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Benfica: se é fácil, o caminho é para eles

O Benfica ganhou ao Feirense por 4-0. A goleada começou com um autogolo de Luís Aurélio e acabou com o primeiro golo da vida de Grimaldo numa primeira divisão. Os encarnados lideram, agora, com três pontos de vantagem sobre Sporting e FC Porto

Pedro Candeias

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JOSE MANUEL RIBEIRO

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Quando Rui Vitória readaptou a teoria da rotação dos guarda-redes, isto de acertar o onze do Benfica tornou-se um jogo ainda mais difícil: é ter um olho no boletim clínico e outro no plantel, fazer as contas, esperar pelo dia do jogo e fazer um-dó-li-tá entre Ederson e Júlio César. Não é uma brincadeira de crianças, é um quebra-cabeças, sobretudo para os desportivos que largam de manhã as equipas prováveis e se veem desmentidos pela realidade à tardinha.

Adivinhar, um por um, os jogadores que Rui Vitória põe em campo é agora tão improvável como haver dois gémeos separados à nascença a quem os pais adotivos deram o nome de Jim, que casaram duas vezes, uma delas com uma mulher chamada Betty, e se encontraram aos 39 anos para saber que tinham sempre fumado os cigarros da mesma marca e sempre guiado um Chevrolet de cor azul desmaiado. É improvável, mas possível.

Tal como é possível haver dois gémeos, o João e o Luís Aurélio, a jogar na primeira liga e ambos com queda para marcar golos na própria baliza. O João fez um autogolo no Dragão contra o Porto, o Luís fez um parecido na Luz contra o Benfica há minutos. Aconteceu quando Salvio fez um dos lançamentos do dardo a duas mãos e a bola foi ter com o pé esquerdo do jogador do Feirense.

Pronto.

Foi o desbloqueador de conversa perfeito para o Benfica, que estava a falar mais e melhor que o Feirense, mas não encontrava meio de dar aquele punch final que fechasse o diálogo. Porque, até esse momento, os rapazes de Santa Maria de Feira tinham andado em cima de Pizzi e de Guedes, e sem alguém que desse letra pelo meio, o Benfica gaguejava.

Basicamente, era um jogo pouco pensado e muito prensado. É estranho - ou é o futebol, dirão outros - que tenha sido apenas este instante tragicómico a fazer a diferença entre as duas equipas.

É que os números mostravam um desequilíbrio brutal: 19-7 em ataques, 9-1 em remates, 6-1 em cantos, 71%-29% em posse de bola. Nem os cabeceamentos de Luisão, de volta ao onze (lá está), nem as correrias de Salvio deram para mais do que um golo marcado por remate alheio ao intervalo.

JOSE MANUEL RIBEIRO

Na segunda parte, as coisas mantiveram-se mais ou menos semelhantes: o Feirense a tentar aproveitar a ansiedade do Benfica, que queria chegar ao segundo para sossegar; e o Benfica à procura da sua sorte (ou de um disparate) para justificar o domínio territorial. E aconteceu o 2-0, por Salvio, quando Ícaro chutou a bola contra as pernas dele.

Ícaro é a personagem que queria tanto voar para fora de Creta que acabou estatelado no mar; o último golo de Salvio na Luz sucedera em 2015, a 28 de fevereiro, o mês esquisito dos 28 (e 29 dias); e nessa noite, o Benfica goleou o Estoril por 6-0.

Há que escutar os sinais quando eles falam connosco.

E foi assim, a favor do vento e do destino, que Cervi, provavelmente o mais baixo em campo, marcou um golo de cabeça após cruzamento de Nelson Semedo; e que Grimaldo, se calhar o mais baixo fez o 4-0 de livre direto, o primeiro golo da sua vida numa primeira divisão.

Ora, isto quer dizer que a vitória de Vitória se justifica porque o karma está com ele? Não. O Benfica acabou com 70% de posse de bola, 20 remates contra 5, 8 cantos a favor e um contra, e apenas quatro faltas cometidas contra as 15 sofridas. E o Benfica está há 19 jogos seguidos sem perder na Liga, sendo que a última derrota teve lugar em fevereiro, na Luz e frente ao FC Porto, que era treinado por alguém que sabe uma coisinha ou outra sobre o karma.

Abreviando: o Benfica venceu e venceu bem, porque aproveitou o que o jogo lhe deu numa altura em que o que tem para oferecer são as sobras que as lesões não levam.

Treinar este Benfica sem Jonas, Rafa, Jardel, Jiménez, Samaris e André Horta é um work in progress. E, isso, Rui Vitória fá-lo bem.