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Oh, Jonas, o que te foram eles fazer

O Benfica arrancou bem, com um golaço do brasileiro. E depois? Depois, foi o filme do costume, uma equipa sem controlo estratégico, tático, físico e emocional para aguentar o embate contra um adversário que pôs mais gente no meio-campo para impedir Pizzi de ligar o jogo. Uma receita simples, mas que anda a fazer escola

Pedro Candeias

Gregório Cunha/Lusa

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Tratem-me por Jonas. Há alguns anos - não interessa quando, talvez mesmo há pouco - achando-me com o mesmo dinheiro na carteira o e o meu clube com menos, e sem qualquer interesse particular que me prendesse a esta terriola, apeteceu-me voltar a navegar e deixar o mundo das águias. Achei que era uma forma de afugentar o tédio e de normalizar a circulação de bola, que é, afinal, aquilo que nos pagam para fazer - e que nós já não fazemos assim tão bem.

É que aquilo que nos põem a fazer não é fácil, bem pelo contrário, imaginem o que é um jogo de dois contra quatro, o Pizzi e o Fejsa contra os matulões do Marítimo, uma defesa que defende mal, apesar da boa-vontade do Almeida e do Grimaldo, e dos meus patrícios Luisão e Jardel.

Mas disto tudo já vocês falaram todos, outros até escreveram, embora eu deva acrescentar, em jeito de desculpa esfarrapada, que esta noite jogámos sobre um relvado abatatado que não ajuda, e em cima de um contexto que ajuda menos e que se resume numa palavra que só posso pronunciar baixinho, porque o mister não gosta de a ouvir em voz alta: chama-se crise.

Acontece que a crise é isto.

É começar bem um jogo com um golo que eu podia classificar de golaço, não fosse eu modesto, e perceber que, ainda assim, está tudo na mesma, que a probabilidade de vir a correr mal é tão grande como o autor deste texto fazer uma piadinha lá para o fim do mesmo.

Porque o Pizzi está cansado e o Fejsa está sem ritmo, e porque todos os outros estão sem ideia, honra seja feita ao Salvio, que atacou, defendeu, correu, lutou, driblou, ou melhor, procurou driblar e falhou - mas tentou.

E eu? Bom, eu sou a exceção, e como todas as exceções tenho direito a um tratamento especial - neste caso, a uma equipa construída para mim, o que é bom quando estamos bem, e que é muito mau quando estamos como estamos agora. É que isto do 4x4x2 tem que se lhe diga, sobretudo quando não se tem bola, principalmente quando não se sabe o que fazer com ela.

Ora então, depois daquele golo - ou golaço, se me permitirem agora a imodéstia - não conseguimos pressionar quando eles iam a sair com bola, e isto até podia ser estratégico se não fosse mentira. Porque, se a memória não me trai, no ano passado marcávamos cedo, recuávamos todos juntinhos, partíamos em contra-ataque e fazíamos o segundo ou o terceiro. Diziam que éramos uma equipa prática, pragmática, cínica, pão-pão, queijo-queijo, e outras coisas deste género que valorizam o resultado sobre a estética, porque o plano resultava e foi assim que fomos tetracampeões. Com as correrias do Nelson Semedo. As coberturas do Lindelöf. E aquele pé esquerdo do Ederson.

Este ano não é bem assim.

Este ano, quando marcamos cedo, recuamos não porque o queiramos fazer, mas porque simplesmente não sabemos fazer mais do que isso. E isso vê-se, ou viu-se ainda há pouco no Funchal, quando os tipos do Marítimo nos apertaram no meio-campo, nos fizeram perder bolas atrás de bolas, nos impediram de construir jogadas com início-meio-fim, enfim, de jogar à bola como deve ser para um candidato que se quer penta.

E, nestas alturas, foi o Júlio César, vejam lá vocês, o velho Júlio César, o velho Júlio César com os problemas de costas dos pré-reformados que nos salvou até ao inevitável empate quando ficámos vulneráveis aos ataques do adversário.

Durante este tempo todo, dos largos minutos entre o meu primeiro golo ao golo deles, o mister lá andou, de um lado para o outro, a pedir calma e contenção, naquele jeito dele, a dirigir-nos como um maestro surdo numa banda filarmónica que desafina. Tirou um trompete e pôs outro trompete, um oboé por outro oboé, e sacou-me a mim, o primeiro violinista, para entrar um canivete suíço em processo acelerado de oxidação, e a fanfarra lá prosseguiu, com o mesmo ritmo e o mesmo som, mas com músicos piores.

No final, aposto que terá dito que desistir não faz parte do nosso dicionário, ou coisa que o valha, e que tudo é recuperável. Pensando bem, talvez o mister não seja um maestro, mas sim Muhammed Saeed al-Sahaf, aquele ministro da informação do Iraque que se recusava a admitir a derrota quando esta lhe estava a bater à porta com os resultados que sabemos.

E assim acaba o texto com a piadinha do autor.

* Esta crónica adapta o primeiro parágrafo de Moby Dick: "Tratem-me por Ismael (...)"