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Texto de um benfiquista um bocado lixado com isto

Pedro Santos Guerreiro, diretor do Expresso, veste a pele do adepto do Benfica que tem mixed feelings sobre o que acabou de acontecer neste campeonato

Pedro Santos Guerreiro

JOSE MANUEL RIBEIRO

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O Benfica tem a melhor equipa de futebol em Portugal. É o clube mais bem gerido em Portugal. É tetracampeão – merecido. É o único dos grandes que trabalha com os pulmões no presente e a cabeça no futuro. Mas este quarto campeonato foi, desculpem-me os outros 5.999.999 de benfiquistas, um bocado foleiro. Pedir lagosta seria pedir demais mas, para quem é, bacalhau não basta.

Ser tetracampeão é um feito notável, sempre seria até porque nunca o fora. Luís Filipe Vieira já está na história do Benfica, muito mais do que Jorge Jesus esteve para estar ou do que Rui Vitória poderá ambicionar. Ninguém é mais tetracampeão hoje do que o presidente do Benfica. Ninguém. Chamem-lhe “estrutura” se querem elogiar, chamem-lhe “sistema” se querem criticar, mas Vieira é o presidente que devolveu aos benfiquistas aquilo que muitos já tinham esquecido ou ainda não tinham conhecido: a glória.

Hoje o Benfica tem estádios cheios, tem formação a sério, é um entreposto competente de jogadores que entram e saem deixando atrás cofres cheios sem equipas vazias, tem estratégia desportiva e estratégia empresarial, profissionalizou a sua equipa de gestão e tem vindo a conseguir dominar o descontrolo financeiro para não se deixar dominar por ele. Vieira não fez nada disto sozinho, teve aliados dentro e fora do balneário, dentro e fora do clube. Mas é um grande líder, com quem ninguém faz farinha, é teimoso e confia no seu instinto, sabe segurar treinadores e largar jogadores nos momentos certos e, não sendo santo nenhum, nunca o quis ser. A escolha de Rui Vitória (e as vezes que o segurou contra tudo e todos) é tão genial como foi a escolha de Jorge Jesus (e as vezes que o segurou contra tudo e todos). São treinadores muito diferentes, mas adequados aos momentos em que foram contratados: Jesus para um futebol de ataque e então bonito, que devolveu orgulho aos benfiquistas e vontade de ver os jogos e participar ativamente no benfiquismo; Vitória para equipas que, condicionadas pela necessidade de vender estrelas para reduzir custos e abater passivo, se tornaram muito mais assentes em jovens, que jogaram e valorizaram.

Foi assim criado um esqueleto variável na equipa, onde há jogadores preparados para serem vendidos em simultâneo com a preparação de quem lhes vai suceder. De um espantoso guarda-redes jovem a um extraordinário capitão velho – que tem sido o suporte de um balnerário estável ao longo de anos –, passando por jogadores que irrompem até ao ponta-de-lança de enorme qualidade em final de carreira. Alguns serão vendidos este verão, recebendo-se mais dinheiro do que se gastará na sua substituição, para amortizar mais passivo e para baixar custos com ordenados (no primeiro semestre da época, o Benfica gastou menos em salários do que o FC Porto e do que o Sporting!) e a equipa quererá preparar-se para o penta. Assim, seja, dizem os calculados supostos alegados aproximadamente avaliados em talvez cerca de quase perto de ao redor de seis milhões de benfiquistas que somos.

A época que está a terminar é, no entanto, a pior destas quatro em que o Benfica foi campeão nacional. É a equipa mais fraca, que joga menos bonito, que rebenta mais cedo. O Benfica foi a equipa que jogou melhor dos três grandes, razão pela qual mereceu ser campeão, mas nenhum dos três grandes jogou nada de verdadeiramente memorável. Houve demasiados casos (e sim, o Sporting tem mais do que razões de queixa, sobretudo até ser arrumado na Luz, onde foi prejudicado pela arbitragem), equipas demasiado instáveis (chegou a dar dó ver o FC Porto em alguns jogos, ao que não é indiferente o declínio visível no Dragão) e uma destemperança perigosamente consentida em alguns comentadores alinhados dos clubes. Não, não foi uma época bonita.

Bonito é ganhar e o Benfica ganhou. E Vitória ganhou. E Vieira ganhou. E todas as grandes praças das cidades portugueses rejubilaram. E para a história é isso que fica – e fica bem ao Benfica ficar tetra. Torço pelo penta mas ainda me torço pelo tetra. Para o ano há sempre mais. Mas não queremos apenas mais, queremos melhor. Melhor campeonato, melhor arbitragem, melhor ambiente, melhor desporto – e melhor Benfica.