Tribuna Expresso

Perfil

Benfica

De bola corrida não dá, com a bola parada muito menos

Ao intervalo, um Benfica nada poupado (jogaram Jonas, Pizzi, Kroninovic, Salvio e Zivkovic) vencia o Portimonense por dois golos, porque sem Europa e Taça da Portugal, a Taça da Liga avançou na lista de prioridades. Mas acabou por se deixar empatar com um livre e um canto em que todos ficaram a olhar para a bola. E, agora, há o risco de ficarem a olhar apenas para o campeonato

Diogo Pombo

MANUEL DE ALMEIDA

Partilhar

Vou ser sincero, porque não há outra forma de expor isto: nas últimas duas semanas estive fora e longe, de férias, e o que soube do Benfica contraria o estar a par a que a minha profissão obriga, para que vos possa escrever. Resumindo, não vi os anteriores cinco jogos da equipa de Rui Vitória, duas vitórias, um empate e um par de derrotas que a afundaram ainda mais na Europa, a tiraram da Taça de Portugal e a mantiveram viva no campeonato.

Antes de ir, os encarnados eram aborrecidos e sem ideias com a bola, erráticos e a abrir buracos sem ela, pouco intensos a fazerem tudo. Numa palavra, eram inconstantes. Mas uma goleada (1-5 ao Tondela) tem coisas boas e a melhor talvez seja a de massajar o ego dos jogadores que a conseguem. Puxa pela confiança, um bem precioso num desporto de equipa em que soma das partes apenas funciona se cada uma fizer bem o que lhe compete e tiver a certeza do que está a fazer.

E que jeito lhe dá que, em 15 dias, tipos como Krovinovic se tenham chegado à frente e que Rui Vitória o tenha deixado chegar, rendendo-se a duas evidências: de que a equipa estará mais perto de ser estável e coesa com três homens ao meio, num 4-3-3; e que os melhores jogadores, no fundo, têm de jogar sempre. É por isso que, com a bola, o Benfica tem 45 minutos a ser melhor do que o Portimonense numa Taça da Liga que, agora, lhe diz muito por já só ter o campeonato para dividir as atenções.

Porque a Jonas, o suposto inapto a jogar como avançado único, se juntou Zivkovic, o segundo jogador mais talentoso do Benfica, e a eles se acrescentou o croata “de qualidade, com um futuro brilhante, que acrescenta qualidade no último terço, que define bem, protege muito bem a bola, raramente a perde e é intenso o jogo todo” - citando Rui Vitória -, que desvia as atenções e subcarrega um antes sobrecarregado Pizzi. E tudo isto é facilitado quando, aos 51 segundos, Grimaldo cruza uma bola que Jonas transforma em golo, ou Lisandro Lopéz marca de cabeça (33’) num canto quando as coisas emperram de bola corrida.

Mesmo pouco velozes, mais previsíveis a cada jogada que tentavam, os encarnados aproximavam-se muito da área adversária porque boas mentes pensam em coisas boas, e estes jogadores fabricavam-nas. Mas, com o tempo, o Portimonense chegou-se à frente, pressionou na metade do campo do Benfica e, como tem sido apanágio esta época, os erros começaram a aparecer. Primeiro foi Lisandro a tentar um passe de trivela, lá atrás, intercetado para Tabata rematar às mãos de Svilar. Depois, Samaris perdeu uma bola que só o central argentino impediu, ao segundo poste, que chegasse a um encosto fácil.

Tremeliques que antecederam a bola que bateu na barra da baliza encarnada, pouco antes do intervalo, na recarga a um canto em que Svilar emendou o corte com que Lisandro pôs a bola na cabeça de Paulinho. A marcação à zona fez-se sem que um jogador do Benfica atacasse o espaço e a bola, uma inoperância que se repetiu assim que a segunda parte arrancou, quando Pires cabeceou sozinho, na área, a bola vinda de um livre, para fazer o 2-1.

O golo incentivou os algarvios a arriscarem e procurarem recuperar todas as bolas mais rápido, e mais à frente no campo. Encostaram-se aos encarnados e, mais intensos, chegaram muitos mais vezes à área do Benfica, aproveitando a desordem com que a equipa de Rui Vitória se defendia - os jogadores em linha ou a pressionarem isolados, demasiadas vezes a tapar as linhas em vez da hipótese de passe frontal. Wellington e Tabata tinham muita bola e só não houve mais estragos, lá está, porque é o Portimonense.

E o Benfica apenas se assemelhou a algo digno de Benfica quando Zivkovic e Samaris saírem e alguém que não os seus substitutos (Diogo Gonçalves e Keaton Parks) percebeu que, para variar, se tinha de chegar à frente. Jonas multiplicou domínios de bola colados ao pé, receções entre linhas e passes picados (64’ e 68’) por cima da defesa que Pizzi e o miúdo português não aproveitaram.

Entre uns assobios e aos solavancos, hábito esta época, parecia que o Benfica, mesmo sem controlar, ia acabar por ganhar outro jogo que não fora capaz de estabilizar. Só que, num dos raros cantos do Portimonense na segunda parte, toda a gente que vestia de encarnado voltou a ser estática, a não atacar a bola, a confiar que alguém ia lá chegar. Pires voltou a cabecear e Svilar, desta vez, parou o remate, só que desviou a bola para a frente, onde apareceu Jadson para empatar o jogo (84’).

E nada do que o Benfica fez até ao fim se pareceu a algo construtivo para dar a volta à coisa. Porque este Benfica, como o era há 15 dias e como tem sido, quase sempre, esta temporada, é parco em ideias, lento a concretizá-las, desorganizado a proteger-se sem a bola e demasiado dependente de tudo o que possa sair de Jonas. Agora, a jogar praticamente com a equipa mais forte, empatou contra o Portimonense que mudou metade da equipa habitual.

O que dá nisto: caso o Vitória de Setúbal vença o Sporting de Braga, o Benfica está fora da Taça da Liga. E fora de tudo menos do campeonato (em que está a três pontos da liderança) em dezembro.

Mas, como costuma dizer Rui Vitória, e como disse no final deste jogo, "a vida é mesmo assim".