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Até tu, André?

O Benfica está nas meias-finais da Taça de Portugal. Eliminou o Leixões (6-2) num jogo em que André Almeida se estreou a marcar com a camisola encarnada - é o 16.º jogador do clube a fazer golos esta época

Pedro Candeias

Carlos Rodrigues

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André Almeida sofre da síndrome do biscateiro que eletrifica tomadas, desentope canos, muda fechaduras, pinta rodapés, pendura lâmpadas, aplica soalhos, afaga parquet, arranja estores, trata de infiltrações, calafeta janelas, repara rádios (a quem ainda os tem) e gira-discos (a quem os passou a ter), restaura móveis, muda azulejos e opera a ocasional mudança de casa.

É como um desvio agudo de personalidade profissional que impossibilita definir André Almeida, um médio defensivo adaptado a lateral-direito que é destro e agora joga como defesa esquerdo. É isto um faz-tudo e um faz-tudo está condenado a tapar buracos onde eles existam – mas até estes têm direito ao seu momento de glória.

148 jogos depois, André Almeida marcou o seu primeiro golo pelo Benfica numa jogada que o resume: um cruzamento que deixa de ser cruzamento e passa a remate porque Jonas não tocou com a pontinha da chuteira na bola. Foi assim que aconteceu o 2-0 contra o Leixões; e foi assim que André Almeida se tornou o 16.º futebolista a marcar pelo Benfica desta época em que quase toda a gente marca – do onze que entrou em campo, só Zivkovic e Samaris ainda continuam a zero; no banco está outro, de seu nome Rafa, que pôs as mãos na cabeça ao ver o ‘golo’ de André Almeida.

Pois então, esta é a história que resulta de um jogo que acabou como se esperava: uma vitória do primeiro classificado da I Liga diante do 20.º classificado da II Liga num encontro a contar para os quartos de final da Taça de Portugal.

Os números são interessantes e raros (6-2) por mérito e demérito do Benfica, porque tornou e achou a coisa tão fácil e facilitada que se expôs ao erro e ao contra-ataque do clube de Matosinhos.

Deu para tudo: túneis de Lisandro López, toques de calcanhar, tabelinhas na pequena área, uma assistência de André Carrillo, truques e fintas e habilidades só possíveis quando se é assim tão superior ao adversário; e também para momentos de três contra três em situação defensiva só possíveis quando a autoconfiança resvala para a desconcentração.

Só que, enfim, o Leixões não é o Boavista e Jonas & Mitroglou não são Jonas & Gonçalo Guedes, e uma dupla assim será sempre um martírio para equipas mais frágeis: grego fez um hat-trick, Jonas estreou-se a marcar na Taça de Portugal 2016-17.

P.S. Antes deste jogo havia quem tivesse um histórico bem pior do que André Almeida: Javier Mascherano leva 304 jogos pelo Barcelona e zero golos marcados.