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Sim, o Benfica envia documentos. Mas garante que não paga aos comentadores

O Benfica produz “informação diária” que envia para os “comentadores afetos ao clube”, mas nenhum recebe qualquer remuneração. Estas são algumas das garantias do Benfica em resposta à Tribuna Expresso, que questionou o clube da Luz, e os moderadores de três programas desportivos, após as alegações do diretor de comunicação do FC Porto sobre uma “cartilha” de atuação

Diogo Pombo e Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Se encararmos tudo isto como um bolo que não se come, mas que se compõe, a primeira fatia foi colocada na bandeja pelo FC Porto.

Na terça-feira, o diretor de comunicação do clube, Francisco José Marques, foi ao Porto Canal mostrar um documento que descreveu como “nove páginas mais vinte e duas”, divididas por dois capítulos. Era um guião, disse ele, que o Benfica enviava a todos os comentadores televisivos afetos ao clube, alegando que, por causa dele, eles “atuavam todos sob a mesma cartilha”.

Ora, servida esta fatia, o responsável do FC Porto passava a impressão de que o Benfica estava a fazer chegar aos comentadores uma espécie de roteiro, no qual todos deviam basear o que diziam, o que defendiam e o que acusavam. Seguiram-se uma quarta e uma quinta-feiras de migalhas a caírem e de fontes citadas a alegarem que este tipo de documentos também são fabricados por FC Porto e Sporting, e enviados para os comentadores que têm as cores deles.

Para não haver fatias em falta no bolo, a Tribuna Expresso enviou as mesmas quatro perguntas aos diretores de comunicação dos três clubes:

1. Preparam e enviam guiões?
2. Que tipo de contacto mantém o clube com os comentadores? 3. Os comentadores recebem alguma remuneração?
4. O clube tem alguma influência na escolha dos comentadores?

As mesmas questões, o mesmo prazo de resposta para todos. Quando o tempo terminou, apenas o Benfica tinha respondido. Fê-lo sem comentar diretamente o caso mencionado pelo diretor de comunicação do FC Porto - alegou que Carlos Janela, ex-dirigente de Belenenses e Sporting, é quem entrega estes documentos, semanalmente, aos comentadores -, que considera “um fait divers”, mas quis esclarecer o que tem sido dito, escrito e rumorado. Estas foram as respostas:

"1 – O SLB, sendo reconhecidamente a principal marca do país, obviamente que tem uma estrutura profissional na sua comunicação que produz informação diária para os seus diferentes canais e também para os comentadores afectos ao clube.

2 – Para além da informação corrente, sempre que um comentador considerar pertinente e nos contacte estamos sempre abertos a fornecer os dados e enquadramento que nos seja solicitado. Não existindo qualquer outro tipo de contacto.

3 – Todos os comentadores que não têm qualquer tipo de vínculo profissional a estruturas do SLB não recebem nenhuma remuneração por parte do clube.

4 – Que saibamos os critérios de escolha e seleção dos comentadores por parte das televisões e rádios são da estrita e exclusiva competência desses órgãos de comunicação social."

O sumário da fatia do Benfica é que o clube envia notas informativas aos comentadores, diariamente e por e-mail, e que lhes fornece mais informação, caso eles a peçam. Garante que não paga o que seja a quem fala na televisão por ser afeto ao clube, ou que exista contacto entre o Benfica e as estações de televisão no momento da escolha dos comentadores. A partir daqui, cada um lê, segue, utiliza, ignora, apaga ou faz o que pretender com as notas que receber.

O problema é que, à falta de respostas de FC Porto e Sporting, o bolo apenas se compõe até este ponto.

RTP "sem conhecimento" dos guiões

Além dos clubes, a Tribuna Expresso também enviou perguntas aos três moderadores dos três programas de debate de futebol dos canais de informação das três estações televisivas de sinal aberto: "Trio d' Ataque" (RTP), "Prolongamento" (TVI) e "O Dia Seguinte" (SIC).

O formato foi o mesmo e todos receberam as mesmas quatro perguntas:

1. Tem conhecimento de guiões enviados pelos clubes aos comentadores?
2. Sabe se eles recebem algum tipo de pagamento?
3. Há algum contacto com os clubes antes de contratarem comentadores?
4. Receia que a interferência dos clubes possa afetar a independência dos comentadores?

Até à hora de publicação deste artigo, apenas nos tinham chegado as respostas de Hugo Gilberto, apresentador do "Trio d' Ataque" e diretor-adjunto da RTP, que garante não ter nem nunca ter tido conhecimento sobre guiões enviados por clubes aos comentadores do programa.

"Conhecendo, como conheço, o Miguel Guedes, o João Gobern e o Rui Oliveira e Costa tenho a certeza que não", diz à Tribuna Expresso Hugo Gilberto, que garante ainda que seria "impensável" a RTP contactar de forma prévia os clubes antes de escolher o painel do seu programa.

"Não quero acreditar que uma televisão, seja qual for, possa articular com o objeto do comentário o nome do comentador. Desde 2008, fui eu que propus/sugeri/escolhi os nomes dos comentadores do 'Trio d' Ataque'. Duas das condições fundamentais são a independência e a liberdade para criticar. Aliás, qualquer um deles sabe, por exemplo, que se algum dia tiver algum cargo na SAD ou no clube de que são adeptos, deixa de imediato de ser comentador do 'Trio d' Ataque'", diz.

Hugo Gilberto diz não ter "qualquer receio" de uma possível interferência dos clubes no seu programa: "Só por ignorância ou má-fé alguém pode acreditar que isso é possível - que estão ali para defender uma espécie de estratégia de comunicação oficial do clube - com os comentadores do 'Trio d' Ataque'. Só nas últimas semanas, qualquer um deles se demarcou e criticou o presidente ou os dirigentes ou o treinador do clube de que são adeptos. E foi assim desde sempre".

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