Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

Pode ser que corra bem, pode ser que corra mal. Mas nunca mais será igual

O Benfica perdeu em Setúbal e viu a vantagem sobre o FC Porto emagrecer para um pontinho apenas. Aqui se escreve sobre os problemas da equipa e do treinador – e de um modelo a quem falta um jogador

Pedro Candeias

FALHANÇO. Mitroglou num dos muitos lances que deram em nada contra o Vitória

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Partilhar

Este texto podia começar com o pé descalço e inchado de Pizzi a subir o autocarro do Benfica em Setúbal ou com a chegada do mesmo autocarro do Benfica ao Seixal; houve petardos, as palmadas na chapa, os insultos, a polícia, enfim, o pout-pourri do costume ao qual não faltou o slogan número um do adeptos portugueses frustrados. “Joguem à bola”, disseram eles. Mas isso vocês sabem porque viram o vídeo-caseiro filmado da varanda.

A esta hora já terão contado, ou ter-vos-ão contado, os 17 remates do Benfica, seis deles à baliza, 10 dentro da grande área, seis fora da área e um na pequena área – e que deram em nada. E, a meio do dia, alguns de vós alertaram outros tantos de gostos semelhantes aos vossos para a falta de Nuno Pinto em Carrillo e dissertaram sobre aquele árbitro em particular, o malandro, ou sobre a arbitragem em geral que, anda feita com eles e que foi na conversa do “colinho”.

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Mas, às tantas, começaram a discutir as opções de Rui Vitória e porque foi ele discutir com o árbitro no jogo com o Moreirense, pondo-se a jeito de um castigo que o pôs fora do banco nos três jogos seguintes. E também começaram a puxar o filme atrás e perceberam os sinais de que alguma coisa não andava bem desde aquele duplo bis (2-0 e 2-0) contra o Vitória de Guimarães, para a Liga e para a Taça da Liga.

Se bem se recordam, no segundo encontro consecutivo fora da Luz, Rui Vitória fez alinhar Gonçalo Guedes e Rafa Silva e aquilo foi um ver-se-te-avias, porque o miúdo fez dois golos e mostrou que o plantel tinha recursos infindáveis. Só que não tinha.

Porque, depois disso, o Benfica empatou 3-3 com o Boavista em casa e dois dos golos foram na segunda parte, o último um autogolo. Porque, depois disso, o Benfica atropelou o Leixões por 6-2, que anda nos lugares lá de baixo na II Liga. Porque, depois disso, o goleou o Tondela por 4-0 e os quatro golos aconteceram na segunda parte. E porque, depois disso, o Benfica perdeu com o Moreirense (1-3) para a Taça da Liga; e, ontem, com o Setúbal.

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Nesta sequência de altos e baixos, a equipa perdeu Fejsa e essa foi a desculpa perfeita para os golos sofridos – mas não resolveu o outro lado da equação, a produção ofensiva que se afundou em jogadas individuais e repentismos. E agora que recuperou Fejsa, o Benfica fez uma das piores exibições da época, só equiparável aos dois encontros com o Nápoles e a segunda parte diante do Besiktas.

Estão lembrados, certo? Foram os jogos em que o Benfica se desnorteou, incapaz de reagir ao adversário que impôs o seu modelo (sobretudo, o Nápoles de Sarri) sem encontrar resistência pela frente. Já agora que falamos de recordações, quantas vezes é que o Benfica conseguiu dar a volta a uma desvantagem esta época? Nenhuma. E quantas vezes é que o Benfica ficou sem marcar para Liga? Ontem foi a primeira vez em 39 jogos.

É óbvio que há problemas e que estes estão lá desde o início e que talvez nem seriam assim tão alarmantes se não fossem as lesões. Alguns exemplos: Jiménez e André Horta estão com entorses e isso deixou Vitória, perdão, Arnaldo Teixeira com duas opções para o ataque no banco. Uma mais ou menos válida: André Carrillo. Outra, nem por isso: Jovic.

E é em momentos destes que tudo aquilo que foi dito no início da época sobre o desequilíbrio – vocês terão igualmente entrado nestas críticas – do plantel regressa como só o karma regressa. Extremos a mais, muitos deles jovens e novos na equipa (Zivkovic, Carrillo, Cervi) e um deles com queda para maleitas (Salvio). E poucas soluções no meio-campo para cumprir o papel de Renato Sanches, o mais-que-tudo dos benfiquistas que resolveu os problemas da falta de ligação entre sectores por ter mais força que os adversários e por correr depressa com a bola no pé - e em frente. Com ele, Pizzi podia ir para a direita e fechar ao meio, e Jonas estava livre para tentar inventar jogadas com Gaitán. Com ele, o 4x4x2 funcionava, porque o 4x4x2 depende muito do dedo do treinador - e do trabalho do número 8.

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Nem André Horta, nem Danilo (recambiado) chegam para isto; e Pizzi não foi feito para isto.
Se olharem bem para o Benfica de Setúbal, vão reparar que a equipa jogou com dois médios, dois alas bem abertos e dois avançados à frente. Não há aqui novidade nenhuma, dir-me-ão, acrescentando que este modelo é o de sempre, desde os tempos de Jesus.

Acontece, porém, que no início desta época houve Gonçalo Guedes e o rapaz vendido ao PSG valia por dois: funcionava como uma espécie de Renato Sanches, poupando Pizzi às correrias para as quais ele não nasceu; e era o primeiro defesa, chato, a pressionar os defesas que nunca estavam descansados com ele por perto.

Com Mitroglou e com Jonas (sobretudo com este Jonas, mais velho, mais lento e à procura da melhor forma) o Benfica perde intensidade e potência, e voltam à tona algumas das fragilidades que se viram na primeira metade da época passada - a previsibilidade nos processos.

Ir à linha, cruzar e esperar que algo de bom aconteça. Ir à linha, cruzar e esperar que algo de bom aconteça.

É provável que Gonçalo Guedes tenha sido mal vendido e que o Benfica se possa arrepender disto. O miúdo não foi o primeiro a ser negociado neste mercado de inverno em que se notou a pressa (ou terá sido urgência?) do Benfica e de Luís Filipe Vieira em fazer €30 milhões e só isso justifica abrir mão de um jogador que andava a marcar golos e assumir-se como provável titular.

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Rui Vitória não se queixará, porque não é do feitio dele e até foi em parte por isso que o contrataram - um contraponto de Jesus, disposto a aceitar as regras do jogo negocial sem fazer barulho - mas sentirá a falta de Gonçalo Guedes. Tal como sentirá a falta de alguém que carregue o meio-campo se esse alguém não aparecer entretanto. Esse alguém pode ser Felipe Augusto, do Rio Ave. Se não for, pode ser que corra mal.