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As cegonhas vêm de Paris e as saudades também

O Benfica saiu de Setúbal com uma derrota por 1-0 depois de jogo em que foi pouco agressivo, quase nada intenso e ainda menos rápido - curiosamente, tudo aquilo que Gonçalo Guedes (agora no Paris Saint-Germain) era nos dias bons. O desaire faz com que a liderança fique segura por apenas um ponto: o FC Porto já está à espreita

Lídia Paralta Gomes

CARLOS COSTA/Getty

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Amorfo, morno, pálido, frouxo, enfim, é escolher. Assim foi o Benfica que em Setúbal deixou em aberto as contas do campeonato. Com a derrota no Bonfim (1-0), as águias têm agora apenas um ponto de vantagem para o FC Porto, que esfrega as mãos a menos de uma semana do Clássico com o Sporting. Talvez ninguém pensasse que isto pudesse dar a volta tão cedo, mas a verdade é que, de repente, isto do campeonato ficou mais baralhado.

Nem o regresso de Fejsa mudou os (maus) sinais que a equipa de Rui Vitória ia dando nos últimos jogos. Depois de uns primeiros 5 minutos em que até rematou com perigo por duas vezes, o Benfica foi pouco agressivo, quase nada intenso e ainda menos rápido - curiosamente, tudo aquilo que Gonçalo Guedes era nos dias bons. Ainda nem passou uma semana e as saudades do avançado/extremo/deixem-no à solta já se sentem, porque era nestes jogos, em que é preciso aproveitar os espaços nas costas e acelerar o ritmo, que o jovem português dava um grande jeito (embora os 30 milhões que chegaram de Paris não seja coisa de deitar fora).

Arnaldo Teixeira, que substituiu o castigado Rui Vitória no banco - o Benfica ainda tentou a suspensão da suspensão, passe a repetição, junto da FPF, mas sem sucesso - tentou emendar a mão na 2.ª parte, ao colocar o sempre irrequieto Rafa, mas o Benfica nunca deixou de ser uma equipa trapalhona, sem critério ou estofo, bem longe da formação coesa que passou praticamente imaculada pela primeira metade do campeonato.

E a continuar assim, vêm aí mais dificuldades.

Cinco minutos e pouco mais

Pois bem, depois da inesperada derrota com o Moreirense, nas meias-finais da Taça da Liga, o Benfica chegou ao Bonfim com vontade de vingar o desaire algarvio, mas tudo foi um pequeno fogacho que não durou mais que cinco minutos. Nesse período, e em duas jogadas quase seguidas, Mitroglou e Cervi remataram a rasar o poste direito de Bruno Varela, numa altura em que os encarnados chegavam com relativa facilidade à área sadina.

CARLOS COSTA/Getty

A partir daí, o ataque do Benfica deixou de funcionar, os maus passes começaram a aparecer, Pizzi a definhar e o V. Setúbal a piscar o olho à área adversária. O primeiro aviso surgiu por Edinho, homem que não se esconde nos jogos grandes e que ia acertando na baliza com um remate acrobático, aos 15 minutos.

O golo não demoraria muito mais. Edinho mais uma vez na jogada, a pressionar e a ajudar ao erro de Lindelof (que no eixo esquerdo da defesa rende metade). O antigo internacional português ganhou a bola e deixou de calcanhar para Arnold, que cruzou para a cabeçada certeira de Zé Manuel, que por sua vez aproveitou o facto de Luisão não se ter feito ao lance.

E Zé Manuel, de uma assentada, ajudou os seus dois clubes: o V. Setúbal, por quem joga, e o FC Porto, emblema que o emprestou aos sadinos.

Daí até final, a defesa do V. Setúbal conseguiu sempre conter o Benfica, não só porque esteve realmente intratável, solidária, coesa, mas também porque não se pode dizer que o ataque encarnado tenha sido particularmente organizado ou perigoso. E no banco também poucas opções: Jiménez foi baixa de última hora com uma entorse. Na verdade, a única oportunidade flagrante do Benfica surgiu logo a seguir ao golo do Vitória, com Frederico Venâncio a salvar a equipa da casa ao afastar a bola da linha de golo depois de um cabeamento em arco de Luisão que deixou Varela batido. Depois, muita lentidão, muito jogo mastigado e no final, chuto para a frente.

E assim este Vitória de José Couceiro, que tomou o gosto a isto de atrapalhar os grandes - já tinha empatado o Benfica na 1.ª volta -, fez um bocadinho de história: não vencia o Benfica há 10 anos, desde a primeira edição da Taça da Liga, e para o campeonato é preciso recuar até à época 1998/99 para ver a última vitória sadina.