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Antes de Krovinovic, com Krovinovic e, eis o problema, depois de Krovinovic

Houve um antes e depois no Benfica desde que Rui Vitória se rendeu ao croata e ao que ele joga: com o jogador que mais passes acerta no meio campo adversário e menos vezes perde a bola, no fundo, a equipa passou a jogar mais. O problema é que Krovinovic lesionou-se e não joga mais esta época, portanto, terá de haver um novo "depois". Mas podia ser pior e isto tem a ver com o brasileiro do costume

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues

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Lá estava o Benfica, perro e a emperrar, lento e a pouco conseguir acelerar, enfadonho e apenas com um ou dois jogadores a terem ideias, quando um homem se rendeu às evidências.

Da equipa, que perdia pontos no campeonato, só perdia jogos na Liga dos Campeões e não controlava partidas com a bola. E de um tipo, que mantinha, insistentemente, no banco de suplentes, com uma fita esquisita a segurar-lhe o cabelo e um olhar esbugalhado.

Ele, é verdade, também fora azarado no verão, quando uma hérnia o frenou durante cinco semanas e o fez perder o comboio da forma física e do ritmo. Estando intencionado, ou não, de colocar Filip Krovinovic na equipa, Rui Vitória foi esperando e assistindo e aguardando enquanto o Benfica fazia demasiadas coisas a custo e com processos deficientes - porque a posição dos jogadores na saída de bola, a forma como se orientam para a receber, a falta de apoios frontais e da vontade em usá-los não é uma questão de forma, mas de treino.

O Benfica fez 17 jogos antes de Krovinovic, ou Krovi, como o apelidaram mais aportuguesadamente, ser titular pela primeira vez no campeonato, a 5 de novembro, em Guimarães. E às nove vitórias, três empates e cinco derrotas que os encarnados tinham por essa altura, seguiu-se um 1-3 ao Vitória e a melhor exibição da época que, até então, estava a ser um pouco sofrível.

Não podia ser coincidência.

Nem o era, pois, daí para a frente, a equipa marcou mais golos e sofreu menos, uma conta fácil que advém do que os números refletem, mas apenas até certo ponto. Porque há que voltar às evidências a que Rui Vitória se teve de render. O treinador preferiu, de vez, o 4-3-3 em vez do dogma de que Jonas só era Jonas com um outro avançado ao lado, num sistema algo gasto e que aprisionava a equipa.

Antes e depois da primeira titularidade de Krovinovic na liga:

Sem o croata: 17 jogos, nove vitórias, três empates, cinco derrotas, 26 marcados e 12 sofridos.
Com ele em campo: 13 jogos, oito vitórias, quatro empates, uma derrota, 32 golos marcados e 10 sofridos.

O Benfica moldou-se para o croata ser um médio interior com mais queda para o lado esquerdo do campo, onde está o lateral mais rápido e com melhores pés (Grimaldo) e o extremo menos inconsequente (Cervi) nas coisas que faz.

Com Krovinovic sempre em campo - apenas não jogou 64 minutos na Taça da Liga, em Setúbal, e duas partidas da Liga dos Campeões, contra o Basileia e o CSKA de Moscovo, em que não estava inscrito -, os encarnados, por fim, estabilizaram.

Dispôs de mais uma opção na saída de bola, desde trás, que não demorou a tornar-se na melhor opção. Afinadas as trocas de posição e o vais-tu-ou-vou-eu com Fejsa e Pizzi, a equipa habituou-se a projetar mais os laterais no tempo que as receções orientadas do croatas, sempre a virar-se, a um toque, para o jogo, lhe davam. E nas muitas vezes em que ele, não tendo um passe para dar, guardava a bola e a protegia.

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Ter Krovinovic em campo fez a equipa acertar mais as agulhas com o croata e libertar umas quantas de Pizzi. Não abusando tanto do português, quiçá a ter a época mais inconsistente no Benfica, a equipa deixou-o avançar uns metros no campo e afastou da sua baliza o risco que o médio tem maior apetência para injetar nos passes que tenta fazer. O Benfica passou a refugiar a bola no croata como base para a equipa progredir em combinação de passes e futebol apoiado.

Com Pizzi mais solto e avançado, e com Krovi a ser o médio com mais tempo de bola, eles melhoraram muito. Em parte, porque o croata é quem mais passes acerta (86,6%) no meio campo adversário, neste campeonato, e quem menos bolas perder, por jogo (14,7% das que lhe chegam aos pés), dizem-nos os dados do site GoalPoint. E quem tem a bola mais tempo e mais longe da própria baliza estará sempre mais longe de sofrer golos, diz-nos a lapalissada mais ignorada do futebol.

Outra, é que os melhores jogadores devem jogar sempre, pois há sempre forma de eles se encaixarem ou de fazer com que os restantes se acomodem a eles.

O depois que corre o risco de ser um retrocesso

Por outras palavras, aproximar Pizzi e Krovinovic de Jonas alimentou a produção atacante do Benfica, à medida que estes três se habituaram a combinar uns com os outros, pela relva. Com o tempo, tudo foi girando à volta do que os três novos melhores amigos eram capazes de produzir, como se viu, por exemplo, no sábado, com o Desportivo de Chaves pela frente.

Um jogo que azarou, de novo, Filip Krovinovic. Uma malograda tentativa de controlar a bola fez o croata agarrar-se ao joelho, sair lesionado e, mais tarde, confirmar que não joga mais esta época. Ao antes e ao com Krovinovic terá de vir, portanto, um depois de Krovinovic.

Um pós que, necessariamente, terá de passar por Jonas. Ele pode estar a envelhecer, a ficar mais lento, a mexer-se menos ou a começar e acabar menos jogadas, como monopolizador de coisas boas que é. Mas continua a ser o melhor marcador (23 golos) do campeonato, quem mais vezes remata (4.6), por jogo, e o jogador do Benfica, resumindo, mais talentoso, desequilibrador e perigoso para os contrários.

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O depois de Krovinovic durará o que resta desta temporada e há várias formas de Rui Vitória encarar este mini-desastre: 1) manter os três médios e forçar o crescimento de João Carvalho; 2) pedir um presente de Natal atrasado a Luís Filipe Vieira e ir ao mercado buscar um jogador que possa ser tão influente como o croata; 3) voltar a dar a companhia de um avançado a Jonas.

A terceira hipótese é a que maiores probabilidades tem de o pós-Krovinovic ser um retrocesso ao pré-Krovinovic, porque poderá reanimar as lacunas e soluços que, com o croata, o Benfica colocou tem em coma nos últimos dois meses.

Mas, e a vida é mesmo assim, como já disse Rui Vitória, as coisas podiam ser bem piores - o Benfica podia ter perdido Jonas e, aí sim, as consequências só poderiam ser maiores. E pensar no que será o melhor para o avançado pode ser a melhor forma de arranjar uma solução para a vida depois de Filip Krovinovic.