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Este Benfica é o anticristo

A equipa da Cruz de Cristo perdeu pela quinta vez seguida no Restelo diante do Benfica e o Benfica de Rui Vitória é agora a equipa com mais vitórias fora consecutivas para o campeonato na história do futebol português: são 16. Os encarnados seguem na liderança da Liga, com três pontos de vantagem sobre o FC Porto e cinco sobre o Sporting

Pedro Candeias

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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O futebol é um negócio simples, que implica uma bola de 70 centímetros de diâmetro e um rectângulo de 7,32 m x 2,44 m, mas que assenta em coisas bem mais complicadas, como paixões, decisões tomadas em nano-segundos, picos de forma, pousios, lesões, castigos - e onze homens que jogam contra nós.

É por isso que treinadores e jogadores avisados não se comprometem com mais nada além do próximo jogo: o próximo jogo é o mais difícil apenas porque é o próximo jogo; isto é jogo a jogo e depois logo se vê; etc., etc.

Não vale a pena correr o risco de ser apanhado em falso, que isto com boxes e internet tudo o que for dito poderá ser (ou será) usado contra eles.

Não há ninguém que faça isto melhor do que Rui Vitória. E se as equipas são o reflexo de quem manda nelas, não há clube que faça isto melhor do que o Benfica de Rui Vitória. Há um plano de jogo, segue-se o plano de jogo, joga-se bem ou joga-se mal, ganha-se e perde-se, pouco importa, as contas fazem-se no fim - e é no final que as estratégias se validam, nunca a meio.

Em Belém, a ideia era óbvia: carregar logo no início, que as pernas estavam cansadas de Kiev, a chuva podia estar a caminho, não havia tempo a perder. Aos 10 minutos, Mitroglou fez o golo mais rápido do Benfica na Liga este ano, o sexto da carreira ao Belenenses, e cristalizou o bom arranque dos encarnados que continuaram por ali a diante a pressionar os rapazes do Restelo. Com Pizzi a oito, Guedes a acorrer a todas, Salvio e Cervi a jogarem por dentro, Grimaldo e Semedo a acelerarem o jogo por fora, o Benfica só deixou que o Belenenses se chegasse a Ederson aos 25 minutos, num cabeceamento perigoso de Yebda.

Porquê? Porque o seu meio-campo estava melhor preenchido e mais junto do que o contrário, o que lhe permitiu andar de triangulação em triangulação até à meia lua adversária. E isso desatou os nós e libertou os criativos. Neste período, entre o golo e o final da primeira-parte, o Benfica deu para tudo: para fintas, rodas, roletas, toques de calcanhar, túneis, simulações, enfim, o abecedário completo de truques; mas também para perdas de bola infantis, falhanços e despistes que não resultaram em algo pior porque Camará se espalhou na relva.

Confiança a mais dá nisto e o Benfica, pelo caminho, deve ter-se esquecido da lição número um para guiar à chuva: depressa, bem e com o piso molhado só o Ayrton Senna, que, por acaso, era sócio do Belenenses.

Na segunda-parte, o plano inverteu-se: o Belenenses entrou melhor do que o Benfica e nos primeiros 10 minutos lá conseguiu que a defesa encarnada se visse aflita em lances de bola parada e em cruzamentos que expuseram um bocadinho aquela vertigem ofensiva de uma equipa com dois laterais que se parecem mais com extremos do que com defesas.

E isto é tão verdade que ao minuto 65, um deles, Grimaldo, fez o 2-0: para trás ficara o desperdício de Camará, o remate de João Diogo e também o de Mitroglou; pela frente estava um jogo tranquilo para os encarnados, que contavam com o tempo e o histórico a seu favor. Assim sendo, o Belenenses terminou o sexto jogo consecutivo a zero frente ao Benfica e o Benfica conseguiu a 5.ª vitória seguida no Restelo.

Mas, mais do que isso, o Benfica de Rui Vitória superou o recorde do Benfica de Hagan de 1972-73, e é agora a equipa com mais triunfos consecutivos (16) fora de casa na Liga portuguesa.

Mas o que para uns é um recorde, para Vitória será apenas mais um jogo, até ao jogo seguinte.