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Bem-vindo ao Inferno do Norte: o que torna o Paris-Roubaix tão especial?

Este domingo realiza-se a 115.ª edição do Paris-Roubaix. São mais de 250 quilómetros, 55 dos quais em empedrado. Há caos, há quedas, há furos, há pó (ou lama, depende), há problemas mecânicos, há quem simplesmente não aguente e desista. E é por isso que é a rainha de todas as Clássicas. Perguntámos a Sérgio Paulinho porque é tão difícil correr a mais amada prova de um dia do calendário velocipédico

Lídia Paralta Gomes

Bryn Lennon - Velo/Getty

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Em 1985, o holandês Theo de Rooij era um dos favoritos à vitória no Paris-Roubaix, mas uma queda acabou por apartá-lo da discussão final. É daquelas coisas que acontecem, principalmente no Paris-Roubaix. Mas também é no Paris-Roubaix que as derrotas doem mais. Todo coberto de lama e ainda a quente - nas emoções, porque frio não faltou -, De Rooij foi apanhado por uma equipa de reportagem do canal norte-americano CBS. E, entre a raiva e o desalento, explodiu.

“É uma porcaria esta corrida! Trabalhas que nem um animal, não tens tempo para urinar, fazes pelos calções abaixo. Estás a correr no meio da lama, está tudo escorregadio… é um monte de m**da!”, desabafou o holandês.

Mas quando lhe perguntaram se estaria ali no próximo ano, a resposta foi pronta:

“Claro, é a corrida mais bonita do mundo!”

Há muitas histórias que explicam em poucas linhas a magia do Paris-Roubaix. Esta é uma delas. No fundo, qual é a explicação lógica para cento e tal rapazes vestidos de licra atirarem-se para o meio do pó (ou da lama, dependendo das condições), numa corrida desenfreada de bicicleta por um empedrado sujo, irregular e escorregadio, que meteria medo até a quem fosse de carro?

Fácil: aqueles rapazes tentam vencer a rainha das Clássicas, o Inferno do Norte, um dos Monumentos do ciclismo. Como disse um dia o irlandês Sean Kelly, que venceu a corrida em 1984 e 1986, o Paris-Roubaix é “uma prova horrível de correr, mas a mais bonita de todas de se ganhar”. Quanto maior o desafio, maior a recompensa.

O que tem então o Paris-Roubaix, que este domingo tem a sua 115.ª edição, de especial? Essencialmente o traçado: são mais de 250 quilómetros, com início em Compiègne, 80 quilómetros a norte de Paris, e chegada ao centenário Velódromo de Roubaix, nos arredores de Lille. Pelo meio, o asfalto convive com um total de 55 quilómetros de empedrado (o pavé, como lhe chamam os franceses), espalhados por 29 sectores onde normalmente se decide a corrida.

Por isso, e faça chuva ou faça sol, não há edição do Paris-Roubaix que não termine com um número absurdo de desistências, quer seja por quedas, furos, problemas mecânicos ou simplesmente porque muitos não conseguem aguentar a dureza que é correr sob paralelipipedos. Paralelipipedos esses que são tratados como verdadeiros príncipes, ou não fossem eles os grandes protagonistas da prova: todos os anos a associação Les Amis de Paris-Roubaix gasta entre 10 a 15 mil euros a restaurar e a reconstruir os percursos de pavé.

Johan Van Summeren estava neste bonito estado quando foi o primeiro a cortar a meta em 2011

Johan Van Summeren estava neste bonito estado quando foi o primeiro a cortar a meta em 2011

Bryn Lennon/Getty

Sérgio Paulinho foi vice-campeão olímpico de estrada em Atenas 2004 e fez o Paris-Roubaix no ano seguinte, o primeiro em que competiu no pelotão internacional - aguentou 100 quilómetros.

“Nunca tinha feito uma corrida assim”, conta à Tribuna Expresso o ciclista de 37 anos, que esta época voltou a Portugal, correndo agora na Efapel: “Na altura fiz apenas três ou quatro tramos de pavé e quando baixei da bicicleta parecia que tinha feito 200 quilómetros! O paralelo é muito duro, acabamos muito desgastados”. E por isso é que após o Paris-Roubaix, os ciclistas têm de “descansar uma semana ou mais, quase sem treinar, para o corpo recuperar”.

O paralelo é mesmo “a maior dificuldade” do Paris-Roubaix, diz Paulinho: “Há alguns tramos que se fazem mais ou menos bem, mas outros são bastante complicados, porque têm buracos. E depois é a loucura da corrida, porque toda a gente quer entrar na frente”.

Estar na frente é importante porque pode evitar uma série de problemas. Ser-se apanhado no meio de uma queda, por exemplo. No ano passado, o português Nelson Oliveira caiu e fraturou a clavícula. Foi um dos 79 desistentes, entre os 198 ciclistas que se apresentaram à partida.

