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Esquerda, volver! Porque tudo o que há de bom vem desse lado

Cervi, Zivkovic e Grimaldo a coexistirem no lado esquerdo é, provavelmente, a melhor coisa que aconteceu ao Benfica nos últimos tempos. Foram eles que deram gás à vitória, por 4-0, sobre o Boavista e neles deviam estar a prioridades de Rui Vitória, porque sempre que tirou um de perto dos outros, a equipa emperrou

Diogo Pombo

MARIO CRUZ

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Há coisas complexas, ou de difícil explicação, que acabam por quase obrigar quem, supostamente, foi responsável por as inventar - ou fomentar - a nem se arriscar em tentar explicá-las. Ver dois ou vários jogadores a darem-se bem em campo e a basearam uma relação saudável em trocas de passes sem olhar, sucessivas, de costas ou a fazer-nos pensar que a telepatia existe e, depois, ouvir um treinador falar em “dinâmicas”.

O que é, parece-me, curto, preguiçoso e escasso se os tipos em causa forem Grimaldo, Zivkovic e Cervi.

Eles são canhotos, todos baixos em altura (nenhum sobe para lá dos 1,71m) e velozes nas pernas. O espanhol, o sérvio e o argentino, provavelmente, são quem melhor cruza uma bola de fora para dentro da área na equipa. Os três têm o instinto de driblar, dois mais pelos truques da corrida e da velocidade, o outro a confiar nos enganos e engodos das simulações. Mesmo que bons passadores, nenhum é particularmente exímio na arte de passar uma bola rasteira e, por isso, educaram-se a viver com ela no pé e a serem rápidos a fazerem-lhes coisas.

Tê-los, aos três, do mesmo lado do campo, ao mesmo tempo, a insistirem em tabelas, em correrem pelas costas dos outros, em passes de primeira e em trocas de posições, é das melhores coisas que poderia ter acontecido ao Benfica. Porque eles, sendo tão parecidos na fisionomia, no estilo de futebolista e na forma de atacar uma baliza, tornam-se no motor de todas as jogadas de ataque contra o Boavista - e, para mal dos axadrezados, não há uma que seja igual a alguma que já tenha acontecido.

É de Zivkovic o primeiro remate do jogo, é Grimaldo que lhe faz o passe após recuperar a bola, é Cervi que tira os dois ou três cruzamentos perigosos que primeiro se vêem no jogo. São eles que aceleram o jogo encarnado e para eles que olha a equipa quando se tem que aproximar da área adversária.

E, com o tempo, é o estilo urgente e tardio de Cervi em driblar, mesmo ao último momento possível para tocar a bola para lá do corpo de quem lha tenta roubar, que ganha um penálti. Jonas falha-o (pela segunda vez em sete tentativas esta época), ao quarto de hora, mas o ímpeto prossegue e também é Cervi que continua a marcar os muitos cantos que o Benfica vai tendo. O plano, mesmo que o Boavista seja apático para percebê-lo é sempre o mesmo: apontar a mira para a cabeça do central mais alto e agressivo a saltar a uma bola.

É Jardel, que primeiro assiste Rúben Dias para o jovem central fazer o 1-0 e, depois, faz ele próprio o 2-0, pouco antes do intervalo. Foram sete cantos iguais, sempre marcados por Cervi, dois a darem golo, todos provocados por algo que saíra dos pés e ideias dos três estarolas a viver no lado bom do Benfica.

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A facilidade, e naturalidade, com que o argentino trocava de posições com Zivkovic e Grimaldo, em fase de ataque - um a atacar o espaço com uma desmarcação, outro de frente para o jogo, no apoio, o restante a dar opção de passe perto, era quase sempre assim -, fazia os encarnados evadirem a pressão média do Boavista e a eficácia com que fechavam os espaços ao centro do campo. Era como flanquear o inimigo, que nem um remate fez na primeira parte, sempre pelo mesmo flanco.

Esse flanco, contudo, alterou-se durante os primeiros dez minutos jogados após o intervalo, em que Rui Vitória puxou um Rafa em órbita para a esquerda e a equipa, claro, emperrou. E, nesse período, até aos extremos se devolverem aos lugares, o Boavista cresceu já sem Kuca e Rui Pedro, mas com Renato Santos e Mateus e Yusupha, o atacante mais explosivo, ao centro. Teve homens com maior queda para terem a bola, ganhou tempo na metade do campo encarnada.

E o Boavista atirou-se para a frente, deu-se ao risco, adiantou a linha da defesa e pressionou uns metros à frente. Tornou-se perigoso na ousadia de Jardel fintar na defesa e Yusupha quase assistir Mateus; no remate que, depois, o angolano disparou à entrada da área, no seguimento de um roubo de bola uns metros atrás; na forma atabalhoada e imprudente como, num canto, Bruno Varela se saiu à bola em que não acertou e deixou aos pés de Henrique, que não a rematou por perder a noção onde ela estava.

Os de xadrez pareciam começar um jogo novo, taco-a-taco com o Benfica, que prosseguiu a sua existência baseada em repelões pela teimosia de Rui Vitória em, mesmo devolvendo Cervi à esquerda, experimentar Zivkovic a interior direito - como se uma qualquer lógica eremita dissesse que, aproximando Rafa e Pizzi, que estavam a jogar pouco, do lado bom da equipa, eles passassem a jogar muito.

Não, o jogo deles continuou a ser pobre, errático e aos soluções e isso propagou-se à equipa nos momentos em que os três estarolas à esquerda eram separados.

Mas, num dos intervalos em que se reencontraram, saiu um cruzamento desse lado que, provavelmente, iria ter com o pé de Jonas, não fosse Talocha cortar a bola, em esforço, contra Nuno Henriques, para o central do Boavista fazer um inadvertido e caricato auto-golo. E ao 3-0 seguiu-se o 4-0 de Raúl Jiménez num dos poucos cruzamentos que partiram da direita cuidada por André Almeida, a minutos de o árbitro apitar pela última vez.

O Benfica prosperou na primeira parte porque deixou a tração à esquerda fluir, sem interrupções, para soluçar na segunda quando achou que, mexendo as peças, essa dinâmica - como aposto que Rui Vitória dirá - se manteria a funcionar.

Caso a ideia seja fazer dos encarnados a equipa estável e ordeira com bola, com tempo para estar organizada para quando ficar sem ela, e vertiginosa no ataque, como o foi durante os felizes tempos que passou com Krovinovic, o mais aconselhável será manter a aposta em Zivkovic. E, mais importante ainda, aguentá-lo perto de Grimaldo e Cervi e fazer com que a equipa se volva, sempre, à esquerda.