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Um dia isto iria acontecer e hoje é o dia em que se cita Sun Tzu: “Para conheceres o inimigo, tens de te tornar no teu inimigo”

O Benfica surpreendeu ao entrar forte e decidido, subido no campo e a pressionar o Rio Ave, contrariando as últimas imagens que se tinha dele. Acontece que, provavelmente no seu melhor jogo da época, a equipa de Rui Vitória acabou derrotada (3-2) pelas circunstâncias: os erros próprios atrás e à frente (falhou um penátli), a eficácia adversaria e a lesão de Luisão. Mas, para a história, ficam o resultado e as consequências: antes do final do ano civil, o Benfica já está fora das competições UEFA e da Taça de Portugal

Pedro Candeias

JOSE COELHO

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Um dia isto iria acontecer, e hoje é o dia em que me ponho a citar Sun Tzu e a sua “Arte da Guerra”. Para os que não acompanham o futebol cá do burgo isto pode soar estranho, mas é para os outros que escrevo isto na certeza de já terem percebido onde quero chegar: a Rui Vitória e à sua adaptação livre ao clássico de Tzu que decidiu chamar “A Arte da Guerra Para os Treinadores [Top Books, 2014]”.

Ora, diz um dos pontos da obra original que “para conhecer o inimigo, tens de te tornar no teu inimigo”, uma frase a roçar a auto-ajuda mas que, pensando bem e deixando de parte os preconceitos, tem o seu niquinho de verdade.

Reparem nisto: “O adversário tem uma boa circulação de bola, bom jogo interior e sabe onde pressionar. Pode haver prolongamento ou penáltis e, por isso, há muitas variáveis a equacionar”.

Obviamente, Rui Vitória viu e previu tudo e bem na conferência de imprensa antes do Rio Ave-Benfica, e o que aconteceu foi que o Benfica começou com uma boa circulação de bola, um bom jogo interior, pressionou intensamente - e o encontro acabou mesmo por ir para prolongamento, mas já lá irei.

Porque antes tenho de escrever sobre o Benfica que se pôs a jogar o jogo de bola do Rio Ave, com a defesa subida e recuperações de bola e pressão constante e posse de bola (chegou a ter 63%); ou seja, um Benfica à Rio Ave com o bónus de ter jogadores do Benfica como Jonas e Fejsa e Krovinovic e Pizzi, mas sobretudo Jonas.

E isto acaba por ser surpreendente, porque a amostra de encontros anteriores apontava para o contra-ataque passivo-reativo e o que se viu nos primeiros 45 minutos foi precisamente o contrário. Na primeira-parte, aliás, o Benfica terá jogado o seu melhor futebol nesta época e o grande golo de Jonas, após uma boa combinação de Salvio e André Almeida, cristaliza esta teoria.

Para dar a volta ao resultado, o Rio Ave de Miguel Cardoso teria de tentar outras coisas, talvez variar o centro do jogo mais depressa do que o que andava a fazer, ou então enganar o meio-campo encarnado para dar mais espaço e tempo a Geraldes para pensar. Não foi isso que se viu, já que o Benfica continuou por cima, até que…

Até que Cervi perdeu uma bola que calhou parar nos pés de Geraldes que assistiu o defesa Lionn para o empate. E depois, quando o Benfica se voltou a recompor e André Almeida tentou a sorte, o sempre-vistoso Rúben Ribeiro sacou um golo mágico do seu arsenal e o marcador deu uma cambalhota.

Em quinze minutos, a coisa mudou de figura e é especialmente em momentos destes que um gajo deve citar Sun Tzu.

“Conhece-te a ti próprio e vencerás cem batalhas”. Não uma, nem duas, mas cem.

Bom, na perspectiva do Benfica, o processo de autoconhecimento não correu nem anda a correr mal, considerando o facto de estar a mudar de estratégia e de tática (4x4x2 para o 4x3x3) já com o carro em andamento.

E não, não venceu cem batalhas, mas venceu algumas nos instantes que se seguiram em que Luisão falhou um golo num canto, em que Jiménez entrou para o lugar de Pizzi e Zivkovic para o de Cervi, em que Jonas viu o seu penálti defendido por Cássio, e em que Luisão fez o 2-2 que levou tudo para o prolongamento. Houve, então, atitude da equipa e risco por parte do treinador que é, por hábito e por convicção, um tipo conservador.

E essa mesma atitude seria levada para o prolongamento em que Luisão não jogou por ter rasgado já Rui Vitória esgotara as substituições, deixando o Benfica privado do músculo que mais precisava: o seu cérebro.

Sem o xerife da defesa, com menos um jogador e com avançados a mais em campo, a equipa iria sofrer. E sofreu um golo de Guedes quando Seferovic, por exemplo, não subiu para o deixar fora de jogo.

Nesse segundo, ficou selado o resultado (3-2), apesar da insistência do Benfica, que foi inclusivamente mais perigoso e intenso do que o Rio Ave até ao apito final. E ao contrário do que muitas vezes acontece neste Benfica de Rui Vitória, a exibição foi muito melhor do que o resultado.

Mas, lá está, “todas as guerras estão baseadas no logro”, diria Sun Tzu, embora eu prefira a variante de Pimenta Machado, que dizia que o que hoje é verdade, amanhã seria mentira. O que ninguém desmente é o facto de o Benfica estar fora da Europa e fora da Taça, e o ano civil ainda não ter sequer dobrado.