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Rui Malheiro sobre Rui Vitória: “Os resultados criaram muito a ideia de um treinador acima daquilo que ele vale”

O comentador e analista de futebol considera que as coisas no Benfica não estão tão mal quanto parecem, mas nota algum desgaste na equipa. Quanto à recente queda do clube, também tem algo a dizer. Ora, espreite

Filipa Bulha Pereira

MIGUEL A. LOPES

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“Quando se ganha, parece que está tudo bem, mas nem sempre está tudo bem. E quando se perde, também não está tudo mal. E é um bocado isso que acontece no Benfica, teve uma série de jogos consecutios sem perder, mas nem tudo estava tão bem como parecia, e agora que está numa fase menos boa, nem tudo está tão mal como parece”, afirma Rui Malheiro, analista de futebol e comentador na RTP.

Depois de uma série de vitórias consecutivas, a equipa acusa agora um certo desgaste mental e físico. “Criou-se quase uma sensação de que o Benfica seria uma equipa invencível e de repente, vê-se a perder 3-0 em casa com o Boavista aos 30 minutos”, comenta Rui. O também colunista no jornal Record lembra ainda a falta de criação de oportunidades de golo no final desse jogo, quando o Benfica esteve muito próximo de conseguir o 4-3, a “reviravolta total”, mas acusou “degaste e dificuldades de ligação”.

Usando palavras do treinador do clube da Luz, Rui Vitória, Rui Malheiro fala de problemas no “processo”. Mais explícito? É muito simples: “Do ponto de vista ofensivo (e isto tem acontecido ao longo do ano e meio que o Rui Vitória trabalhou no Benfica), a equipa vive muito da qualidade individual dos jogadores, não tanto da capacidade do coletivo para fazer a diferença”.

Apesar de tudo, o Benfica cresceu após um arranque pouco animador. “Conseguiu, por exemplo, criar mais combinações através do jogo interior, que era algo que tinha dificuldades, e não viver exclusivamente do jogo exterior, que foi uma das bases do sucesso o ano passado”, afirma Rui.

Mas então, o que é que tem falhado realmente? Rui considera que, neste momento, “o Benfica é uma equipa tremenda a jogar com o adversário num bloco baixo, ou seja, quando o adversário se posiciona nos últimos 30/35 metros. O Benfica consegue ser avassalador, criar muitas oportunidades de golo, quer por fora, quer por dentro, mas quando o adversário se posiciona um pouco mais alto, num bloco mais médio ou médio alto, combinando com momentos em que fica mais baixo, o Benfica sente muito mais dificuldades”.

O jogo contra o Boavista foi um bom (mas mau para os benfiquistas) exemplo disto mesmo.

CARLOS COSTA/Getty

Portanto, sem um adversário “encolhido”, o clube da Luz dá parte fraca. “Essas dificuldades notam-se logo nos processos de criação e na chegada a zonas de finalização. Basta ver que o Benfica, por exemplo, diante do Vitória de Setúbal criou muito poucas oportunidades de golo...e esta é uma situação que já se vem a repetir nos últimos jogos”, acrescenta Rui.

Então e a goleada em casa do Tondela? O comentador acha por bem relembrar que, apesar desta vitória (agora uma exceção à regra), “o resultado aconteceu já no decurso da segunda parte, quando o Tondela, do meu ponto de vista, acusou já algum desgaste”.

Se tivéssemos de explicar esta queda repentina da equipa de Rui Vitória, poderíamos associá-la a dois importantes fatores: lesões e uma mudança na reação à perda da bola. “O Benfica tinha uma reação à perda muito forte e na fase em que teve melhores resultados, os adversários tinham muita dificuldade em ultrapassar essa pressão muito forte que a equipa conseguia impor. Hoje, e sobretudo ao longo deste último mês, os adversários já conseguem criar alternativas para sair sem que o Benfica consiga ser tão avassalador nessa pressão, e isso faz com que a equipa se desequilibre muito em transição defensiva”.

