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Mitroglou: o homem que pouco ri, pouco fala, pouco corre - e que marca muito

Pode ter um visual de quem parece não ter amigos. Ou, como diz Paulo Machado, que jogou com ele no Olympiakos, de quem parece “que o foram buscar à rua”. Mas Kostas Mitroglou, o grego que decidiu as últimas duas vitórias do Benfica, é alguém relaxado, brincalhão e com uma personalidade “de partir a rir”

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues

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Já caminhava, mal sabia falar e, do nada, aterrou num país esquisito.

Os pais resolveram emigrar. O rebento sem noção de coisa alguma foi com eles, seguiu-os de arrasto. É por isso que hoje, perguntada sobre entrevistas de um certo futebolista, a internet responde-nos com mais exemplos de um grego a falar alemão do que de um grego a falar a língua da terra dele. Mitroglou tinha dois anos quando chegou à Renânia do Norte-Vestfália, nome da província que guarda a maior fatia de população na Alemanha.

É uma terra fria, por vezes gélida, onde o trato das pessoas pode ser como a temperatura que se encontra na rua. Era tudo diferente e distante de Kavala, a pequena cidade colada à praia que nem a cem mil habitantes dá abrigo, onde ele nasceu. É talvez por ter levado com este contraste em criança que Kostas Mitroglou é como o vemos a ser hoje – homem de poucos sorrisos, com cara fechada, não muito reativo com emoções, algo taciturno e que nos faz sentir sortudos por o apanharmos a sorrir.

No último ano e meio, vimos os dentes do grego 45 vezes, não mais do que isso. É o número de golos que leva marcados no Benfica, o último rematado no domingo, em Braga, que o fez abrir os lábios e mostrar-se feliz durante aqueles segundos de euforia, felicidade e descontrolo que ninguém sabe bem descrever, quando se tem a culpa de uma bola de futebol entrar na baliza.

Quando isso acaba, Mitroglou volta, sempre, a ser ele próprio.

Alguém com um os braços negros, forrados a tatuagens, com uma barba pontiaguda no queixo, um cabelo preso à brilhantina. O visual inusitado de quem parece um feiticeiro indeciso entre a escuridão das trevas ou a luz do lado bom da força.

É um look que Mitroglou nutre há muito. Paulo Machado diz que o grego faz por mantê-lo desde que começou a aparecer-lhe algo na cara. “Com esse visual todo, às vezes até lhe dizia que ele tinha de mudar um bocadinho. É assim desde que a barba lhe cresceu. Começou a ganhar barba e não mudou, nunca mais a cortou”, conta o português, que hoje está em Zagreb, a jogar no Dínamo, mas que partilhou época e meia com o avançado helénico, no Olympiakos.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

A aparência de Mitroglou, de início, não o espantou, porque Paulo Machado é quem é e, na altura, “era sempre o palhaço da equipa”. Portanto, vendo um grego algo calado e reservado, cedo se começou a meter com ele. “Mitrogooolo, Mitrogooolo”, chamava-lhe, logo ao início. “Às vezes, na brincadeira, até lhe costumava dizer: ‘Pareces um talibã, ouve lá. Parece que te foram buscar ali à rua’. Ele não parece grego, nem nada. A família dele é grega, é turca, é tudo junto”, brinca o internacional português, antes de passar à outra parte pela qual o avançado dá nas vistas.

Os golos – que são muitos.

Ele começou a marcá-los na Alemanha, num clube pequeno chamado DSV Duinsburg, onde o Borussia Mönchengladbach foi caçar o jeito, os remates e as poucas palavras do grego. Os 14 golos em 33 partidas pelas reservas da equipa de nome comprido fizeram o Olympiakos pagar para devolver Mitroglou à Grécia. Mas ele, ainda miúdo, foi algo lento a provar que os euros pagos tinham razão.

A três temporadas e meia de um registo razoável de golos seguiram-se dois empréstimos seguidos, ao Panionios e ao Atromitos. O número de remates que interessam aumentou, mas a reputação que rebocava, difícil de mudar quando se cola a uma ideia, resumia que Mitroglou era um avançado que corria pouco sem bola, arisco a defender e com um feitio especial.

