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Vitória, vitória, acabou-se a história? (por Bruno Vieira Amaral)

Bruno Vieira Amaral

1. Rui Vitória, treinador do Benfica, conquistou 80 pontos no ano civil de 2017

José Coelho/Lusa

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José, amante instável, de estrepitosa cabeleira e português florido, abandonou Maria antes que Maria o abandonasse, e correu para os braços de Madalena, paixão antiga, nunca concretizada. Maria chorou, berrou, insultou, ameaçou, saiu para a rua e entrou nos tribunais, e, como se nada fosse, apresentou ao mundo novo homem, um Manel recto e modesto, de percurso sólido, incapaz de atear fogos nos corações femininos e, por isso mesmo, sujeito recomendável para um segundo casamento depois de um primeiro de muitas emoções e turbulência.

Pois assim tinha sido a união entre José e Maria, embarcação a navegar entre os prazeres e os vexames, sempre à beira da glória e da destruição. “Sem mim não és nada”, disse-lhe Maria, despeitada, na despedida. “Sem mim nada és”, atirou-lhe José, e, com Madalena à espera, acenou-lhe um adeus definitivo. Bem, definitivo, não, porque ficaram todos a viver na mesma rua…

O Manel desta singela história vê-se logo quem é, não que as outras personagens sejam difíceis de descobrir. Porém, hoje é do Manel, Rui de nome próprio, Vitória de apelido, que quero falar. E começo pelo dia inaugural. A apresentação de um treinador costuma servir para entusiasmar os adeptos e não para tranquilizar o recém-chegado.

Mas assim decorreu a apresentação de Rui Vitória, uma cerimónia com o brilho taciturno de certos jantares oficiais, com o treinador amparado pelo estado-maior do benfiquismo. Pior do que a apresentação foram os primeiros resultados. Disse Jesus, e com razão, que à equipa faltava o cérebro. Mas faltava mais do que isso. Faltavam todos os órgãos internos. A equipa era uma carcaça à espera de ser devorada. E, no dia 25 de Outubro de 2015, Jesus, à frente de um exército esfaimado, regressou ao lugar onde tinha sido feliz para desfazer o que ainda por lá restava da sua passagem e deixar um rasto de miséria e desolação.

No entanto, a partir daí, Rui Vitória parece ter sido abençoado pela qualidade que Napoleão mais apreciava nos seus generais: a sorte. Nem tudo se explica pela sorte, é certo. Nas conquistas que se seguiram, houve muito trabalho, um forte espírito de união, a classe de alguns jogadores, as injeções de ânimo dos adeptos, sempre com o Marquês no horizonte, e o bom senso do treinador. Durante três anos, Rui Vitória interiorizou por completo o papel de Anti-Jesus. Enquanto Jesus se queixava, Vitória nunca se lamuriou.

Enquanto Jesus desdenhava da formação, Vitória lançou os “meninos”. Enquanto Jesus berrava com os jogadores, Vitória murmurou pedagogias. Enquanto Jesus exigia ovos de ouro para fazer omeletes, Vitória disponibilizou-se para fazer omeletes sem ovos. Tudo isto colado com Sun-Tzu para todo o tipo de superfícies, o “se fosse fácil não era para nós” e o ocasional “murro na mesa” que quando se ganha tolera-se e quando se perde traz aquele perfume enjoativo das desculpas esfarrapadas. Ah, claro, e a bendita sorte que protege, em igual medida, os audazes, os que fazem por merecê-la e os que, segundo o povo, têm o singular mérito de ter nascido com o rabo virado para a lua.

Se a sorte de que Rui Vitória inequivocamente beneficiou se deveu à audácia do homem ou às circunstâncias do seu nascimento ninguém poderá apurar. Este ano, porém, a sorte veio reclamar com juros o que tinha oferecido nos anos anteriores.

Na Champions, último lugar no grupo, zero pontos, seis derrotas, uma humilhante goleada em Basileia, pior prestação de sempre de uma equipa portuguesa na prova. Depois, as eliminações nas taças. Só que no futebol a memória é curta e a possibilidade do “penta” de repente redimia todas as falhas e atirava as recordações traumáticas do passado recente para o lixo. Aos saltos no Marquês, o adepto raramente se lembra do caminho que o levou até lá. Parecia um plano perfeito, embora um pouco tortuoso e masoquista: debilitar a equipa para equilibrar as finanças, sacrificar alguns membros como que para se livrar de lastro e concentrar todas as energias na conquista do penta enquanto os adversários se desgastavam em mil e uma competições. Mesmo que escrito a posteriori, seria um guião que os benfiquistas não se importariam de comprar. Não resultou. A reserva de fortuna parece ter chegado ao fim, fatalmente, no dia em que Vitória revelou mais prudência do que audácia e os deuses pagaram-lhe com o golo de Herrera. Como nas histórias de fadas, foi como se o feitiço se tivesse quebrado de um instante para o outro e o barco que, por estranhas artes, levitava caísse com estrondo, como há muito não acontecia na Luz, no jogo contra um abnegado Tondela.

Regressemos à analogia sentimental.

Certa vez, perguntaram a uma senhora se ela tinha casado com o marido por amor ou por interesse. Resposta espirituosa da senhora: “deve ter sido por amor porque não tenho nenhum interesse nele.” Ora, a união entre Benfica e Rui Vitória nunca foi uma questão de amor. Será difícil encontrar alguém que diga da eventual saída de Vitória o que um famoso adepto benfiquista disse da partida de Jesus: “um erro histórico.” Esfumados os sonhos de sucesso, Maria acorda, olha para o lado e vê lá o entediante Manel, a ressonar esquecidamente. O interesse já não deve ser muito e já não deve ser mútuo.

A pergunta que o adepto comum faz é a seguinte: não havendo amor nem interesse, quanto tempo se pode aguentar um general abandonado pela sorte? E, caindo este general, conseguirá o pequeno Napoleão segurar-se no cavalo? É que, nesta história do Manel, não nos podemos esquecer da Maria.

Nos últimos anos, Maria tentou ganhar campeonatos da mesma maneira que o Joãozinho andava de bicicleta: primeiro sem uma mão, depois sem as duas, depois sem pés. Até que bateu de frente numa parede e agora anda a ver se ainda lhe sobram dentes. Após cada conquista, Vieira, confiado na boa estrela do seu general e na incompetência dos adversários, entregou as rédeas a Domingos Soares de Oliveira. Agora vai ser preciso olhar outra vez para o campo de batalha. E como a sorte não consta de nenhum curriculum, o melhor é ir à procura de um general competente que faça as Marias sonhar.