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Jonas pegou nas instruções e desmontou a mobília do Paços

O Benfica esteve mais de 60 minutos em desvantagem frente ao Paços de Ferreira mas nos últimos 20 deu a volta, vencendo por 3-1. O obreiro-mor: Jonas, quem mais? O brasileiro marcou dois golos e não permitiu que os encarnados se afastassem da luta pelo título, perante uma equipa da casa que na 1.ª parte surpreendeu os campeões nacionais

Lídia Paralta Gomes

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

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Há coisas neste mundo que moem a paciência até a um santo. O fisco, por exemplo. Conduzir na rotunda do Marquês. Ou, a pior de todas, na minha modesta opinião: lidar com as instruções de montagem que vêm com os móveis do IKEA.

Porque quem nunca se exasperou, quem nunca suou, quem nunca tentou duas ou três vezes até conseguir montar uma estante ou um armário com nomes extremamente nórdicos para depois reparar que ainda tem sete parafusos na mão não é humano, simplesmente.

Exasperou-se e suou muito também o Benfica este sábado. Mas no futebol, muitas vezes, o problemas nem é juntar as peças. Muitas vezes, o problema é mesmo desmontar o móvel.

É claro que tudo fica menos complicado quando se tem Jonas. Nesta metáfora fácil e previsível, porque estamos a falar de Paços de Ferreira, a nossa capital do móvel, Jonas é o homem que, no final, desaparufusa tudo, arruma as tábuas peça por peça e ainda mete tudo na caixinha.

Ou seja, é o homem que resolve, é o homem que descomplica, é o homem que vira um jogo que, em certos momentos, parecia feito para o Benfica perder pontos.

Foram mais de 60 minutos em desvantagem até Jonas fazer os golos 26 e 27 no campeonato, numa 2.ª parte que premiou um Benfica intenso, ainda que nem sempre com ideias. Mas com um avançado que está quase sempre inspirado.

A vitória por 3-1 (Rafa haveria de fechar as contas já nos descontos) permite ao Benfica não deixar fugir ainda mais o FC Porto e, para já, colocar pressão no Sporting, que só joga na 2.ª feira.

Tudo isto num jogo que começou bem animado, com a bola a namorar as duas balizas. Mas aos poucos o Paços passou a ser a equipa com mais foco, mais intenção. Rápidos e efetivos nas transições, os jogadores da casa surpreenderam os do Benfica, que não estariam seguramente à espera de aos 9 minutos já estarem a perder.

Mas assim foi. O lance é quase todo de Xavier: foi ele que viu as dificuldades de Grimaldo, foi ele que adivinhou como tirar a bola ao espanhol quando o lateral tentava sair a jogar. Já dono da bola e num arranque fortíssimo, o extremo do Paços correu a linha, Grimaldo não recuperou nem, em último caso, fez falta e ao cruzamento seguiu-se uma finalização de qualidade de Luiz Phellype ao primeiro poste.

O golo não travou a ambição do Paços que tinha a estratégia bem definida: pressão à saída do Benfica, ataques rápidos, boa transição entre linhas. E durante boa parte do primeiro tempo resultou. À meia-hora, Luiz Phellype esteve perto de bisar após uma dessas jogadas rápidas - saiu-lhe mal o remate à meia-volta, ele que, uns minutos mais tarde, chegaria também atrasado a um cruzamento de Ruben Micael, depois do antigo internacional português trocar as voltas a uma defesa do Benfica um pouco atarantada.

MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA

Até aos últimos 10 minutos da 1.ª parte, o Benfica limitou-se a existir. A partir daí, foi em busca do prejuízo. Jonas teve na cabeça o empate aos 41’, mas Miguel Vieira cortou uma bola que já se dirigia para a baliza. Na sequência, Rafa também quase marcava. E ainda antes do intervalo, André Almeida e Pizzi criaram perigo para a baliza de Defendi.

A reação do Benfica continuou em força na 2.ª parte. Muito rapidamente o Paços abdicou do ataque e a quebra física só deixou uma opção: defender e com coração. Durante largos minutos o esforço da equipa da casa foi suficiente, na medida em que o Benfica atacava muito, mas não exatamente bem. Porque ser intenso pouco vale quando as ideias não são lúcidas.

Com o jogo direto a não resultar, o golo do Benfica acabou por ter origem num erro de Assis na saída para o ataque. Rafa recuperou a bola e cruzou-a para Raúl Jiménez. O remate do mexicano saiu enrolado, mas estava lá Jonas, quase sempre clarividente, quase sempre o homem que surge quando as ideias não são brilhantes, para dar destino de golo ao lance.

Estávamos então no minuto 72 e a resistência do Paços parecia mais ou menos condenada. Ainda assim, o golo da reviravolta só surgiu a dois minutos dos 90’, numa jogada em que o futebol direto finalmente resultou: Rúben Dias lançou longo, Raúl controlou, a bola ficou para Seferovic que abriu para a área onde Jonas, rato, apareceu ao primeiro poste, ganhando a frente a Miguel Vieira.

Matreiro e eficaz, Jonas foi mais uma vez quem resolveu, antes de Rafa fechar o resultado em 3-1, numa vitória muito festejada pelos jogadores e banco do Benfica, conscientes de que uma derrota no antigo estádio da Mata Real podia muito bem significar um adeus ao título.

Não aconteceu, porque Jonas desmontou a mobília, e por mobília leia-se estratégia, que o Paços tão bem tinha montado na 1.ª parte.