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Os homens
 e o presidente (como o Benfica chegou ao tetra)

É preciso recuar 11 anos para explicar como chegou o Benfica até este lugar estável e consistente, que permitiu a conquista de quatro títulos consecutivos, uma marca inédita no clube

Pedro Candeias

Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica

tiago miranda

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Não deixa de ser curioso que o clube que mais títulos ganhou, que melhores equipas teve e que tem a maior base social, aquele a quem os seus adeptos chamam Glorioso quando não usam o acrónimo SLB para encurtar o nome Sport Lisboa e Benfica, o popular Benfica, dizia eu, não deixa de ser curioso que este emblema nunca tenha vencido quatro campeonatos seguidos.

Tanto mais que o Porto ou o FCP, o Futebol Clube do Porto, já teve o seu ‘tetra’ e inclusivamente o seu ‘penta’, que conferiu o estatuto singular a um treinador que ficou para sempre conhecido como o “engenheiro do penta”, até se tornar o salvador da pátria portuguesa no Euro-2016. E não deixa também de ser curioso que esse mesmo engenheiro, o pragmático Fernando Santos, é o ponto de ligação entre estas duas histórias que se cruzam.

É preciso recuar 11 anos para explicar como chegou o Benfica até este lugar estável e consistente. Em 2006, Luís Filipe Vieira apresentou Fernando Santos e Rui Costa, dois benfiquistas, um para treinar, outro para jogar, num passo que o presidente achava ser suficiente para conquistar o seu segundo título. Correu mal.

Fernando Santos ganhou zero, Rui Costa lesionou-se e Vieira veio a despedir o treinador no início da época seguinte, algo do qual se arrependeria publicamente – e repetidamente. Já Rui Costa regressou em bom plano em 2007/08, com os pés no relvado e a cabeça naquilo que o levara a voltar a casa com um cheque em branco – a presidência do Benfica. O ‘Maestro’ pendurou as chuteiras, entrou para a direção desportiva do clube e trouxe Quique Flores, um técnico com o discurso e o look certos para um Benfica supostamente moderno. Vieira, fragilizado interna e externamente pelos maus resultados e pela incoerência na escolha dos treinadores, viu a sua escolha vetada – era Jorge Jesus, na altura, treinador do Belenenses. Depois, foi o que se viu: Quique era limitado e, sobretudo, não percebia o futebol português; o Benfica perdeu o embalo e Rui Costa o ascendente.

Então, Vieira agiu pelos seus próprios termos, ‘encostou’ Rui Costa, que tinha “ainda muito para aprender”, comprometeu-se com Jesus à revelia do Sporting de Braga e ganhou a sua aposta com uma superequipa onde já se notava o braço armado de Jorge Mendes. Aos poucos, Jorge Jesus pôs a equipa a atropelar os adversários, o estádio da Luz encheu, o clube fez bons encaixes financeiros com a ajuda de Mendes, e Domingos Soares de Oliveira começou a transformar o Benfica numa máquina mediática e influente – o fim da parceria com a Olivedesportos e a transmissão dos jogos estava a ser preparada nos bastidores.

Isto foi acontecendo aos solavancos e resistiu aos três anos em que o Benfica de Jesus veio a ser derrotado pelos FC Porto de Villas-Boas e de Vítor Pereira, forçando Vieira, fã de uma boa ‘suecada’, a jogar a cartada mais arriscada –manter J.J. após aquela Taça de Portugal perdida para o Vitória de... Rui Vitória. O presidente do Benfica continuou ao lado de Jesus, mas condicionou-lhe o raio de ação; o treinador sentiu-se isolado, disse a Vieira que queria Rui Costa perto dele, precisava de alguém com quem discutir futebol, e assim o ‘Maestro’ reassumiu funções de diretor desportivo. O grande salto em frente começava aqui.

O plano andava há anos nas mãos do triunvirato Vieira-Soares de Oliveira-Mendes, ao qual se tinham juntado o diretor de comunicação João Gabriel, ex-jornalista e antigo assessor de Jorge Sampaio, e Paulo Gonçalves, antigo assessor jurídico, vulgo advogado, do Boavista.

Os dois tornaram-se próximos. João Gabriel uniformizou o que se dizia publicamente, poliu as gafes de Luís Filipe Vieira e depois retirou-o dos holofotes, assumindo ele próprio as críticas aos rivais e à arbitragem, por exemplo, numa conferência de imprensa caricata e numa célebre entrevista a “A Bola”. Já Paulo Gonçalves foi a mola que fez o Benfica amigar-se de alguns clubes do Norte, o território de Pinto da Costa noutros tempos – é, dizem ao Expresso, o homem das sombras, um dos defensores do discurso agressivo e dos processos contra Jorge Jesus.

A rede de contactos esticou e diversificou-se, emprestaram-se jogadores e recomendaram-se treinadores a emblemas mais pequenos, ligações sempre úteis quando há decisões a tomar e votos a contar em assembleias da Liga. Por outro lado, houve a aproximação tática ao presidente da FPF, Fernando Gomes, que entretanto se desamigara do FC Porto, clube em que chegara a ser administrador financeiro. E, por fim, sistematizou-se a boa relação com a arbitragem e com os árbitros, e os vouchers são a prova, e pôs-se a circular a cartilha – o autor moral e o executante das duas práticas são a mesma pessoa, o consultor Carlos Janela. O lobby empresarial entranhou-se na Luz, a marca internacionalizou-se com a Fly Emirates, o Benfica somou dois títulos consecutivos, em 2013/14 e 2014/15, e toda a gente estava aparentemente contente. Só que não.

Apesar de tudo, Jorge Jesus era um obstáculo ao circuito Benfica-Jorge Mendes, porque não punha os miúdos da formação a jogar na equipa principal – J.J. chegou mesmo a ligar a Mendes exigindo-lhe que o deixassem em paz, que jogava quem ele queria e “mais nada”. Mendes tem um dos seus colaboradores com ‘assento’ permanente no centro de estágios do Seixal, o ex-futebolista Valdir Cardoso, cuja missão é convencer os melhores e os mais talentosos a assinar pela Gestifute. O caso de Gonçalo Guedes é paradigmático – o jovem era agenciado por Paulo Rodrigues e trocou-o por Jorge Mendes, que acabou por levá-lo para o PSG por 30 milhões de euros.

Outro exemplo: na foto oficial da assinatura de Renato Sanches com o Bayern de Munique estão Valdir Cardoso e Paulo Rendeiro, do escritório de advogados da Morais Leitão, o braço legal da Gestifute. Nas duas transferências, ganhou Mendes e ganhou o Benfica, porque, diz-se na Luz, no banco de suplentes já estava Rui Vitória. O treinador do Benfica que ficará provavelmente para a história como o ‘professor do tetra’ tem o perfil certo: é um motivador nato, não olha a nomes, não faz perguntas desnecessárias, trabalha com o que tem, não arranja desculpas e a coisa flui. E, isso, é aparentemente suficiente se a estrutura está cristalizada. E operacional.

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de maio de 2017