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Paulo Gonçalves, o advogado que saiu da sombra via e-mails

Quem é o assessor jurídico do Benfica de que tanto se fala neste caso dos e-mails e que acaba de ser detido pela Polícia Judiciária? E que papel desempenhou ele no FC Porto e no Boavista?

Isabel Paulo

Luís Filipe Vieira e Paulo Gonçalves, presidente e assessor jurídico do Benfica, têm sido visados pela justiça

JOSÉ COELHO / LUSA

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Até agora, Paulo Gonçalves sempre conseguiu o que queria: passar despercebido e sem fazer-se notar num cargo que é público. É notável. Mas tudo o que tem acontecido recentemente pôs o seu nome nos jornais e no circo mediático, que “sempre abominou”, por causa da vaga de e-mails que o tem exposto ao público.

Pela calada, trocou correspondência eletrónica com ex-árbitros e delegados da Liga que, a provar-se, poderá indiciar uma teia de alegados favores em prol do Benfica, suscetível de configurar tráfico de influência e coação nos sempre perigosos meandros da arbitragem.

Perante o ruído de fundo que o coloca no olho do furação do escândalo do ‘Benficagate’, ou ‘Apito Vermelho’ para aqueles que nunca esqueceram nem perdoaram o célebre ‘Apito Dourado’, Paulo Gonçalves esquivou-se para o terreno em que se sente mais confortável: os bastidores e a sombra dos gabinetes jurídicos.

Natural do Porto, filho de uma família sportinguista, Paulo Gonçalves, 49 anos, entrou nos corredores da bola, segundo um ex-dirigente portista, após cursar direito na Universidade Católica do Porto e estagiar no escritório de Adelino Caldeira, antigo advogado da Olivedesportos e responsável pela área jurídica do FC Porto desde os anos 90 — lugar a que acedeu poucos anos depois de ter integrado a candidatura de oposição a Pinto da Costa, na lista de Martins Soares, em 1989.

Um "portista ferrenho" no FCP

A escolha do jovem advogado, “portista ferrenho, bom aluno e profissional empenhado”, foi ainda apadrinhada por Alexandre Pinto da Costa, “de quem era muito próximo”. Discreto, ao longo dos cinco anos de iniciação nas Antas manteve-se um ilustre desconhecido, embrenhado entre papéis e contratos de transferências, até em 1997 ser chamado a participar na criação da SAD azul e branca, nos primórdios da profissionalização dos clubes.

A promissora passagem pelas Antas acabou por ter um fim abrupto, comentando-se à boca pequena que Adelino Caldeira terá mesmo partido para o confronto físico quando Paulo Gonçalves saiu em defesa de Alexandre, “com quem Adelino nunca foi à missa”, no auge da zanga do primogénito de Pinto da Costa com o pai, no final da época do tetra portista.

A gota de água da discórdia, latente por razões familiares, foi a transferência de Sérgio Conceição para a Lazio, que precipitou a queda da Superfute do antigo agente FIFA José Veiga, sócio de Alexandre. No defeso de 1998, Pinto da Costa trocou as voltas a Veiga, colocando a transferência e a comissão da venda do agora treinador portista nas mãos do agente rival Luciano D’Onofrio, tendo a Superfute retaliado com o negócio de Zahovic, feito à revelia do FC Porto.

A mudança para o Boavista

Dispensado no calor da refrega, Paulo Gonçalves deu o salto para o vizinho Boavista em 1999, como prestador de serviços, primeiro no dossiê de organização da estreia dos axadrezados na alta-roda da Champions. Foi contratado pela experiência acumulada na organização dos jogos europeus dos ‘dragões’ e na empresa TEAM da UEFA, no período em que esteve ‘sem clube’.

“Era uma área nova e não abundavam juristas com experiência nessas matérias”, recorda um antigo diretor do clube do Bessa. Sempre reservado, “era uma formiguinha de trabalho que nunca mostrou apreço pela fama”, acrescenta ainda um ex-dirigente boavisteiro. Chamado por João Loureiro no ano 2000 para formar a SAD dos futuros campeões nacionais, Paulo Gonçalves acabou por assumir o cargo de diretor-geral da nova estrutura do futebol, “altura em que começa a contactar mais diretamente com dirigentes de clubes e a ganhar influências nos meandros do futebol”.

