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O sofrido triunfo da Vaca Vitória

Rui Cardoso, editor da secção Internacional do Expresso, foi ao jogo que deu o quarto título do Benfica. Diz ele: “Nos jogos na Luz os espectadores são brindados com os voos da Águia Vitória. Mas, seja em casa, seja fora, quem raramente falha é a Vaca Vitória”.

Rui Cardoso

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Rio Ave-Benfica, minuto 86. Gonçalo Paciência aproveita uma recuperação de bola à saída da área do Benfica e remata forte com Ederson batido: o esférico bate estrondosamente no poste esquerdo, ressalta para outro avançado vila-condense e este faz a recarga para as nuvens. Estava ganho o jogo e muito provavelmente o campeonato. Eu estava lá com o Paulo Paixão e vi!

Como se explica este facto insólito que, além de desafiar a lógica, também desafia as leis da física? Se olhássemos com atenção, algures nas bancadas junto à baliza, estava um bichinho cornudo de peluche, preto e branco, como convém à representação de uma ruminante leiteira. É a Vaca Vitória, que raramente deixa o Benfica ficar mal.

Foi ela que inspirou Mitroglou no jogo com o Braga a fazer aquele slalom pelo meio dos defesas e a meter a bola pelo buraco da agulha. Ou Pizzi a ver uma nesga no muro defensivo do Feirense e a desferir o remate certeiro que decidiu o jogo. A Vaca Vitória não é um personagem de ficção. Existe mesmo e vão acreditar na minha palavra porque a dita está lá em cima - e no final deste texto.

Espantosos os poderes da Vaca Vitória. Nalguns jogos não há só uma a saltitar de bancada em bancada mas muitas. Aliás no jogo como o Borussia Dortmund em casa a mascote dos benfiquistas aflitos fez como o tenebroso agente Smith do último episódio de Matrix e replicou-se até ao infinito: havia mais de 50 mil Vacas Vitórias nas bancadas do estádio. Só assim se explica que, perante o caudal de jogo dos alemães, não só eles não marcassem um golito para a amostra (nem um penalti “à cagadinha” , genialmente defendido por Ederson) como na única vez em que lá fomos a dupla Luisão-Mitroglou fez um milagre…

Ninguém é perfeito e, como sabem os especialistas em agro-pecuária, a produção leiteira não é regular ao longo do ano. Sofreu uma quebra por alturas de Dezembro, altura em que o Glorioso perdeu no Funchal com o Marítimo, empatou com o Boavista na Luz, perdeu em Setúbal com o Vitória e foi eliminado pelo Moreirense na meia-final da Taça da Liga.

Mas a nossa vaca voltou finalmente. Numa altura em que não se podiam perder mais pontos, ainda nos deixou ficar por um empate em Paços de Ferreira, minimizado por igual resultado do FCP nessa jornada. Mas daí em diante empatámos onde não podíamos perder (Porto e Sporting) e ganhámos onde era mesmo preciso ganhar (Moreirense, Estoril e Rio Ave). E para quem dizia que vinha aí um campeão que não jogava nada, aí esteve o jogo com o Guimarães: na partida que podia decidir tudo, cinco golos de levantar um estádio e outros tantos desperdiçados. A Vaca Vitória nem precisou de se esmerar. Mas esteve lá na bancada não fossem as coisas ter dado para o torto.

Para o ano vai-me custar horrores ver sair o Ice Man Lindelof, os velocistas Nelson Semedo e Grimaldo ou esse extraordinário guarda-redes – Ederson – que quando não oferece penaltis ao adversário é o melhor do mundo. Sem falar de Eliseu que descobriu finalmente a peça de equipamento que o pode ajudar quando lhe despejam bolas nas costas: aquela lambreta das celebrações do Tetra. E ainda Jimenez, Mitroglou e sabe-se lá mais quem.

Mas a única que não pode sair, protegida por uma cláusula de rescisão de cem milhões, é a nossa Vaca Vitória. Enquanto continuar a pastar no relvado da Luz, o Penta e o Hexa são limpinhos.