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Você votaria neste homem?

Calmo e tranquilo, Luís Filipe Vieira vai para o quinto mandato à frente do Benfica. O presidente é esta quinta-feira reeleito sem oposição, pela segunda vez, e fazemos um balanço do que foram os últimos quatro anos do clube com LFV. Houve muitas coisas boas, as que fazem com que ninguém tente, sequer, competir com ele. Mas as más, como o passivo, os vouchers e o museu

Diogo Pombo

Tiago Miranda

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Coloque-se neste papel. É benfiquista desde que se lembra e, como um fiel escudeiro, não podia não ser sócio. Paga as quotas há, pelo menos, 15 anos, é sócio há uma década, sem interrupções. Ir ao estádio é como ir à missa. Se tiver cumprido tudo isto e o cartão de cidadão já lhe disser que anda neste mundo há mais de 33 anos, está apto. Caso seja reconhecido pelos adeptos, reúna apoios, caia no goto de muita gente e haja vontade, sua e dos outros, de o ver a tomar conta do Benfica, então pode ser candidato à presidência do clube com mais sócios e títulos em Portugal. É um cargo dos importantes.

Mas, mesmo que fosse todos os requisitos em pessoa, que os sócios gostassem de si, que juntasse opiniões e vez de as dividir, haveria nesta altura uma questão - será que valeria a pena?

As pessoas, não sabemos quais, que poderão ter pensado nisto, terão tirado as ideias da cabeça quando chegaram ao ponto de pensar em Luís Filipe Vieira. Porque não é fácil ir contra um presidente que, nos últimos quatro anos, conseguiu que a galinha mais importante de qualquer clube chocasse ovos mais dourados que os do costume. O Benfica é o que é, em grande parte, pelo futebol, e foi com a bola que rola sobre relva que os encarnados venceram os três campeonatos seguidos com que o seu presidente vai, esta quinta-feira, ser reeleito pela quarta vez.

O Benfica já conta 13 anos sob as iniciais de LFV e não é por acaso que esta é a segunda eleição na qual o presidente concorre sozinho ao cargo - também aconteceu em 2006, quando foi reeleito pela primeira vez. Não tem nada que ver com olhar-se ao espelho ou comparar-se com Vieira. Qualquer possível adversário saberá que, com este presidente, os adeptos têm sorrido mais vezes do que aquelas em que puderam mostrar os dentes de alegria, antes de ele chegar à liderança do clube.

Os inimigos que, estando perto, tornou em amigos

Há sempre pessoas, contudo, mais lentas, ou insistentes, que outras. Umas que só o entenderam mais tarde. Porque não quiseram entender, ou porque Vieira demorou a conquistá-las. Como José Eduardo Moniz, antigo diretor da TVI que, em 2012, quis concorrer contra ele, mas desistiu após o presidente o acusar de décadas de quotas não pagas.

Ou Fernando Tavares, que deixou de ser vice-presidente do Benfica para integrar a lista de Rui Rangel - concorreu contra Vieira, há quatro anos - e criticar o líder encarnado. Pelo passivo que acumulava nas contas do clube, por ser mais “dono” do que presidente”, por “falhar na escolha de pessoas”, como chegou a explicar ao Expresso, na altura.

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Ambos foram críticos, opositores e a desejar tudo menos a continuação de Luís Filipe Vieira no Benfica. Os dois aceitaram ser vice-presidentes da direção do clube, cargos que ainda hoje ocupam. Até Rui Rangel, agora elogioso de alguém que concorre "sozinho, de forma merecida e justa", foi, entretanto, convidado a integrar a comissão de honra do Benfica. A moral de tudo isto é que LFV sobrepôs-se a quem lhe fez frente e, depois, soube apaziguar diferenças e aproximar quem dele se quis afastar. Além de perder inimigos, foi ganhando amigos.

São esses amigos, a par de uma provável grande maioria dos sócios votandes - Vieira venceu as eleições de 2012 com 83% dos votos - que terão sentido as dores nas bochechas de quem ri e sorri muito, se olharmos para o mandato que Luís Filipe Vieira agora termina.

O bom que houve com Vieira

O balão de crédito de qualquer presidente é enchido com a botija em que está o oxigénio dos adeptos. Quanto mais eles soprarem de alegria, melhor. Vieira foi reeleito em outubro de 2012, já a meio da última temporada que não terminou com o Benfica campeão. Nas três completas que, depois, o clube viveu com o mesmo presidente, conquistou três campeonatos seguidos, façanha que lhe fugia há 39 anos e que é das melhores provas de domínio interno que pode haver.

Mais ainda quando, antes de se encaminhar para ser tricampeão, o Benfica fechara a tal época da reeleição de Vieira com um treinador ajoelhado na casa do rival do norte, vergado pelo peso de perder a liderança do campeonato numa semana. O treinador que, ao chegar, prometeu uma equipa a jogar o dobro, acabou essa época a perder, a triplicar (perdeu liga, Taça de Portugal e Liga Europa). O descontamento esvaziou a botija que alimenta LFV e ele, convicto, decidiu arriscar a perdê-la. Segurou Jorge Jesus quando todos os queriam largar, adeptos e administração. Insistiu, foi o único a querer mantê-lo.

