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Proust rumo ao tetra

Pedimos ao escritor Hugo Gonçalves que nos recuperasse a sua história com o Benfica e com os dérbis. E nela cabem gritos, festejos, futeboladas de rua e desilusões

Hugo Gonçalves

FRANCISCO LEONG

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Era ainda um puto, que julgava ser homem. E os meus interesses alargavam-se - às miúdas e à bola acrescentei os livros - quando li uma entrevista em que António Lobo Antunes dizia ter perdido o gosto pelo futebol e - mais chocante - pelo Benfica. Como podia o escritor ter-se desapaixonado de algo tão fundamental na vida dos humanos?

Na infância e adolescência, os intervalos na escola eram ocupados com peladinhas, bem como as tardes de fim-de-semana, no asfalto da rua, com jogos de dois contra dois e balizas pequenas, muda aos cinco e acaba aos dez. Conhecia de cor o plantel dos três grandes, já tinha trocado o cromo do Maradona por oito repetidos. Corri quilómetros, porque o autocarro não aparecia, mas eu tinha de chegar a casa a tempo de ver a partida de abertura do Itália 90. Certa noite, o meu pai entrou de rompante no quarto, assustado com os gritos, porque na rádio eu acabara de ouvir o golo de Vata, na meia-final com o Marselha, e pulava na cama como um atleta olímpico do trampolim.

Nas futeboladas domésticas, na sala de casa, com os meus irmãos, imaginava-me o Vítor Paneira a rasgar todo o corredor direito junto à linha. O Valdo a mandar no meio campo. O Rui Costa a abrir os braços após um golo de fora da área.

O fulgor com que vivia o futebol só era equiparado com a ilusão do amor romântico - dar beijos na boca a miúdas - e a excitação das primeiras saídas à noite. Mas nem as ressacas iniciais impediam que, nas manhãs de domingo, participasse com os amigos em torneios amadores no quais esfolávamos o corpo inteiro nos pelados com balizas sem redes e um suplente a fazer de árbitro.

Cada jogo era uma questão de vida ou morte. Testosterona, competição, o imperativo da masculinidade num carrinho a pés juntos, a emoção pura e fisiológica de marcar um golo - essa sensação que o avançado portista Fernando Gomes comparava ao orgasmo. Então, como podia um escritor, essa figura que eu julgava mística e inapelavelmente romântica, desapegar-se de algo tão visceral e, ao mesmo tempo, transcendente?

O malogrado 7 a 1 foi o meu primeiro grande choque futebolístico. Não se tratava apenas do gozo dos meus coleguinhas lagartos na escola primária, mas o desmerecimento e vergonha que só vi igualados, muitos anos depois, quando morava no Rio de Janeiro e fui testemunha de um povo inteiro a esconder a incredulidade e a desonra, tapando em uníssono a cara com as mãos, após a Alemanha ter despachado o Brasil no Mundial de 2014 - também por 7 a 1.

Posso até nem lembrar-me de muitos dos confrontos entre Benfica e Sporting, mas recordo como o Manuel Fernandes era o vilão e Carlos Manuel o herói. Tal como não esqueço o intoxicante e infantil prazer da vingança quando, numa noite de chuva, acompanhado de dezenas de amigos, num restaurante com menu combinado e bar aberto de cerveja, vi o João Vieira Pinto estilhaçar os rins ao central do Sporting e marcar o segundo golo benfiquista no 6-3 em Alvalade.

Nessa noite, a cerveja e as hormonas desgovernadas dos rapazes que queriam ser muito machos, acabou com vários dos meus amigos, do Benfica e do Sporting, aos gritos e aos empurrões. Uns quantos chegaram a trocar uns tabefes. Havia algo primário e tribal e físico e grandioso no futebol.

Depois, no início da idade adulta, e com alguns interregnos, vivi dez anos no estrangeiro, e a distância foi criando algum desapego, ainda que tenha visto a seleção em restaurantes portugueses, em Newark, abraçando emigrantes bigodudos e de longa duração, e acompanhado o Benfica nas competições europeias em televisões de pubs irlandeses em Madrid ou Londres. Pubs irlandeses: o recurso global para expatriados que, sem nunca se terem visto antes, se comportam como melhores amigos durante noventa minutos de “carrega Benfica”.

O desprendimento foi crescendo. Uma certa impaciência para a telenovelização do futebol, os longos diretos horas antes dos jogos, os programas de comentário chapa cinco, o ódio nas redes sociais, o desconforto de gostar de algo que pode ser tantas vezes corrupto, sujo e violento. O “grunhismo” das claques, os disparates e tropelias de presidentes, o maniqueísmo e cegueira de comentadores aos gritos. A clubite acima da decência.

Com o passar dos anos, e tal como aconteceu com as drogas, o álcool, as madrugadas prego-a-fundo e o sexo de uma só noite, também a alienação coletiva do futebol começou a parecer-me mais danosa do que libertadora, o autoengano da fuga para a frente, uma forma de tapar algum buraco existencial.

Um amigo brasileiro, mais velho, disse-me uma vez que, a partir de certa idade, passara a olhar para as mulheres com menos voracidade e mais encanto. Em vez de deixar cair a cabeça sempre que via um decote, estava mais vulnerável à mulher que prendia o cabelo, revelando a pele da nuca. Havia mais beleza, menos sofreguidão. Mais paz, menos guerra.

Teria sido isso que acontecera a Lobo Antunes quando disse que se desinteressara do futebol e do Benfica? Seria a idade inversamente proporcional à paixão e ao vício do vigor físico? Estávamos todos destinados a reconhecer a sabedoria dos gregos: conhece-te a ti mesmo, nada em excesso?

Tenho 40 anos e, se vejo miúdos a jogar na praia, ainda espero que a bola chegue acidentalmente até mim para que possa dar uns toques antes de chutá-la de volta. Há qualquer coisa de reconfortante sempre que apanho os resumos da Champions na TV - um aconchego de “Domingo Desportivo” ao serão, o melhor antídoto para a angústia de voltar às aulas na segunda-feira de manhã. Posso detestar a praga de televisões ligadas na bola em tantos restaurantes, mas quando passo pelo café da rua espreito sempre o resultado, mesmo que seja um jogo da segunda divisão francesa.

É verdade que o futebol é agora muito mais o pescoço revelado por um rabo de cavalo do que a ostentação do decote. Mas a memória da intensidade futebolística tem tanto poder evocativo como o cheiro das alfarrobeiras e das estevas no Algarve, um solo de guitarra de Angus Young ou o chocolate no fim de um Cornetto de morango. Transportam-me para um tempo que, em retrospetiva, me parece sempre feliz: a memória também é imaginação.

Proust precisou de comer uma madalena, com o seu chá, para viajar no tempo e pôr a vida inteira em sete volumes. Eu só preciso que este sábado o Jonas faça as vezes do Nené ou do Mats Magnusson. É que, apesar da idade, um golo do Benfica num dérbi ainda permite que eu seja, mesmo que por uns segundos, o puto que não quero deixar de ser.