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Se acham que ele defende bem, deviam vê-lo a atacar (o perfil de Ederson por quem o treinou)

Marcar golos, muitos. Era isso que, em alguns treinos nos juniores do Benfica, acontecia à equipa que ficava com Ederson. Porque ele insistia em jogar à frente para usar o “enorme pontapé” que tinha e ainda tem, disse-nos quem o treinou. Depois de sair e antes de voltar aos encarnados, até chegou a bater livres em jogos da terceira divisão, no Ribeirão. Foram estas, e outras coisas, que ouvimos de quem viu crescer o guarda-redes que parou tudo o que o Borussia Dortmund rematou à baliza do Benfica

Diogo Pombo

CHRISTOF STACHE

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Chegou-lhe aos ouvidos que alguém tinha sido dispensado. Era um miúdo. Ou melhor, para ele, era o miúdo. Ficara atento desde que o vira pela primeira vez, entre os postes, corpulento e com altura a mais para a idade. O maior de todos eles a guardar a baliza. Disseram-lhe que o Benfica acabara de deixar ir quem mais o impressionara na equipa de juniores. Um clube de Lisboa, que estava de olho, queria-o. Mas Vítor Alcino, seguro do que vira no miúdo, e sentindo a urgência, resumiu ao presidente do clube em que estava que “nem havia discussão”.

Tinham de o ir buscar, não havia desculpa.

Foi assim, mais ou menos, que um guarda-redes de 17 anos foi do Benfica para o Grupo Desportivo do Ribeirão, em 2011.

Era um brasileiro, que teve de trocar os prédios, a confusão, o trânsito e a azáfama de uma grande cidade por uma vila do concelho de Famalicão. Saiu tímido de Lisboa e a mudança, drástica, intimidou-o mais ainda. Chegou calado, recatado e dono de poucas palavras, que soltava com vergonha. Vítor Alcino era quem treinava os guarda-redes da equipa principal. Fez o melhor para o receber. Tentou puxar por ele, à conversa, quebrando o gelo que o envolvia no campo.

Porque este miúdo, ao contrário do que é costume, era mais tímido no campo do que fora dele. “Falava muito pouco no treino. Era reservado”, resume, sobre o adolescente que tinha a morar no mesmo prédio, a quem, às vezes, dava boleia, e que via como se portava fora do futebol: “Na altura, eu tinha um filho de dois anos e ele até brincava muito com ele”.

O brasileiro que era “um bocado brincalhão” deixava de o ser quando tapava as luvas com as mãos - falava pouco, tornava-se mais tímido, ficava mais na dele, nunca se desconcentrava, trabalhava muito.

Este guarda-redes era Ederson.

Baliza a baliza

Tinha que ser Vítor a desabafar com ele, como hoje conta. Estava a lidar com um miúdo que, na baliza, o espantava com as coisas “fora do normal” que já mostrava. “Tinha grande maturidade, a frieza dele era impressionante. Em lances mais complicados, impressionava a simplicidade com que ele ia buscar a bola”, lembra, falando do imberbe que, ao fim de alguns treinos, o fez adivinhar a fortuna que estava à espera o brasileiro. “Disse ao presidente do Ribeirão: ‘Este guarda-redes, daqui a dois anos, está na primeira liga’”.

Vítor enganou-se. Demorou apenas uma época.

Os clubes, diz ele, não são cegos e cedo viram e foram vendo o que Ederson estava a fazer na II Série Norte da Segunda Divisão, o então terceiro degrau do futebol nacional. Mas o que Vítor via em Ederson nos treinos (os reflexos, as paradas, a agilidade, a forma como tapava a baliza) não dava tanto nas vistas como o pé esquerdo que ele tinha. O que tinha tanto de bom como de mau, explica o treinador de guarda-redes que hoje está no Famalicão. “No pontapé longo, ele já punha a bola de uma baliza à outra, o que não é muito bom. Porquê? Faltava aperfeiçoar a pontaria. Meter a bola de baliza a baliza era dá-la ao adversário. Ele só pensava em bater longo. Tentamos fazê-lo ver que era um aspeto que podia colocar em prol da equipa”.

TOBIAS SCHWARZ

Ederson tinha que aprender a controlar a força que tinha. A domá-la, a não “pôr muita bola fora” quando tinha de passar a bola a um dos laterais. Vítor ouvia-o dizer que, no São Paulo, onde começou a jogar no Brasil, treinava muito os pontapés de baliza, o bater a bola para a frente. Mas não o jogo curto, ou as receções orientadas, em que “falhava muito” e não podia falhar. Vítor dizia-lhe que um dia ia chegar a uma equipa grande e “tinha de controlar os momentos de início de construção de jogo”.

E o guarda-redes que “só pensava em bater longo” foi melhorando, porque já era um animal de treino. “Trabalhava muito, mesmo. Está onde está por muito esforço. Ele pouco brincava quando estava lá. Nós fazíamos uma série e ele queria repetir, queria sempre mais. Eu dizia-lhe: ‘Tu és um monstro a trabalhar!’. O Ederson treinava mesmo muito. O pessoal ficava boquiaberto”, garante Vítor Alcino.

Além de aperfeiçoar a pontaria no pé, o adolescente brasileiro teve de aprender a falar. Não lhe bastava ser “fenomenal entre os postes”, tinha que ser dono da área e comunicar com quem tinha a jogar à frente. “Comunicar era uma das lacunas dele. Tinha de ser uma voz de comando”, diz, sobre a faceta que Ederson ainda não tinha.