A ajudar à festa, esteve a lesão de Fejsa, que, segundo Rui Malheiro, resultou num “registo de oito golos sofridos em 4 jogos”. Não é normal. “O Fejsa é um elemento nuclear em termos dessa pressão alta que o Benfica consegue fazer, essa reação à perda fortíssima, e que muitas vezes asfixia o adversário nos tais ultimos 30/35 metros, que é onde o Benfica se sente mais confortável”, acrescenta.

Jonas, Rafa, Mitroglou...Para Rui Malheiro, várias ausências têm contribuído para este surpreendente (mas não pela positiva) desempenho da equipa. “O Benfica conseguiu, sobretudo numa primeira fase da temporada, criar alternativas para que não se sentisse tanto a ausência prolongada do Jonas, do meu ponto de vista, o melhor definidor do Benfica quer no remate, quer no último passe. É um jogador absolutamente crucial. Como também a ausência do Rafa, que seria um reforço, até pelo dinheiro investido, extremamente importante para o Benfica. E depois houve lesões mais pontuais de alguns defesas, as baixas do Fejsa e, sobretudo, uma baixa que me parece muito importante ao longo destes últimos dois/ três meses, e que se sente mais agora, que é o caso do Grimaldo, o que retira profundidade, criatividade e capacidade de equilibrio no 1 para 1 no corredor esquerdo”, comenta.

Rui acha que “quando o Benfica é pressionado mais alto, sente dificuldades na construção. E ao sentir dificuldades na construção, o jogo sai muito menos fluido”. Pois, e o Vitória de Setúbal que o diga. No jogo de ontem, notou-se que o clube “se preocupou muito em retirar Pizzi do jogo e isso fez com que não o deixassem enquadrar-se com a baliza adversária, o que dificultou a conexão que ele normalmente tem com o Jonas”.

No final do jogo, o Benfica bombeava bolas e jogava um jogo direto com o Vitória. “Isto é a antítese do futebol que o Benfica preconiza”, diz Rui. Faltou o futebol mais apoiado, vertiginoso, com velocidade e oportunidades de golo a que os adeptos se habituaram.

E de quem é a culpa? “O normal neste tipo de situação é toda a gente criticar o treinador mas também é importante perceber que este treinador é aquele que levou o Benfica a uma época passada com a conquista do título (e com outras conquistas), e que este ano continua a liderar o campeonato, ganhou a Supertaça, está nas meias finais da Taça de Portugal e apurou-se para os oitavos de final da Liga dos Campeões. No entanto, quando a equipa ganha, o resultado muitas vezes faz esquecer que as coisas não estão tão bem quanto parecem. E creio que é uma situação claramente ligada àquilo que tem sido o percurso de Rui Vitória no Benfica. Ou seja, os resultados criaram muito a ideia de um treinador muito acima daquilo que ele, do meu ponto de vista, vale", sugere Rui. E ainda acrescenta: “As vitórias vão escondendo esses aspetos, as derrotas ou os empates acabam por mostrar que provavelmente a equipa e o treinador, não é tão forte quanto parecia nas vitórias”.

Quanto a Gonçalo Guedes, o negócio foi bom,...mas já se sentem saudades.“Tendo em conta o potencial do jogador, é uma verba, do meu ponto de vista, irrecusável. Agora, aquilo que se sente em relaçao ao Gonçalo Guedes é que ele partiu para esta época quase como uma quinta opção para extremo mas soube aproveitar as oportunidades que teve, tendo em conta também as lesões, e impôs-se numa posição de segundo avançado que permitiu dar ao Benfica (na tal primeira fase de vitórias), uma dimensão diferente daquela que o Jonas oferece. Ou seja, sendo o Jonas um jogador absolutamente imprescindivel pela sua capacidade cerebral, o Gonçalo Guedes tem outras características. Muito mais velocidade, aceleração, muito mais potência. Permitiu ao Benfica ser a tal equipa contundente em termos de velocidade, de vertigem, nos últimos 30 metros”.

E tendo em conta o passado do jogador na formação do Benfica, é normal que os adeptos já sintam saudades.