E isso acabou por ser bom, porque no ano seguinte foi bicampeão, treinador e presidente calaram os críticos e inflacionaram o balão, que nem a segunda final perdida da Liga Europa conseguiu rebentar.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Podia ser mau, porque foram duas derrotas seguidas, mas acabou por ser bom, porque o Benfica voltou a engrandecer-se na Europa e a dar nas vistas. Além de que cumpriu a fórmula a que Vieira se tinha proposto - 50 títulos nas modalidades, chegar a uma final europeia e vencer três campeonatos seguidos. Essa parte chegaria na época seguinte, já com Rui Vitória, o treinador que personificou outra vitória do presidente. No verão de 2015, quando Jesus foi embora e fê-lo indo para o Sporting, a aposta do presidente caiu num homem do qual sempre gostara, mas que não tinha provas dadas em clubes grandes. Arriscou e Vitória fez o que lhe está no apelido.

Foi o campeonato, a Taça da Liga (a terceira seguida) e as meias-finais da Liga dos Campeões, enquanto o técnico fugido para o rival mandava bocas e nada ganhava.

Entre vitórias no futebol e nas modalidades, Vieira abre a mão que, anos antes, fechara sobre os direitos televisivos dos jogos caseiros do Benfica, para o campeonato. Depois de, em 2013, virar costas à PPTV de Joaquim Oliveira e passar os encontros, durante duas épocas, na Benfica TV, o presidente vira-se para os milhões. Em dezembro de 2015, assina um contrato de 400 milhões de euros com a NOS, vendendo os direitos por três épocas e a exploração do canal do clube. Vieira ganhou em dois lados: no monetário, pelo dinheiro que o negócio implicou, e no televisivo, porque os jogos acabariam por se manter na BTV, canal que continuou a ser fechado e pago.

A par deste negócio, o dinheiro foi entrando pela via que os clubes mais usam, as transferências. Rodrigo e André Gomes renderam, juntos, 45 milhões de euros. Isto foi depois de Axel Witsel, sozinho, dar 40 milhões ao Benfica, e antes de Renato Sanches se tornar mais cara venda de sempre de um português para o estrangeiro (35 milhões). E o miúdo das tranças foi a primeira amostra de que o Centro de Estágios do Seixal, o amor criado e alimentado por Luís Filipe Vieira, está a começar a render coisas que o clube pode usar.

TIAGO PETINGA

E o mau, que também apareceu

Na parte boa do mandato também podia estar o Museu Cosme Damião. Inaugurado em 2013 para adepto ver e o clube usar, com pompa, quando apresentou Rui Vitória, o espaço cometeu um erro que não abonou a favor do presidente. O museu, soube-se no início de 2015, construiu-se sobre terrenos que não respeitaram as condições do alvará de loteamento que, uma década antes, a Câmara Municipal de Lisboa emitira para autorizar a obra. Houve polémica, que se tornou maior assim que ficou público que a autarquia perdoara ao Benfica uma dívida de 1,8 milhões de euros, por o clube não respeitar as condições de construção.

Luís Filipe Vieira nunca se pronunciou sobre isto.

Mas o presidente sempre foi falando do passivo, ou seja, o dinheiro que o clube deve. Algo que, nestes quatro anos, foi sendo maior do que o valor daquilo que o Benfica tem. Este desequilíbrio, que em finanças se chama falência técnica, aumentou de época para época - a 30 de junho deste ano, estava nos 495 milhões de euros, como o Expresso explicou AQUI. “Ganhar é importante, é fundamental, é o que nos move diariamente, mas poder dizer que o clube voltou a ser nosso, totalmente nosso, que vai poder, finalmente, livrar-se da sua dependência do sistema financeiro, é algo que me enche de orgulho”, garantiu, em 2015, o presidente, ao dizer que o dinheiro do contrato com a NOS seria canalizado para “libertar o Benfica do seu passivo”.

Até agora, não o conseguiu fazer.

Depois aparecerem os vouchers, trazidos à baila por Bruno de Carvalho, presidente do Sporting que, em outubro do ano passado, foi à televisão dizer que o Benfica oferecia kits de refeição aos árbitros em todos os jogos para o campeonato. Vieira confirmou-o. Mas a insistência do líder dos leões, os comunicados, as guerras entre comentadores televisivos e os recados deixados um pouco por todo o lado criarem uma tempestade de polémica que, hoje, ainda gira entre os dois rivais lisboetas. LFV foi-se mantendo calado, apelou ao resguardo das pessoas que, na televisão, comentavam pelo Benfica e apenas respondeu quando já a Polícia Judiciária tinha visitado o Estádio da Luz.

Não foi Luís Filipe Vieira o criador da polémica, mas tão pouco foi ele a água fria que conseguiu acalmar a fervura em torno de tudo quanto é clube grande na Europa faz. E também ainda não resolveu, por completo, a questão da comunicação, o calcanhar de Aquiles que Vieira tem vindo a melhorar, embora ainda lhe vá dando umas dores.

Como a causada por Raúl Jiménez, que depois de se tornar a compra mais cara do Benfica, o presidente acha que será "a mais cara transferência em Portugal", num futuro próximo - portanto, terá de ultrapassar os 60 milhões de euros que Zenit pagou por Hulk, quando o comprou ao FC Porto. Ou a provocada por uma frase - "Acha mesmo que um árbitro se deixa corromper por 300, 400 ou 500 euros?" -, que usuou no caso dos vouchers e, no fundo, parece dar a entender que, afinal, os homens do apito até poderão ter um preço.

E o problema dos vouchers, do passivo e da comunicação (ou de dizer as coisas errados nos momentos errados) vão continuar a segui-lo para o quinto mandato na presidência do Benfica.