Os relatos cruzados de quem com ele privava na altura são desde então desencontrados: há quem jure que nunca lidou com árbitros, mas também quem afiance que já na altura mantinha ligações subterrâneas com agentes ligados à arbitragem da Liga, presidida por Valentim Loureiro, até ser suspenso de funções em 2004, no dealbar do ‘Apito Dourado’.

Ia para a Liga mas acabou na Luz

O domínio da regulamentação desportiva e o brio profissional colocaram-no na mira de Hermínio Loureiro em 2006, sucessor de Valentim na Liga de Clubes, que o convida para diretor-executivo, apadrinhado por Luís Filipe Vieira e um conjunto de clubes alinhados com o Benfica. Vetado pelo então poderoso FC Porto, o ex-autarca de Oliveira de Azeméis e atual vice-presidente da FPF — indiciado segunda-feira de nove crimes (corrupção, prevaricação e tráfico de influências) —, deixa cair o promitente Paulo Gonçalves, que nesse mesmo ano sai do Bessa para ingressar como assessor jurídico do Benfica, em janeiro de 2007.

O advogado que há um mês viu os seus e-mails postos ao sol por Francisco J. Marques, diretor de comunicação do FC Porto, terá chegado à Luz com o beneplácito de José Veiga, que em novembro de 2006 abandonara o cargo de diretor do futebol da Luz para não beliscar a imagem do clube no turbilhão do arresto de bens ordenado pelo Tribunal de Cascais, na sequência de uma providência cautelar de 2,5 milhões de euros interposta pelo Dexia Banque Internationale Luxembourg.

Aos poucos, Gonçalves ganha a confiança de Luís Filipe Vieira até se tornar o seu braço direito, saindo do casulo para as páginas dos jornais em 2008, quando com o advogado João Correia representou o Benfica na Comissão de Apelo da UEFA na queixa apresentada pelos encarnados de exclusão do FCP da Liga dos Campeões, após a Comissão Disciplinar da Liga, liderada por Ricardo Costa — que viria a ser professor de Paulo Gonçalves num mestrado em Direito Desportivo, na Universidade de Coimbra — ter retirado seis pontos aos campeões nacionais e castigado Pinto da Costa com dois anos de suspensão.

O processo foi posteriormente anulado. Na batalha jurídica na Suíça, ganhou o FC Porto o braço de ferro travado entre Gonçalves e o seu velho conhecido e mal-amado Adelino Caldeira. Em 2010, o homem do aparelho do Benfica voltou a trocar o recato dos gabinetes pela penumbra do túnel da Luz, zona onde, garantiu em tribunal, ter testemunhado as agressões de Hulk e Sapunaru a um steward da casa.

Já em 2017, o homem que prezava a sombra voltou a ser notícia pela presença, no dérbi de abril, no túnel de acesso aos balneários do Estádio de Alvalade, incursão punida com multa ao Benfica.

A influência de Paulo Gonçalves na estrutura do Benfica tem vindo a ganhar dimensão, sendo há quase uma década o ponta de lança de Vieira nas assembleias gerais da Liga, o parlamento dos clubes onde mediante um jogo de compromissos e medição de forças se gizam e aprovam as regras da competição.

A última vitória do avançado do presidente foi o chumbo por voto secreto da esmagadora maioria dos dirigentes à proposta do FCP de interdição de estádios aos clubes que mantêm claques ilegais, casos dos No Name Boys e Diabos Vermelhos.

Apesar do crescendo de influência na Luz, fontes próximas de Paulo Gonçalves, que preferem o anonimato ao envolvimento no novo escândalo do futebol português, confessam-se surpreendidas pelo teor dos alegados e-mails trocados com Adão Mendes e Nuno Cabral.

Texto originalmente publicado na edição de 1 de junho de 2017 do Expresso