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O que é a Cavalgada das Valquírias comparada com a Vaca da Luz?

Rui Cardoso, editor da secção Internacional do Expresso (e Benfiquista de todos os costados) escreve sobre a noite do impossível feito possível

Rui Cardoso

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Há dias em que o mundo, ainda que por breves instantes, parece perfeito. Senão reparem: num jogo da Liga dos Campeões, uma equipa portuguesa derrota um adversário alemão e o marcador do golo que decidiu a partida é grego.

Que mais se poderia pedir aos deuses do velho Olimpo?

Uma breve, simbólica mas saborosa vingança contra a troika, os mercados, o intratável Schäuble e as diatribes racistas contra os PIIGS. E tanto mais deliciosa quanto o treinador do Borussia veio declarar no fim do encontro que o resultado “tinha sido ridículo”. Talvez. Mas não mais do que uma equipa com 64% de posse de bola e 14 remates não conseguir meter nem um golinho para a amostra. O digno herr Tuchel não levará a mal mas, há perto de um século, os britânicos inventaram uma coisa chamada fair play que, tal como o álcool, as febras e o bailarico, é para consumir, mesmo que em doses mínimas.

Dito isto, foi uma noite digna dos velhos tempos? Não! Na primeira parte o Benfica viu completamente asfixiada a saída de bola e teve de recorrer ao pontapé para a frente. Houve momentos de verdadeiro terror junto à baliza sul, com a bola a passar a centímetros da barra ou a percorrer perigosamente uma trajectória paralela à linha de golo.

Na segunda parte houve arreganho, sorte a marcar (que melhor prenda poderia Luisão ter querido no 500º jogo pela sua equipa?) e competência a defender, a começar por esse notável guarda-redes chamado Ederson que não se deixou enganar por um penálti batido (perdoe-se a expressão) à cagadinha.

Na bancada os últimos dez minutos foram de verdadeira loucura, com 50 mil aos saltos, a gritar, a aplaudir, a rir, a chorar. A começar pelo meu improvável vizinho do lado, um rapaz que se apresentava enrolado numa bandeira vermelha com uma águia bicéfala preta e que me explicava “eu sou albanês”, enquanto gritava pelo Benfica com um sotaque mais que aceitável.

E agora? Como vai ser em Dortmund? Não sabemos, mas estes momentos de glória, mesmo mal jogados e com alguma sorte à mistura, ninguém nos tira. De resto, se o futebol fosse uma ciência exacta seria jogado por físicos de partículas e engenheiros aeroespaciais. E as equipas com mais dinheiro e mais nome ganhavam sempre. Vêm aí 90 minutos verdadeiramente infernais mas o que é a Cavalgada das Valquírias comparada com a Vaca da Luz? E, afinal, como a História demonstrou, os panzer, esses prodígios de engenharia, também tinham marcha atrás.