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E-toupeira. Bilhetes para jogos na Luz e camisolas terão aliciado funcionários judiciais

A Polícia Judiciária suspeita que Paulo Gonçalves, assessor jurídico do Benfica que foi detido esta terça-feira, tenha subornado funcionários judiciais com merchandising do clube. O empresário Óscar Cruz, filho de um antigo vice-presidente do FC Porto também chamado Óscar Cruz, terá funcionado como intermediário de Paulo Gonçalves nestes alegados casos de corrupção

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Os três funcionários judiciais investigados na operação 'e-toupeira' terão recebido bilhetes para os jogos do Benfica no estádio da Luz e diverso tipo de merchandising, como camisolas dos atletas. Seria esta a forma de pagamento realizado por Paulo Gonçalves, assessor jurídico do clube e uma das figuras influentes na atual direção do Benfica, que foi detido esta terça-feira pela PJ.

Em troca, os funcionários de Justiça, um deles um técnico informático do Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça que também foi detido no âmbito desta operação, entrariam no Citius, sistema informático da Justiça, para acederem a informações confidenciais, nomeadamente a investigações da Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) da PJ que se têm realizado nos últimos meses e que envolvem o clube encarnado.

Uma informação avançada pelo "Correio da Manhã" e confirmada pelo Expresso junto de fonte da investigação.

Em relação à identidade do empresário de futebol que é arguido no caso trata-se de Óscar Cruz, de acordo com o "CM" e com a SIC Notícias.

Quem é Óscar Cruz?

Segundo o Expresso apurou, Óscar Cruz é filho de um antigo vice-presidente do FC Porto também ele de nome Óscar Cruz, em tempos responsável por obras de rebaixamento no antigo estádio das Antas. Óscar Cruz, filho, conhecido como 'Oscarzinho', é compadre e amigo de longa data de Paulo Gonçalves e de Alexandre Pinto da Costa, filho de Jorge Nuno Pinto da Costa.

O filho do antigo vice-presidente do FC Porto com o pelouro das obras e instalações durante 14 anos, Óscar Cruz, que abandonou o clube incompatibilizado com Pinto da Costa em meados dos anos 90 por se opor à construção da Torre das Antas, foi sócio de Alexandre e Pedro Pinho no arranque da sociedade Energy Soccer.

Segundo fonte próxima de empresário hoje apanhado na operação e-toupeira, Óscar terá deixado a sociedade de intermediação de jogadores pouco depois da sua constituição, empresa da qual Alexandre também passou a sua quota de 60% em janeiro de 2017. "Cada um seguiu o seu caminho e hoje nem se falam", refere a mesma fonte.

Óscar filho estará ligado à True Soccer, empresa de jogadores, com escritório na Maia. Segundo o Transfermarket, o empresário de futebol representa sete jogadores, dois a jogar na terceira divisão turca e os outros nas jogadores inferiores da Alemanha.

Alegadamente, 'Oscarzinho' terá funcionado como intermediário entre Paulo Gonçalves e os três funcionários de Justiça.

Ao total, foram detidas duas pessoas na denominada operação 'e-toupeira' pela prática dos crimes de corrupção ativa e passiva, acesso ilegítimo, violação de segredo de justiça, falsidade informática e favorecimento pessoal.

De acordo com a PJ, na investigação, iniciada há quase meio ano, averigua-se o acesso ilegítimo a informação relativa a processos que correm termos nos tribunais ou Departamentos do Ministério Público a troco de eventuais contrapartidas ilícitas a funcionários.

Uma fonte da PJ revelou que os funcionários judiciais terão ligações a um instituto que gere os meios da Justiça.

A operação envolveu cerca de 50 elementos da Polícia Judiciária, um juiz de instrução criminal e dois magistrados do Ministério Público. Foram realizadas trinta buscas nas áreas do Porto, Fafe, Guimarães, Santarém e Lisboa que "levaram à apreensão de relevantes elementos probatórios", diz a PJ em comunicado.

A operação está a ser realizada pela Unidade Nacional Contra a Corrupção (UNCC) da Judiciária, que tem em mãos este e outros dossiers relacionados com o Benfica. Estarão a ser realizadas buscas no escritório de Paulo Gonçalves na SAD da Luz.

A investigação ainda não está fechada e de acordo com a PJ "prossegue com vista à continuação de recolha de prova e ao apuramento dos benefícios ilegítimos obtidos".

Paulo Gonçalves e o técnico informático vão ser sujeitos ao primeiro interrogatório judicial, que segundo a "Sábado" deverá ser realizado esta quarta-feira. Ainda de acordo com a revista, um sobrinho do técnico de Justiça conseguiu um emprego no Museu Cosme Damião, do Benfica, e a PJ suspeita que esta tenha sido uma das contrapartidas pela informação passada ao clube. Mas o Benfica já desmentiu esta informação.

Em comunicado, o Benfica "confirma a realização de buscas às suas instalações no âmbito de um processo de investigação sobre eventual violação do segredo de justiça e reitera a sua total disponibilidade em colaborar com as autoridades no integral apuramento da verdade".

O clube garante que pedirá "com caráter de urgência uma audiência à Senhora Procuradora-Geral da República pelas reiteradas e constantes violações do segredo de justiça, sobre os processos que envolvem o clube".

[atualizado às 17h35]