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O Benfica, o Ficanov e Putin

Rui Cardoso, editor do Internacional do Expresso e diretor do Courrier Internacional, dá a sua opinião sobre o Benfica e os outros

Rui Cardoso

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Uma das capas possíveis da próxima edição do Courrier Internacional poderá vir a ser algo como “Putin, o Tigre de Papel”. Ou seja o velho aforismo maoísta sobre os EUA talvez se aplique ao líder russo: aparenta um poder que na realidade não tem.

Procurei aferir a correção desta ideia com o meu amigo Miguel Monjardino que, além de ser um distinto professor de Relações Internacionais, é um benfiquista incondicional e que, tal como eu, estava em processo de digestão de um salmonete de Setúbal manifestamente azedo. Sobre Putin disse-me que, se é verdade que faz bluff, por outro, é dos raros líderes internacionais que arrisca numa altura em que ninguém quer correr riscos. Isso é uma das explicações para alguns sucessos que tem obtido, da Crimeia à Síria.

Que tem isto a ver com o jogo de ontem entre Setúbal e Benfica? Tudo! Depois de sofrer um golo fortuito esperava-se que o Glorioso fosse para cima do adversário e invertesse o rumo dos acontecimentos. Nada disso aconteceu. E quanto mais se caminhava para o fim do jogo, mais se insistia no futebol rendilhado, no toque de calcanhar, na finta espúria em vez do óbvio: chutar à baliza, muito e com força.

Podemos discutir se há razões específicas para o empate com o Boavista, a derrota com o Moreirense (parabéns aos heróis de Moreira de Cónegos!) ou a de ontem, com o Setúbal. Haver, há. E aquele lance sobre Carrilho, mesmo no fim, é penalti em qualquer lado, do Burkina Faso, ao Afeganistão ou à Antárctida.

Mas isso não desculpa o resto. Quando as coisas se complicam, esqueçam-se os rodriguinhos e centre-se repetidamente para a área. Chute-se constantemente à baliza e nada de trivelas: biqueiros na bola e com força. Alguma há-de entrar. Arrisque-se, como Putin! Jogue-se à Otto Glória: que importa sofrer três golos se marcarmos cinco ou seis?

Deste ponto de vista e como um clube não é uma empresa de Wall Street, tenho as maiores dúvidas de que a decisão de vender Gonçalo Guedes em janeiro tenha sido prudente. Nunca saberemos se no jogo de ontem teria marcado mas era uma carta fora do baralho, capaz de trazer genica e imprevisibilidade a um futebol frouxo e sem chama.

Quero crer que este foi o ponto mais baixo do ciclo de Inverno e que vêm aí coisas boas. Porque, meus caros, a jogar assim o Benfica não conseguirá ser campeão e não mereceria sê-lo se porventura lá chegasse neste registo.

Duas últimas palavras para os sportinguistas.

A primeira um abraço para o moço anónimo que ontem estava a ver o jogo no mesmo tasco que eu e me dizia: “Sou sportinguista e dá-me um gozo do caraças ver o Benfica perder. Mas da maneira que está o meu clube, nem que vocês perdessem os jogos todos a gente lá ia…”

A segunda para aqueles que dizem que gostam mais de ver o Benfica perder do que o Sporting ganhar. Nós talvez precisemos do Putin mas vocês estão à beira de contratar aquele búlgaro famoso que tem sido presença assídua em Alvalade: o Ficanov(e), topam?