Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

Quando gostar da bola é meio caminho andado para travar o Benfica e dormir na frente do campeonato

O Benfica perdeu os primeiros pontos da época ao empatar 1-1 em Vila do Conde, frente a um Rio Ave que joga como os grandes, mesmo contra os grandes. Os vilacondenses repartem a liderança do campeonato com as águias, pelo menos até domingo à tarde

Lídia Paralta Gomes

HUGO DELGADO/LUSA

Partilhar

Chamem-me óbvia, discípula de Jacques de La Palice, mas parece-me que há mesmo muito mais probabilidades de não sofrer um golo quando se tem a bola no pé do que quando não se tem a bola no pé. Uma probabilidade assim de, sei lá, 100%. E, por incrível que pareça, a lógica serve tanto para os três grandes como para as restantes equipas do campeonato.

Serve isto para dizer que há equipas pequenas que jogam como equipas pequenas e há equipas pequenas que jogam como equipas grandes: o Rio Ave faz parte do último grupo. Se resulta sempre? Não, de facto. O Chaves, por exemplo, joga bom futebol e já leva três derrotas no campeonato, uma delas frente ao Benfica num jogo que fez em muito lembrar o que se viu esta noite no Estádio dos Arcos, principalmente na 1.ª parte. Uma 1.ª parte em que o Benfica foi dominado pelo futebol positivo do Rio Ave, o tal futebol de equipa grande que de alguma forma tem feito parte do ADN do Rio Ave nos últimos anos e que tem em Miguel Cardoso mais um seguidor.

Em Vila do Conde, a recusa do autocarro, do jogar 'para o pontinho', dos 10 atrás da linha da bola tem resultado: à 4.ª jornada, é uma das equipas que ainda não perdeu e, desta vez, fez o Benfica marcar passo.

Tal como em Chaves, o Benfica teve muitas dificuldades perante uma equipa que gosta de ter a bola, que não tem medo de assumir o jogo e avançar no terreno em ataque apoiado. E se em Trás-os-Montes o encarnados acabariam por aproveitar a falência física do adversário marcando nos últimos instantes do jogo, esta noite tiveram pela frente uma equipa mais preparada para a ofensiva final dos encarnados.

Um jogo que começou debaixo de um lusco-fusco violento e com um Benfica tão apagado como a noite que caía. Pizzi não apareceu e quando Pizzi não aparece, dificilmente há Benfica. E do outro lado, uma equipa ambiciosa, com Rúben Ribeiro e Francisco Geraldes a darem o mote para um jogo de ataque rápido, fluido, com pressão alta constante.

HUGO DELGADO/LUSA

A 1.ª parte pertenceu por completo ao Rio Ave, que nos primeiros 10 minutos já tinha 5 ataques e aos 20 já levava 4 remates. O Benfica tinha zero. O único momento de atrapalhação dos da casa apareceu exatamente a seguir aos 20 minutos, quando o guardião Cássio fez uma série de más intervenções - das quais se redimiria lá mais para o final do jogo - que o Benfica não aproveitou. Tal como não aproveitou Guedes as duas oportunidades que teve, uma aos 21’, quando sozinho não chegou por pouco a um cruzamento na esquerda e aos 33’ quando rematou muito por cima após receber uma bola da cabeça de Marcão.

Tal como em Chaves, o jogo mudou após o intervalo, mas com o Rio Ave a não deixar de lado a sua proposta de jogo. E perante um Benfica mais organizado e mais atacante, os da casa não ficaram na retranca, avançando para a área encarnada a cada oportunidade. Por esta altura, o jogo estava mais partido, mais equilibrado na qualidade, mais imprevisível.

E os golos, naturalmente, apareceram.

Marcaram primeiro os da casa, aos 61’, numa jogada em que Geraldes abriu na esquerda para Teles (sempre muito em jogo) na esquerda, que cruzou para a área, onde surgia Guedes. Varela atirou-se à bola, mas esta acabou por ressaltar em Lisandro, entrando na baliza encarnada. Azar para o argentino, mas não se pode dizer que o golo era injusto.

O Benfica marcaria apenas seis minutos depois: Jonas é puxado por Marcão na área e grande penalidade que o brasileiro, com a segurança e frieza do costume, não falhou.

A partir daqui o Rio Ave baixou os níveis físicos, começou a ter mais dificuldades, mas nunca recusou a procura do golo. E quem quer vencer expõe-se. Com mais espaço, o Benfica teve então até final algumas oportunidades, com Rafa e Seferovic a aparecerem sozinhos à frente de Cássio, mas com o brasileiro a manter a sua baliza fechada a sete chaves. A última oportunidade surgiria aos 88 minutos, com Jiménez, que deu a vitória ao Benfica nas duas últimas temporadas nos Arcos, a falhar por pouco uma terceira gracinha. Mais uma vez Cássio defendeu e foi mesmo com um empate que as duas equipas voltaram aos balneários, um empate que mantém o Rio Ave invicto e rouba os primeiros pontos ao Benfica esta temporada.

E também um empate que prova que, mesmo com orçamentos infinitamente mais baixos, com menos infraestruturas e menos atenção mediática, é possível ter uma ideia de jogo capaz de travar os grandes e dormir descansado nos primeiros lugares da tabela. E, pelo menos até domingo, o Rio Ave será líder, em igualdade pontual com a equipa que travou. Jogando futebol.

Fica a proposta.

Partilhar