Mas já tinha o pé esquerdo, o tal que fazia o Ribeirão deixar um jogador perdido atrás dos defesas, nos pontapés de baliza, porque a bola chegava lá. Nos treinos, Ederson até brincava com isso – “Vou meter a bola na outra baliza, queres ver?”. Nos jogos, a equipa até o aproveitava mais. Nessa época, Ederson fugiu dos postes para ir lá à frente bater dois livres. “O primeiro que ele bate foi no Ribeirão, mandou por cima da barra. Mas, contra o Varzim, o guarda-redes defendeu para a frente e a gente falhou a recarga. Tinham que ser livres em força, em potência”, descreve Vítor, entre o muito que tem para dizer sobre o miúdo que, ainda hoje, não percebe como foi dispensado do Benfica.

João Tralhão sabe porquê.

Xau, Ederson

Vindo do Brasil e findas duas épocas nos juniores encarnados, o clube preparou-lhe um caminho. Como ainda não havia equipa B, esse rumo era, aos 17 anos, tentar a sorte na equipa principal. “O Ederson saiu porque o desafio que lhe criaram na altura não era fácil para um miúdo com aquela idade. Foi uma decisão conjunta, com muita gente envolvida, no sentido de lhe criarmos um desafio diferente”, conta João Tralhão, hoje treinador principal dos juniores do Benfica e, na altura, ainda adjunto. Hoje “é fácil dizer que foi a melhor decisão”, mas Ederson teve um trajeto diferente que, após uma temporada no Ribeirão e duas no Rio Ave, o fez retornar ao clube da Luz.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Tudo que Vítor Alcino vira de bom no brasileiro, já João o constatara. Apanhou o miúdo acabado de chegar do Brasil, ainda mais tímido, calado e parco nas palavras. Os 15 anos exigiram tempo de adaptação a “um rapaz bastante reservado”, que “nunca foi muito extrovertido” e já tinha “algumas dificuldades a comunicar nos treinos”.

O lado falador e social melhorou com a chegada, entretanto, de outros jogadores brasileiros. Ederson ganhou o à-vontade, soltou-se, a conversa foi aparecendo com quem o rodeava no balneário. A comunicação, era isso que lhe faltava ter. O resto já lhe recheava o potencial.

Ele era “muito rápido” e “destemido”, coisas que juntava a “excelente capacidades cognitivas”. O que, descodificando, o faziam “ler muito bem o jogo” e saber “os momentos em que tinha de atacar a bola ou sair da baliza”.

Ederson dava pistas de poder ser um monstro em tudo isto e oss técnicos no Benfica adivinhavam-no. Porque o mais visível era mesmo “o pontapé que tinha”.

Nos treinos de recuperação, após os jogos, nos mais leves em que tudo se resumia a uma pelada ou a um futevólei, Ederson nem punhas as luvas nas mãos. “Ele era o primeiro a não meter as luvas. Nunca as trazia. Já sabia que o treino não era para ele ir à baliza. Às vezes até tínhamos dificuldade para o convencer a não jogar à frente. Mas ele levava sempre a melhor. Os colegas também incentivavam a que isto acontecesse, pois escolhiam-no sempre para jogar a ponta de lança”, conta, entre alguns risos: “Até brincávamos: ‘Bem, a equipa que escolher o Ederson vai ganhar’. Ele fazia a maioria dos golos, tinha um pontapé enorme!”.

Tão grande quanto os pulos que tem dado.

Hoje, João Tralhão cruza-se com Ederson no Seixal. Falam, brincam muito, conversam sobre esses tempos e riem como se já não se vissem há muito. O brasileiro está com 23 anos e, mesmo que ainda tímido, tem um sentido de humor “acima da média”. É brincalhão, bem-disposto e raramente alguém o encontra com cara feia. Dizem-nos que “gosta mais de estar na dele”, no seu mundo.

Aos 12 anos, quando se juntou a quatro amigos, foi fazer testes ao São Paulo. Disse em tempos, ao “O Jogo”, que esteve apenas 10 minutos em campo até se decidirem a ficarem com ele. Menos tempo do que gastava, em criança, a implorar ao pai que mudasse de canal na televisão, para ver telenovelas e não jogos de futebol.

Ederson não gostava.

Agora, muita gente gosta dele. Como Taffarel, o treinador de guarda-redes da seleção brasileira, que esteve na Luz a vê-lo parar tudo e mais alguma coisa que o Dortmund tentou fazer passar por ele. Como Rui Vitória, para quem Ederson “está cá para isto mesmo” – ser um monstro, parar remates, não parar de melhorar e fazer com que caia no goto de cada vez mais pessoas. Como os clubes que, diz-se, já o querem levar. Mas Ederson, diz o próprio, não se deslumbra com isso.

Talvez porque não se esquece do que teve de fazer para estar ali, como Vítor Alcino o fazia ver, em miúdo: “Dizia-lhe que lhe podiam cortar as pernas ao início e ele não se podia deixar ir abaixo. Alertava-o para os sacrifícios que teria de fazer. Porque os brasileiros são assim, gostam de ver os Ronaldinhos a fazer festa e os pés de dança, mas custa lá chegar”.

Ederson parece estar bem encaminhado.