Em 2008, por exemplo, irritou Ernesto Valverde, treinador do Olympiakos, ao falhar um penálti no play-off de acesso à Liga dos Campeões quando não era suposto ser ele a batê-lo, segundo a hierarquia. “Não é aquele jogador que corre atrás. Quando eu ia à pressão, ele não ia. Mas quando era para jogar à bola, eu sabia que ele não a perdia”, resume Paulo Machado.

O português apanhou-o em 2012/13 e até janeiro da época seguinte, altura em que Mitroglou liderou sempre a corrida dos goleadores na Grécia e até se tornou no primeiro grego a marcar um hat-trick na Champions, ao Anderlecht:

- Eu sempre disse: não o queiram para correr e ir à pressão. Mas, quando tem a bola no pé, ele não a perde muitas vezes. No Olympiakos, se ele não corria muito nos jogos, imagine nos treinos. O problema era esse. Mas o que pedem aos pontas de lança? É para fazerem golos. E ele está lá para isso. A gente dizia-lhe que não precisava de correr, porque corríamos por ele. Tinha era que fazer golos.

LOUISA GOULIAMAKI

Mitroglou fazia-os, cada vez mais e a um ritmo que começou a interessar a quem tem dinheiro. O grego preferiu tentar a sorte na Premier League, num Fulham a tremer contra a descida de divisão, em vez de permanecer num Olympiakos com presença nos dezasseis avos de final da Liga dos Campeões. Arriscou, não rendeu, foi despromovido e foi emprestado à casa onde o Benfica o foi buscar – para se voltar a fartar de marcar.

Os 45 golos em 76 jogos são o motivo de sorriso no homem que é raro vermos a sorrir. Mas é a reação que ele provoca nos adeptos, sobretudo nos jogos em que, sem os golos do grego, o Benfica teria perdido ou empatado.

Aconteceu quatro vezes na época passada (V. Setúbal, Estoril, Sporting e Académica) e outras quatro na atual (Boavista, Borussia Dortmund e em dois encontros com o Braga). Mitroglou pode não ser dono dos pés mais assíduos em jogos europeus ou contra os grandes – tem seis golos repartidos pelo Sporting, FC Porto, Astana e Dortmund–, mas usa-os com fartura contra outros adversários, que contam o mesmo.

Vai com cinco bis e dois hat-tricks em Portugal, que têm feito com que Paulo Machado mantenha o hábito de pegar no telemóvel, teclar muito do mesmo e enviar mensagens ao amigo – “Mitrogooolo, Mitrogooolo”.

É como escrever que o grego tem sorrido muito e desfeito a cara séria que sempre o acompanha Escondido dos estádios cheios de gente e das câmaras de televisão, contudo, o grego é tudo menos carrancudo. “Ele é assim, não se ri muito cá para fora. Lá dentro é totalmente diferente. Ele é aquela pessoa que, olhando de fora, te faz dizer: ‘Este gajo não deve ter amigos’. Por causa da cara fechada que tem. Mas ele não é assim. Não é uma pessoa que goste de falar muito, mas gosta de brincadeiras”, garante-nos o português, que ainda se lembra dos primeiros tempos, em que Mitroglou, de bom grado, se entendia com ele com gestos e inglês enferrujado.

Do pouco que vê do Benfica, porque Paulo Machado é do FC Porto e não é dono de qualquer problema em dizê-lo - "Vejo o Benfica para ver se empata ou perde e o meu Porto passa à frente" -, o português reconhece que Mitroglou prospera mais se tiver “a qualidade de passe, os movimentos, o último passe e o facto de não perder muito a bola” de um certo alguém.

É Jonas.

FRANCISCO LEONG

Jonas faz bem a Mitroglou e até vemos o grego a sorrir mais vezes quando o brasileiro está em campo com ele. Com ele, “já se sabe que é outra coisa”, como os 10 golos que Mitroglou marcou desde que o seu melhor amigo deixou de estar lesionado, dois a mais por comparação com o período em que o brasileiro não jogou (em suma, de 27 de agosto a 17 de dezembro).

Pode ter sido um tempo que o grego, aborrecido e com saudades, preencheu a ouvir R'n'B, hip hop ou house. A deleitar-se os melhores momentos de Le Bron James na NBA. Ou a rever Al Pacino a fazer de mauzão com carisma em "Scarface". São os estilos de música, o desportista e o filme que Mitroglou mais aprecia.

Haja coisas que o façam sorrir além do futebol.