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Uma sessão de psicoterapia futebolística sobre o futuro da baliza do Benfica

Ederson foi vendido ao Manchester City, Júlio César está lesionado, Svilar, diz-se, está quase a assinar e André Moreira chegou a treinar, mas depois acabou no Sporting de Braga. Mas o Benfica, que andou no mercado de transferências nas últimas semanas à caça de guarda-redes, talvez tenha cometido o erro mais básico de todos: esqueceu-se de olhar para dentro. Em casa, há Varela, o internacional sub-21 português que pode estar prestes a ser 'promovido' por Fernando Santos

Fábio Monteiro

Júlio César, Bruno Varela e Paulo Lopes são as três opções do Benfica para a baliza

Carlos Rodrigues/Getty

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A psicoterapia tem vários objetivos, mas um dos mais consensuais, dentro da comunidade científica, é o de fazer inteligir ao paciente que há questões - ruminações que o bloqueiam - que não têm resposta ou cuja existência não faz sentido (tudo depende da situação em particular, do que exige, claro). O “problema”, não são poucas as vezes, é resolvido, dissolvido, quando o paciente percebe que nunca houve nada a que dar resposta.

Explicada a teoria, da forma mais sucinta possível, é necessário aplicá-la agora ao futebol e ao Benfica, que é isso que nos interessa.

Eis um pouco de psicoterapia futebolística: o Benfica vendeu Ederson, o guarda-redes principal da última época, ao Manchester City (pelo valor irrecusável de €40 milhões) e ficou com Júlio César - jogador histórico, mas já com idade avançada (37 anos) e incapaz de resguardar a baliza dos encarnados por uma época inteira - nesta pré-época, já se lesionou.

Estes foram os argumentos que levaram o Benfica a atacar o mercado de transferências à caça de um novo guarda-redes.

Falou-se de Bruno Varela durante a pré-época? Quase nada, apesar do jovem guarda-redes de 22 anos, formado no Benfica, ter sido recomprado, por €100 mil, ao Vitória de Setúbal, em julho. Foi como se não existisse.

Bruno Varela tem 21 anos e foi formado no Benfica, apesar de ter estado no Vitória de Setúbal na época 2016/17

Bruno Varela tem 21 anos e foi formado no Benfica, apesar de ter estado no Vitória de Setúbal na época 2016/17

FRANCISCO LEONG/GETTY

E assim começou a chuva de nomes e possíveis contratações. A dado momento, em julho, houve quatro nomes de guarda-redes a serem dados como reforços do Benfica na mesma semana: Mile Svilar, do Anderlecht, Tomás Vaclík, do Basileia, Rafael Cabral, do Nápoles, e Miguel Silva, do Vitória de Guimarães.

E, antes, houve um que acabou por entrar... e sair. André Moreira, proveniente do Atlético de Madrid, chegou a treinar no Seixal, mas a transferência acabou por ser abortada e o guardião de 21 anos foi emprestado pelos espanhóis ao Sporting de Braga.

Passado um mês, só de Svilar ainda se fala. Segundo o “Jogo” desta terça-feira, o jovem guarda-redes belga deve assinar ainda esta semana pelos encarnados; os valores do negócio ainda não são conhecidos. Mas se o Benfica procura experiência, não parece que seja o que vai encontrar no belga: Svilar tem 17 anos e é promissor, mas está muito longe de ter a maturidade necessária para assumir a baliza dos encarnados por uma época inteira. Ou seja, o problema da baliza encarnada poderá até ser amenizado com a chegada de Svilar, mas irá manter-se.

Para infortúnio e sorte do Benfica, Júlio César lesionou-se no jogo frente ao Arsenal (contraiu uma tendinopatia) e Rui Vitória, como já aconteceu muitas vezes nas últimas duas épocas, foi obrigado a ser criativo e a olhar para o que há dentro de casa. E aí, refém das circunstâncias, mandou jogar Bruno Varela.

O dissolver da questão

Agora podemos começar a dissolver a questão: desde que começou o campeonato, Bruno Varela, 22 anos, tem sido o rosto das águias frente à baliza. Em quatro jogos (incluindo a Supertaça), sofreu dois golos. Com experiência ao nível internacional pela seleção sub-21 e formado no clube, o jovem o guarda-redes tem convencido os adeptos de que tem “pedalada” para ser o substituto oficial de Ederson (mas, mesmo assim, a SAD encarnada quer ir às compras).

Varela ao serviço da seleção sub-21

Varela ao serviço da seleção sub-21

MACIEJ GILLERT/GETTY

Depois da vitória por 5-0 do Benfica ao Belenenses, Varela foi até ao Instagram lembrar que “vitórias destas alimentam a confiança da equipa”. Digamos, então, que a infelicidade de Júlio César lhe deu o espaço que precisava para se fazer notar e o problema de Rui Vitória resolveu-se por si próprio.

“Este cota Varela, com cara de miúdo e bigode à Eddie Murphy, chegou ao Benfica em 2005. Desde então tem evoluído muito, com excelentes treinadores de guarda-redes, com dedicação para ter a sua oportunidade. [Ela] apareceu e tem correspondido”, escreveu Bruno Lage, ex-treinador da formação do Benfica e atual adjunto de Carlos Carvalhal no Sheffield Wednesday, na sua página de Facebook, no final do encontro dos encarnados com o Belenenses.

Quando, na quinta-feira, às 12h, Fernando Santos revelar o nome dos convocados da seleção nacional para os próximos jogos de apuramento para o Mundial-2018, talvez haja uma surpresa na retaguarda, conta o “Jogo” esta terça-feira. Talvez conste lá o nome de Varela, que, segundo o desportivo, só não foi convocado para a Taça das Confederações porque estava ao serviço da seleção sub-21 no Europeu.

Se Varela é bom o suficiente para seleção, talvez seja o suficiente para a baliza dos encarnados. É possível que o Benfica já tenha percebido.

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