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El camí es fa caminant, não é verdade?

O Benfica ganhou (1-0) ao Feirense e isso foi o melhor que os encarnados conseguiram retirar deste jogo sensaborão: o resultado. Porque a exibição foi, a espaços, deprimente, tal como outras no passado recente em que a equipa marca primeiro para depois se ir abaixo, Mas, pronto, o que conta são os três pontos e o caminho continuará a fazer-se caminhando - ou el camí es fa caminant, como dizem na Catalunha, um lugar que também está metido no meio de uma confusão

Pedro Candeias

Rui Vitória parece indicar o caminho

M\303\201RIO CRUZ

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Das coisas verdadeiramente estranhas que têm acontecido de repente e todas ao mesmo tempo no Benfica - as múltiplas lesões, as vendas por atacado, as AG’s quentinhas ou as rusgas da PJ ao estádio e a um par de casas - nenhumas são tão bizarras como as intervenções públicas das gentes que lá têm responsabilidade.

A necessidade de vender para abater o passivo, por Luís Filipe Vieira. O dinheiro que afinal existe para reforços, por Domingos Soares de Oliveira. O reforço da necessidade de vender para reduzir a dívida, por Luís Filipe Vieira. A retenção dos craques durante mais tempo no plantel para conquistar a Champions, por Domingos Soares de Oliveira.

Se virem bem, são conceitos que não casam, porque vender é o contrário de comprar; e, bom, ter dinheiro é precisamente o contrário de não ter dinheiro. E isto leva-nos a Rui Vitória, claro está, que aos bocadinhos começa a assumir que algumas coisas não estããão assim tããão bem como ele as pinta nas conferência de imprensa - citando de cor, o treinador do Benfica admite que é preciso melhorar, mas sem urgência, calma lá, porque os jogadores dele são campeões e já estiveram em buracos como este anteriormente e deles saíram com brio, profissionalismo, e, claro, com 12 em 16 títulos.

Um retoque aqui (sai Pizzi e entra Filipe Augusto), outro acolá (sai Cervi/Zivkovic e entra Diogo Gonçalves), uma mudança estrutural (Svilar por Varela/Júlio César) e o caminho faz-se caminhando. A questão, parece-me, é que não é mudando jogador por jogador que o Benfica vai lá novamente, e nem a ausência de Fejsa serve de escape quando se procura explicar a quebra de forma da equipa, porque ele já lá anda e nada vai para melhor.

É como o tipo que tem os dentes cariados mas insiste em passar fita dentária e pôr branqueador e bochechar um elíxir antes de ir ao dentista: o problema está disfarçado, sim, mas o mal está lá - e mais tarde ou mais cedo o sofrimento virá.

E a exibição do Benfica desta noite, contra o Feirense, foi sofrível, como tantas outras desta época; aliás, igualzinha a tantas outras nesta época. Ou seja: começou bem, marcou um golo (por Jonas, às três tabelas, depois de um ressalto após um canto) e, depois, deixou de existir. Na primeira parte nunca conseguiu controlar o jogo, quanto mais dominá-lo, correu pouco e teve pouca intensidade, permitiu que o Feirense trocasse a bola como gente grande no seu meio-campo e só chegou ao intervalo à frente do marcador porque o adversário é manifestamente menos capaz.

Se o Feirense tivesse Jonas, o único jogador capaz de desequilibrar neste Benfica, é provável que a história fosse diferente. Mérito de Nuno Manta Santos, que põe os seus rapazes a jogar bom futebol, e com isto digo futebol personalizado e destemido na casa do clube que é factualmente favorito - e é tetracampeão nacional. E demérito de Rui Vitória, pelas razões que expusemos lá em cima.

Jonas marcou o 12.º golo neste campeonato e voltou a safar o Benfica

Jonas marcou o 12.º golo neste campeonato e voltou a safar o Benfica

M\303\201RIO CRUZ

Não é uma questão subjetiva nem semântica, mas objetiva: 5 contra 6, em perdas de bola; 59%-41% de posse bola; 3 contra 2 remates à baliza; e 15 contra 13 ataques. E isto foi a primeira-parte.

A segunda-parte mudou sensivelmente para melhor, sobretudo com a entrada de Pizzi - o homem pode não estar em forma e até anda a jogar pior, é verdade, mas isso não o impede de ser melhor do que a generalidade dos seus colegas a passar a bola e a… pensar.

Simplesmente, pensar.

A jogar à direita - ou na meia-direita, vá - Pizzi reequilibrou uma luta que é sempre desigual quando de um lado estão dois e do outro três, um mal necessário numa equipa que tem de jogar com dois avançados, porque um deles é Jonas. Só que - e correndo o risco de me tornar repetitivo - isto não chegou para que o Benfica se aproximasse sequer do pior Benfica de 2016-17, que era prático mas eficaz, defensivo mas taticamente seguro, contido mas emocionalmente estável. Pois então, o Benfica teve mais oportunidades para marcar e não as concretizou, e também não se livrou de alguns arrepios na espinha quando se viu exposto a ataques rápidos que o Feirense falhou.

Mas, pronto, a modos que o que interessa para já são os três pontinhos e estes ficaram na mão de Rui Vitória e do Benfica numa jornada em que os rivais (escrevo antes do fim do Rio Ave - Sporting e a 24h do Boavista - FC Porto) têm viagens teoricamente complicadas.

Se é mesmo verdade que as coisas se compõem sobre vitórias, então Vitória pode continuar a dizer que o caminho se faz caminhando e que depois logo se vê.

Se isto não for bem assim, a realidade ou um adversário mais robusto e perigoso tratarão de repôr a verdade.