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A história de como tudo pode correr mal depois de ter corrido bem

A primeira parte dos encarnados em Istambul foi quase de sonho: marcaram dois golos e um golaço e até as bolas foram ter com eles após irem aos ferros da baliza do Besiktas. Na segunda, porém, o Benfica encolheu-se perante a garra e a intensidade com que os turcos deram a volta ao resultado (3-3)

Diogo Pombo

OZAN KOSE

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Antes do jogo já sabíamos de, pelo menos, duas coisas engraçadas sobre ele.

A primeira, obra do Besiktas, pôs os adeptos turcos, barulhentos e ruidosos por natureza, a apoiarem a equipa com cânticos em linguagem gestual durante um minuto, sensibilizando quem não os ouve. A segunda foi culpa de Recep Erdogan, o primeiro-ministro turco que não foi atrás da Europa e ignorou o horário de inverno, para “aproveitar melhor a luz diurna”. Por culpa desta brincadeira que, em Portugal, o jogo arranca quando muito boa gente ainda está agarrada ao trabalho e não pode estar colada à televisão.

E, sem sabermos, até já sabíamos de uma terceira, que nos foi contada por André Almeida, quando publicou uma fotografia e decidiu gozar com quem lá aparecia. Escreveu que estava acompanhado “pelas asas do avião”, chalaça que inventou ao olhar para as orelhas de um miúdo que estava sentado ao seu lado, na imagem. A analogia que ele arranjou veio a calhar quando Gonçalo Guedes, com a cabeça puxada para baixo, apanhou uma bola que, para Salvio, foi um passe, mas, para nós, foi a lotaria de um ressalto que deixou o orelhudo na área, a aguentar a carga de um defesa e a fintar o guarda-redes para marcar.

Aos nove minutos, o Benfica já vencia no país onde nunca ganharam ao fim de noventa. Antes de o miúdo que joga sempre com a cabeça em baixo, como se suportasse um peso ao pescoço, começar a dar asas aos encarnados em Istambul, já Eliseu arrancara um sprint para chegar a tempo de receber a bola à frente e, ao segundo toque, a rematar contra a barra da Baliza do Besiktas. Isto ao segundo minuto, quando a equipa já roubava bolas à entrada da área turca e montava armadilhas de pressão lá à frente - sintomas de quem está com confiança.

Ou com moral, como se diz no futebol, ou com a seta para cima, como diz quem passa tempo agarrado a um certo jogo de consola. E quando isto acontece numa equipa que se mantém curta em campo, com as linhas dos defesas e médios bem juntas, seja a construir uma muralha perto da área ou a definir o truque do fora-de-jogo a três metros da linha do meio campo, contra outra que não faz nada disto, a vida tende a correr bem. Quem joga fica mais calmo, mais seguro de si e tenta fazer coisas que, normalmente, deixa para depois.

Como Nélson Semedo, que ignorou aquilo de passar a quem chega de frente, caso se receba a bola de costas para a baliza: virou o corpo com o primeiro toque e, com o segundo, teve jeito e força no pé esquerdo para, a 25 metros da baliza, inventar um golaço (25’) que ainda tocou na barra. Era a segunda vez que a bola tocava no ferro e ainda houve uma terceira, uma quarta e uma quinta. Tudo na mesma jogada, o que costuma ser um atestado de azar, mas foi um medicamento para dar sorte. Num livre, Pizzi cruzou a bola cuja viagem foi cabeça de Mitroglou-barra-cabeça do grego-barra-cabeça de Salvio-poste até chegar à estação terminal, o 3-0 pelo pé de Fejsa, com meia hora jogada.

E o Besiktas, lento, a jogar mal, a perder as segundas bolas e a não se conseguir aproximar da área, ia perdendo a cabeça, com o médio Tolgay a ser o porta-voz que distribuía rasteiras por Pizzi e Guedes. Os turcos, coxos no lado onde estava Adriano, um lateral improvisado a extremo que não desequilibra e só cruza, de longe, para a área, não trocavam a bola com velocidade. E, quando ela chegava a Quaresma, como sempre o queriam, já o português tinha Pizzi e Cervi a não o deixar ficar sozinho perante Eliseu.

