86’).

Só que foi pouco, apareceu tarde e depois de muitas falhas, desatenções e - agora, com o jogo acabado e sendo fácil concluir - apostas erradas. Rui Vitória escolheu jogadores para se adaptar ao Nápoles e, quando eles se desconcentraram, como quem não faz cerimónia e se põe demasiado à vontade no jogo, tirou-os. Para tirar do banco os que toda a gente esperava que jogassem de início. Foram esses dois que marcaram para uma derrota humilhante passar a ser "apenas" uma derrota pesada.

O treinador que se gabara de ter jogadores que "encaram os jogos com um à-vontade tremendo" viu-os a ficarem demasiado à vontadinha. E perderem de forma feia por causa disso. Assim, não dá para ser feliz.