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Há suplentes há, Rui, e não são poucos

No Benfica não há cá titulares nem suplentes, disse o treinador. Mas quem não costuma jogar fez muito pouco contra o 1º Dezembro, que respondeu ao golo de Danilo com um penálti (cheio de classe) do filho e neto de quem muito fez pelos encarnados. A cabeça de Luisão só deu a vitória (2-1) num canto, aos 96' e a segundos do fim

Diogo Pombo

MANUEL DE ALMEIDA

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Yes, how many times can a man turn his head
Pretending he just doesn't see?

Foram “novas expressões poéticas”, como esta, uma entre tantas que Bob Dylan escreveu, que convenceram o comité do Nobel, ontem, a deixar um prémio de literatura a um escritor de canções. A um homem que inventou, escrevendo, para depois cantar o que inventava. Escreveu coisas que, lidas, não têm a mesma magia, o mesmo lirismo, que têm se forem cantadas. Mas não é preciso haver a guitarra ou a harmónica de Bob, por trás, a darem música, para as coisas que ele escreveu fazerem sentido. E para as podermos aplicar.

Olhando para os dois versos, imagina-se Rui Vitória a rodar a cabeça, fingindo não saber que horas eram e que tinha um relógio no pulso que lhe podia dizer. Eram quase 19h50, faltava menos de meia hora do jogo, e ninguém sabia qual era o onze com que o Benfica ia jogar contra o 1º Dezembro. O treinador só podia estar a gozar. Ou então estava indeciso, revirava a cabeça, puxava pelos neurónios para escolher os titulares. Acabou por seguir a regra que os grandes cumprem quando defrontam os mais pequenos, ou minorcas - escolheu quem não costuma jogar.

Mas Rui Vitória não viu, ou fingiu não ver, como cantou Dylan, que não é por treinarem juntos todos os dias que estes jogadores iam jogar bem juntos. E que o mais provável seria que estes, mesmo sendo melhores, com mais pés, com o pulmão mais cheio e tendo outro andamento, não dariam o clique que forma uma equipa capaz. Na primeira parte não deram. Danilo e Celis, os médios, assinaram um tratado sob o juramento de não arriscarem passes para a frente, rápidos e a procurar o espaço, e nunca o quebraram. O pé esquerdo certinho Zivkovic, de costumes simples e fáceis, não compensava a displicência e a moleza que Carrillo tinha do outro lado do campo.

Falhavam-se passes de dois metros. Acertava-se com a bola no boneco em vez de a passar para o espaço diante de quem se desmarcava. Não se quebravam linhas do adversário nem se tiravam homens de uma jogada, com passes na vertical, para a frente. As bolas que se mantinham de um lado, no engodo para atrair os outros, pareciam caracóis quando se punham a caminho do lado oposto. Quando coisas destas se acumulam, uma equipa que no papel é melhor não consegue sê-lo de verdade, no campo. E a lentidão do Benfica até ao intervalo permitiu que, aos poucos, o 1º Dezembro saísse da casca e pressionasse os encarnados.

Tão molengona era a equipa de Rui Vitória que, saída a jogar de peito feito, perdeu uma bola (9’) que, roubada por outra equipa maior, teria dado golo no remate que Gonçalo Maria, de primeira, passou rasteiro e ao lado da baliza. O Benfica era dono da bola, ganhava os ressaltos, dizia onde se jogava. Mas nunca conseguiu cansar uma equipa entre o amador e o profissional, obrigá-la a abrir espaços ao centro do campo, sítio que qualquer treinador ensina que é por onde a bola não pode entrar na área. Só entrou mesmo vinda de lado, pelo ar, quando Eliseu a cruzou e a cabeça de José Gomes rematou a bola que falhou a baliza por pouco.

Foi a única oportunidade - porque houve espaço e tempo para o campeão europeu, que ainda não jogara esta época, olhar e cruzar à vontade - que os encarnados criaram. Rui Vitória não podia olhar para o lado e fingir que não via isto.

MANUEL DE ALMEIDA/Lusa

Bob Dylan deve-lhe ter cantado ao ouvido, por telepatia. O treinador deixou Carrillo de castigo no balneário para Gonçalo Guedes ir a jogo. O miúdo foi segundo avançado para Cervi deixar de o ser e se encostar à esquerda. A equipa ficava com melhor aspeto, mas não foi por isso que a bola entrou na baliza. Num canto cortado pelo 1º Dezembro, a bola quis sair pela linha e Lisandro, com um sprint, apanhou-a. Aí aconteceu a situação que deixa os melhores mostrarem que o são.

Mesmo que uma equipa não funcione, os jogadores provam que são bons quando os deixam ter espaço e tempo para pensarem no que vão fazer. Lisandro teve-o para levantar a cabeça e ver Danilo. O brasileiro também teve tudo de sobra para, na área, receber a bola, virar-se para a baliza, simular com o corpo que ia rematar, fazer uma estátua do adversário e, depois, rematar a bola (50’) por entre as pernas do guarda-redes. Parecia que o mais difícil estava feito.

Parecia.

O Benfica até estava melhor, mais solto, a comportar-se mais rápido. Todos menos Celis, o colombiano que continuou a não fazer um passe perfeito, com a direção, a força e a pontaria certas, quando tentou atrasar a bola para Ederson. Como não olhou, nem colocou força no pé, Diallo apanhou a bola a meio caminho e o guarda-redes, que não se lembrou de usar as mãos, entrou-lhe a pés juntos. O penálti foi batido com calma e classe por quem a tem no sangue e no apelido - Martim Águas, filho e neto de uns senhores, enganou bem Ederson e espicaçou a partida.

Os espaços, que antes eram raridade, passaram a abundar. Os encarnados quiseram acelerar as coisas, Pizzi entrou para dar o ritmo que Guedes já trouxera, e a bola era passada com mais critério. O Benfica olhava mais para a frente, deixava menos gente atrás, e a equipa de Sintra tentava aproveitar. Já conseguia soltar as gazelas que tinha em contra-ataques enquanto tinha pernas e concentração para defender como deve ser. A equipa de Rui Vitória forçava as coisas em vez de elas saírem naturalmente, e isso, lá mais para o fim, valeu-lhe umas coisas.

A irrequietude de Guedes, quando os adversários já se começavam a arrastar, abria espaços. Ele rematou para João Manuel fazer a parada do jogo (84’), pouco antes de Lisandro, na ressaca de um canto, obrigar o guarda-redes a desdobrar-se com estilo para evitar outro golo. Dentro da área, contudo, o Benfica não tinha autorização para entrar, a organização alheia cortava e bloqueava tudo. Os encarnados cruzavam, rematavam contra corpos e tentavam passes, mas apenas ganhavam cantos e mais cantos. O último, no último de seis minutos de compensação, fez a bola cair na cabeça de Luisão, o capitão rompante que saltou para evitar o prolongamento.

E Rui Vitória tem agora tempo para pensar se vale a pena voltar a dizer o que disse - “O Benfica é um todo, não há titulares nem suplentes”. Algo que todo e qualquer treinador e adepto sabe que não é verdade. Por alguma razão há uns que jogam mais (e melhor) que os outros e não é fácil tentar mudar essa realidade através das palavras. Mesmo quando há quem mostre que ainda está aí para as curvas (antes de marcar, Luisão já tinha cortado, limpado e anulado tudo na defesa).

Mais vale respirar de alívio e, finalmente, olhar para o céu, como já cantava Bob Dylan.

Yes, how many times must a man look up
Before he can see the sky?