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Um penta a afogar-se entre a tempestade perfeita

Entre o descalabro da defesa e o desacerto do ataque, entre um rival que sabe tudo sobre um bom contra-ataque e um guarda-redes em estado de graça, o Benfica ruiu, como um frágil castelo de cartas. A derrota por 3-2 frente ao Tondela deixa tudo muito mais difícil para os encarnados, a quem resta rezar pela desgraça dos rivais

Lídia Paralta Gomes

Gualter Fatia/Getty

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Até este sábado, este chuvoso sábado, nenhuma equipa tinha conseguido marcar mais que um golo na Luz neste campeonato. Até que chegou o Tondela e marcou três. Marcou três e o sonho do penta ficou mais difícil de apanhar, num jogo em que se formou uma daquelas tempestades perfeitas nas quais muito dificilmente se sai ileso: o Benfica desabou na defesa, desperdiçou no ataque e ainda teve pela frente um muro chamado Cláudio Ramos.

Sem Jardel e Fejsa atrás e Jonas lá à frente, a formação da tempestade só se precipitou e caiu em cima da cabeça de um Estádio da Luz que não estaria à espera que o Benfica, a escorregar, escorregasse frente ao Tondela. Mas não foi só uma escorregadela, foi uma queda sem amparo, cujas feridas só serão tratáveis caso o FC Porto não vença no Funchal no domingo.

Mas a vitória por 3-2 do Tondela na Luz não foi só obra e desgraça do Benfica, foi também uma conquista do Tondela, que demorou a entrar em jogo, mas quando entrou foi em modo leopardo. Daqueles que não desaproveitam qualquer desatenção da sua presa. Como dizia, o início não foi fácil. Depois de sofrer aos 12 minutos um golo de Pizzi, que rematou forte após uma jogada de insistência de Jimenez que ainda passou por Zivkovic e Rafa, valeu ao Tondela Cláudio Ramos, que nos minutos seguintes tirou o golo a Zivkovic e a Cervi, naquele que seria o arranque de mais uma exibição impressionante do guardião dos beirões.

(Já agora: Fernando, este é o Cláudio, Cláudio, este é o Fernando)

Mas logo após a saída por lesão de André Almeida, o jogo virou para o matreiro e rápido Tondela. Aos 31’, Cervi perdeu uma bola antes do meio campo para Vítor Bruno, que rapidamente colocou nas costas da defesa do Benfica, lenta, passiva. Miguel Cardoso recebeu, amorteceu com o peito e picou por cima de Bruno Varela, que ficou nesse meio caminho que é o “vou/não vou”.

Gualter Fatia/Getty

Miguel Cardoso, avançado formado pelo Benfica, que bisaria apenas quatro minutos depois, após mais uma jogada em que a defesa dos encarnados (e neste caso Luisão, que teve uma tarde para esquecer) meteu água. Na sequência de um lançamento lateral de Vítor Bruno, Ricardo Costa, 36 anos, ganhou nas alturas ao central brasileiro, 37 anos, e a bola sobrou para Cardoso que rematou forte, de primeira e sem grande oposição no coração da área.

E assim, de repente, o Benfica estava a perder, a sofrer dois golos na Luz, coisa inaudita desde agosto. Passado o choque, após o intervalo Rui Vitória colocou Salvio em campo e teve o seu melhor período. Só que apareceu de novo Cláudio Ramos (Fernando, este é o Cláudio) e, essencialmente, a falta de pontaria do Benfica. Quando não rematava contra Joãozinho, Salvio falhava golos feitos, como aos 52’ quando sozinho e perante um cruzamento perfeito de Douglas, rematou por cima. Ou aos 78’, quando recebeu na área, virou e rematou rasteiro mas ao lado.

E enquanto o Benfica falhava e aos poucos ia perdendo o gás e a criatividade, o Tondela, no primeiro contra-ataque com perigo que conseguiu lançar, matou o jogo. Tomané correu, livrou-se de Luisão, esta noite uma velocidade abaixo de quase toda a gente, e fez o terceiro, para escândalo das bancadas, entre o choque e a incredulidade e umas ocasionais lágrimas.

A partir daí foi contenção de danos, tentar não tornar a derrota em goleada com o segundo golo do Benfica a aparecer já quando ninguém contava, nem o próprio Salvio, que já nos descontos conseguiu finalizar aquilo que até então tinha complicado.

Já foi tarde. E já parece tarde para o Benfica, que desabou na altura mais crítica e praticamente ofereceu o título ao FC Porto e, talvez, a Champions ao Sporting.