Em 2005, Paulinho apanhou bom tempo, mas na Volta a França de 2014 uma das etapa passou em alguns setores normalmente usados no Paris-Roubaix e o ciclista soube o que era verdadeiramente o Inferno do Norte. Estava de chuva e isso muda tudo.

“É completamente diferente. Um ciclista até pode ter feito o Paris-Roubaix durante muitos anos sempre com tempo bom - se apanhar chuva é como se o estivesse a fazer pela primeira vez. A maneira de encarar o paralelo não pode ser igual, não se pode andar como se fosse em seco, se não é um caos”, explica Paulinho, que até nem passou mal, já que vinha num grupo mais atrasado, mas mesmo assim viu confusão.

Sérgio Paulinho fez o Paris-Roubaix em 2005 mas não conseguiu acabar

Sérgio Paulinho fez o Paris-Roubaix em 2005 mas não conseguiu acabar

Bryn Lennon/Getty

“Nessa altura já vinha no grupeto e passámos devagar. Mas lembro-me de haver quedas, porque os paralelos tinham os relevos das rodas dos carros e, passando no relevo, as rodas das bicicletas podem fugir”, diz, recordando que o “pelotão ia todo ao deus-dará, sem saber o que ia encontrar”.

E o que é que se passa na cabeça de um ciclista quando entra num setor de empedrado? “Quando entramos no tramo o que queremos é que passados 100 metros aquilo termine! O nosso desejo é que acabe o mais rápido possível”. Não duvidamos.

Boonen pode despedir-se em beleza

O Velódromo de Roubaix foi inaugurado em junho de 1895. Por trás da construção da pista estiveram dois empresários locais do setor têxtil, Théodore Vienne e Maurice Perez. E foi deles também a ideia de criar uma corrida entre a capital francesa e a localidade que beija a fronteira com a Bélgica.

Um ano depois da inauguração do velódromo, dá-se a primeira edição da prova, que apenas não se realizou durante as duas Guerras Mundiais. Talvez Vienne e Perez não imaginassem que, 115 anos depois, o vencedor ainda levantasse os braços no seu velódromo.

E há dois que o fizeram por quatro vezes, dois belgas, Roger De Vlaeminck (1972, 1974, 1975 e 1977) e Tom Boonen (2005, 2008, 2009 e 2012). Boonen tem este ano a última oportunidade de ficar isolado na lista dos campeões: aos 36 anos, o ciclista da Quick-Step fará a corrida de despedida precisamente no Paris-Roubaix.

Boonen já foi por quatro vezes o primeiro a cortar a meta no Velódromo de Roubaix, a última das quais em 2012

Boonen já foi por quatro vezes o primeiro a cortar a meta no Velódromo de Roubaix, a última das quais em 2012

Bryn Lennon/Getty

Isso quer dizer que este ano será também o último banho de Boonen nos balneários do Velódromo de Roubaix, onde tem uma placa comemorativa com o seu nome: há tradições que não se mudam e mesmo com as equipas apetrechadas com autocarros que são verdadeiros hotéis, os ciclistas continuam a preferir tirar o pó e a lama do corpo no decrépito balneário - simplesmente faz parte do circo.

Em 2004, depois de terminar em 9.º, o ciclista belga deixou o seguinte pensamento: “Quando estou nos duches do Velódromo de Roubaix já estou a preparar a prova do ano seguinte”. E o facto é que venceu em 2005.

Boonen é um daqueles ciclistas que não vai ficar na história por ganhar uma das três grandes voltas. O negócio dele é outro. “Para os especialistas de clássicas, como é o Boonen ou antes o Fabian Cancellara, o Paris-Roubaix é a Volta a França. Ganhar em Roubaix significa ter a época quase feita. Porque de todas as corridas de um dia, é a mais importante”, explica-nos Sérgio Paulinho, que gostava de ver o belga despedir-se com o recorde.

Os míticos (e centenários) balneários do Velódromo de Roubaix, onde ainda hoje os ciclistas fazem questão de tomar banho

Os míticos (e centenários) balneários do Velódromo de Roubaix, onde ainda hoje os ciclistas fazem questão de tomar banho

Bryn Lennon/Getty

“Acho que vai ser entre o Boonen ou o Peter Sagan [campeão do mundo de estrada]. Eu gosto muito dos dois, mas gostava de ver o Boonen ganhar, porque vai ser a sua última corrida como ciclista profissional e acho que para o ciclismo era uma coisa bela de se ver”, diz o ciclista português.

Seria uma bela despedida na mais bela (e dura, e suja, e louca) corrida do Mundo. Perguntem a Theo de Rooij. Ou a Jacques Goddet, editor do “L’Equipe” e depois diretor do Tour, que um dia apelidou o Paris-Roubaix de “a última grande loucura do ciclismo”.