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Como um telefonema anónimo deu pistas para a PJ chegar até ao assessor jurídico do Benfica

O técnico de informática detido juntamente com Paulo Gonçalves poderá ser a misteriosa toupeira denunciada há quase seis meses por um informador da Judiciária

Hugo Franco, Pedro Candeias e Rui Gustavo

Laurence Griffiths/Getty

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Há precisamente 173 dias, um telefonema anónimo fez soar o alarme entre a equipa da Polícia Judiciária que investiga há alguns meses as várias suspeitas que envolvem o Benfica. As informações transmitidas a Pedro Fonseca, um dos principais investigadores da unidade anticorrupção da Polícia Judiciária (PJ), fez espoletar uma investigação autónoma ao caso dos emails denominada de 'e-toupeira', que culminou esta terça-feira com as detenções de Paulo Gonçalves, assessor jurídico da SAD dos encarnados, e de José Silva, técnico de informática do Instituto de Gestão Financeira e Equipamento da Justiça.

Outros dois funcionários judiciais e o agente desportivo Óscar Cruz foram constituídos arguidos no processo.

Do outro lado da linha, a pessoa que não se quis identificar alertou que o Benfica tinha um “canal privilegiado no Campus da Justiça”. Essa suposta toupeira dos encarnados teria passado ilegalmente diversas peças processuais do inquérito em curso na 9ª secção do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa a “responsáveis daquele clube”.

A mesma fonte anónima revelou durante a conversa ter “indicações precisas e uma descrição pormenorizada” do conteúdo de vários documentos confidenciais. Todos eles relacionados com a caso dos e-mails, uma investigação da PJ sobre uma alegada rede de influência dos encarnados junto de figuras da Liga de Clubes e da arbitragem, denunciada pelo diretor de comunicação do FC Porto, Francisco J. Marques.

E que tinha já dado origem a duas buscas nas instalações do Benfica — uma a 17 de outubro (um mês depois desta denúncia anónima) e outra a 30 de janeiro, realizada no departamento da contabilidade do clube e que decorreu em simultâneo com as da 'Operação Lex', que fez 13 arguidos, entre eles o presidente Luís Filipe Vieira e o seu vice Fernando Tavares.

O caso dos e-mails fez também um arguido: Paulo Gonçalves.

Sociedade de advogados ajudou Benfica

O informador que telefonou a 27 de setembro para a Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) da PJ garantiu ainda que os documentos do DIAP de Lisboa teriam sido passados à socapa “a uma ou mais sociedades de advogados” que costumam prestar serviços jurídicos ao clube da Luz.

À conta deste “canal privilegiado” e “avençado”, as águias acompanhariam “a par e passo, desde o início, a investigação em causa, tendo conhecimento privilegiado sobre a tramitação processual do inquérito”. Por outras palavras, “sabem tudo sobre o processo”, concluiu.

Depois de desligar o telefone, Pedro Fonseca transmitiu todos aqueles dados à diretora do DIAP de Lisboa, Fernanda Pego, e à procuradora titular do caso dos e-mails, Andreia Marques. E dois dias depois, o investigador redigiu à diretora da UNCC, Saudade Nunes, uma “informação de serviço”, que acabou por ser publicada mais tarde num blogue que tem seguido a investigação policial ao clube da Luz.

O coordenador da PJ revelou à superior hierárquica os factos relatados pela fonte anónima, que no seu entender “teve claramente acesso ao acervo de documentos em causa”.

Fonseca concluiu que os factos relatados eram “graves”, sendo suscetíveis de dar origem à prática de crimes, principalmente se tiverem sido cometidos “no exercício de funções públicas” e “no interior de órgão de soberania”, o que em si mesmos, “potenciaram fortemente a destruição da viabilidade investigatória” no caso dos e-mails.

Já nessa altura considerou estarem em causa possíveis crimes de violação de segredo de justiça, violação de segredo por funcionário e corrupção passiva para ato ilícito. Crimes de que agora foram indiciados Paulo Gonçalves e José Silva. Este técnico de informática poderá ser a misteriosa toupeira de que falava o denunciante da Judiciária.