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A mala do coronel Leal que ia enganando as tropas de Vitória

Na I Guerra Mundial, o coronel britânico Richard Meinertzhagen deixou cair uma mala cheia de falsos planos de guerra nas mãos do império Otomano. Com isso os aliados ganharam vantagem no Médio Oriente. Miguel Leal fez quase o mesmo: fez crer que o Boavista ia para a Luz montado num autocarro, mas quando tal aconteceu já o Benfica perdia por 3-0. As águias ainda recuperaram, mas perderam dois pontos com os quais estavam a contar

Lídia Paralta Gomes

MIGUEL A. LOPES/EPA

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Reza a lenda que em plena I Guerra Mundial, na campanha do Sinai e Palestina, o coronel britânico Richard Meinertzhagen magicou um curioso plano: “perdeu” de forma intencional uma mala com falsos relatórios e planos de guerra, e fez tudo para que estes fossem parar às mãos dos militares do império Otomano. A estratégia correu bem, os otomanos caíram no engodo e as forças aliadas ganharam vantagem decisiva no teatro de guerra do Médio Oriente.

Não consta que Miguel Leal tenha lido os diários do coronel Meinertzhagen - até porque há quem defenda que o militar fantasiou um bom bocado a história… - mas é natural que a conversa do “meter o autocarro” e das “possibilidades diminutas” fosse nada mais do que uma forma de enganar o Benfica, apesar de Rui Vitória ter sublinhado que estava preparado para um Boavista com vontade de, a espaços, atacar.

E antes da debacle da 2.ª parte, a mala de Leal resultou, e de que maneira. Até aos 25 minutos, não houve autocarro na baliza, nem sequer o papa-reformas, mas sim um Boavista espevitado, à procura de construir e atacar, sem medo perante quase 60 mil espectadores. E perante um Benfica que sem Fejsa tem muito mais dificuldade em conter o adversário, pim, pam, pum. O primeiro golo, surpresa, apareceu aos 14 minutos, com um livre superiormente marcado por Iuri Messideiros, ai desculpem, Medeiros. O segundo, surpresa surpresa, surgiu seis minutos depois: Medeiros de novo na jogada, a marcar o livre na esquerda para área, onde Lucas surpreendeu André Almeida nas costas, cabeceando para a baliza. E o terceiro, surpresa, surpresa, surpresa, veio aos 25 minutos, num lance em que a defesa do Benfica confiou no fora de jogo de Medeiros - que não existia - com o jogador emprestado pelo Sporting, sem marcação, a cruzar para Schembri - que inicialmente se fez ao lance quando estava em posição irregular - com o maltês a marcar sem dificuldade.

Feito o 3-0, Rui Vitória tirou Rafa, lançou Mitroglou e o Boavista, aí sim, estacionou o autocarro. Mas três minutos depois de entrar, o grego já estava a festejar. Aos 41, Pizzi rematou forte, com Agayev a opor-se bem. Mas para azar do guardião azeri, a bola sobrou para Salvio que cruzou para a área onde Mitroglou encostou sem dificuldade.

A partir daí, começou o massacre encarnado. Ainda antes do intervalo, desentendimento entre Phelipe Sampaio e Agayev, com André Almeida, primeiro bem a aproveitar, e depois mal a rematar contra o guarda-redes em vez de cruzar para a área, onde Jonas estava livre.

Arriscar tudo

Ao intervalo, Luisão ficou no banco, com Rui Vitória a arriscar tudo ao lançar Cervi. E o argentino acabou por ajudar à recuperação, ao sofrer a falta que deu origem à grande penalidade que Jonas não falhou. Cinquenta e três minutos, 3-2 e o Benfica com a corda toda: cheirava a uma reviravolta que ficou mais próxima quando Fábio Espinho se fez a um cruzamento de Zivkovic e colocou a bola na própria baliza, aos 68 minutos.

Schembri fez o 3-0 na Luz, mas o Benfica conseguiu recuperar

Schembri fez o 3-0 na Luz, mas o Benfica conseguiu recuperar

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Curiosamente, a seguir ao empate, o Benfica baixou o ritmo. Aos 75 minutos Mitroglou esteve muito perto de fazer o 4.º, mas com a entrada de Tiago Mesquita, o Boavista reagrupou-se e com muito mérito e inteligência começou a criar perigo. Apareceu então São Ederson, que por duas vezes salvou o Benfica de nova desvantagem. Aos 80, jogada de paciência do Boavista - há verdades universais e uma delas é que quando se tem a bola dificilmente se sofre - com a bola a rodar até chegar a Renato Santos. O número 7 do Boavista tirou então Nélson Semedo do caminho, com um toque de classe, e só não marcou porque o guardião brasileiro lhe surgiu aos pés. Este foi o milagre 1. No milagre 2, Ederson viu o bom contra-ataque do Boavista, viu Anderson Carvalho a cavalgar na sua direção e aproveitou bem quando o brasileiro adiantou a bola com mais força do que queria.

Por esta altura, o Benfica pagava a fatura dos esforços da recuperação e fisicamente estava um caco. Ainda assim, já nos descontos, esteve perto da baliza de Agayev por duas ocasiões, primeiro com Salvio a cabecear muito perto do poste direito e depois Pizzi ia tirando tinta ao mesmo ferro.

Em suma, houve de tudo neste jogo: golos, surpresas, recuperações, casos de arbitragem, emoção, enfim, foi bem entretido, e isso já não é pouco.