OZAN KOSE

Tudo corria bem ao Benfica, literalmente.

A primeira bola a que a equipa deu uso, na segunda parte, acabou num remate perigoso de Fejsa, à entrada da área, vindo da paciência com que Semedo, Salvio e Cervi arranjaram maneira de a levar até ao sérvio. Até Salvio pareceu o velho Salvio, a bailar e a levar a dança para o meio, para o pé esquerdo rematar e Fabri defender para canto. O guarda-redes que ainda viu Mitroglou falhar um golo que Pizzi lhe cantou ao ouvido com o passe que o isolou na área.

A moral deste parágrafo é que a vida só não ficou melhor para os encarnados porque eles não quiseram.

Portanto, começou a piorar. Chegou-se à hora de jogo, altura em que as pernas começam a pesar, o cansaço já subiu na lista de prioridades da cabeça e quem joga não reage da mesma forma. O que vale para os dois lados. O Benfica, mais lento, passou a pressionar mais atrás no campo e a ser menos ganancioso na hora de recuperar bolas. O Besiktas, espicaçado por um resultado que podia estar mais gordo, apostou no que se aposta quando as coisas técnicas não saem - correu mais, foi mais duro, ganhou mais raça e, no fundo, passou a querer mais.

E quando o jogo dos turcos ainda era, apenas, levar passes até uma das laterais e deixar alguém com tempo e espaço para meter a bola na área, Tosun armou-se em acrobata. Rematou de primeira a bola cruzada por Quaresma e deu outro golo dos bons (58’) à partida. Esta bola que entrou na baliza deu algum moral ao Besiktas e já vos contei como isto tende a funcionar.

Os turcos cresceram, encheram o peito e redobraram a dose de coração que metiam no futebol que não lhes saía com a cabeça. Apertaram Luisão e Lindelöf nas saídas de bola, encostaram aos médios, e a pressão que, antes do intervalo, foi atabalhoada por a fazerem ao homem, passou a funcionar à medida que os encarnados foram perdendo gás. O Benfica encolheu-se, fechou-se mais ao centro e pôs-se a jeito de levar com cruzamentos atrás de cruzamentos, muitas bolas seguidas a caírem na área, que exigem concentração a quem lá esteja.

Coisa que Lindelöf não teve quando saltou de olhos fechados, a querer acertar com a cabeça na bola em que apenas tocou com o braço. Quaresma marcou o penálti (82’) que fez soou o alarme no Benfica. Havia, mais ou menos, dez minutos para sobreviver e a equipa recuou ainda mais e lutou com as poucas energias que lhe restavam. Os turcos, sem mudarem a estratégia, mas reforçando-a, foram cruzando e vendo Ederson a evitar (por duas vezes) o que uma bola cruzada de letra - pelo único homem que se lembraria de fazer isto aos 88 minutos - acabou por causar. O empate, por Aboubakar, um velho conhecido dos encarnados.

Assim, em trinta minutos, o Benfica abrandou e deixou fugir um resultado que lhe teria dado os oitavos-de-final da Liga dos Campeões e guardou a defender o que podia ter protegido a refrescar, mais cedo - Rui Vitória só troca Cervi por Rafa, que não é um extremo, aos 65’, e deixa Salvio em campo até ao fim, nos sítios do campo onde se pediam pernas para prevenir cruzamentos para a área.

Tudo correu mal depois de ter corrido bem e os encarnados sofreram três golos com a mesma rapidez com que os tinham marcado. E aquela história do moral, da confiança, de fazer as coisas de peito feito, passou a ter outro fim, porque o meio alterou-se em 45 minutos. Esse fim faz com que o Benfica tenha agora que, em casa, na última jornada, ganhar ao Nápoles para garantir que continua na Liga dos Campeões.