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Olivier Bonamici: “Gostava de apresentar um talk show assim: todo nu, a comer uma feijoada e a falar da Fundação Gulbenkian”

Esta sexta-feira arranca a 100.ª edição do Giro de Itália, a primeira das três grandes voltas do calendário velocipédico, motivo para uma conversa sobre muito mais que ciclismo com Olivier Bonamici, o mais português dos monegascos e um homem de muitas paixões que, com Luís Piçarra e Paulo Martins, forma o bem-humorado trio de comentadores de ciclismo da Eurosport

Lídia Paralta Gomes

D.R.

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Pode dizer-se que há um antes e um depois de Olivier Bonamici quando falamos de comentário desportivo em Portugal. O franco-monegasco forma com Luís Piçarra e o ex-ciclista Paulo Martins o trio de comentadores de ciclismo da Eurosport, trio esse que deu um certo colorido e um tom informal a algo que, no nosso país, tende a ser bastante cinzento.

Mais que o desporto propriamente dito, nas emissões de ciclismo do canal por cabo há lugar para cozinha tradicional portuguesa, música, política e para muitas provocações (amigáveis, claro) entre os três comentadores, que atingem o auge no já mítico jogo das apostas (em que os três comentadores escolhem o vencedor da etapa do dia). Um fenómeno de culto que tornou Olivier, também ele, numa figura de culto para todos os apaixonados pela modalidade.

Já recuperou da derrota de quarta-feira do Mónaco na Champions?
Pfff... foi duro. A última vez que o Mónaco teve uma derrota que ficou para a história tinha organizado um grande buffet em casa com muitos amigos e levámos 3-0 do FC Porto, na final de 2004. Agora raramente faço buffets em casa, costumo ver os jogos num café, mas na quarta-feira convidei dois vizinhos meus e fiz mesmo uma coisa grande. Pá, nunca mais organizo jantares em minha casa. Acabou.

Dá azar.
Dá azar sim, foi um grande pesadelo. Mas a Juventus é tão forte, tão superior a nós que não fiquei surpreendido.

Estando há 20 anos em Portugal, dá-lhe um gostinho especial ver o Mónaco nestas andanças com jogadores e um treinador português?
Claro que tem. Sempre fui do Mónaco e estou em Portugal há 20 anos. É o cruzamento de duas coisas muito importantes para mim, até parece uma coisa estranha. Bem, agora vou armar-me, às vezes acho que fui eu que indiretamente [desata-se a rir] transmiti o meu amor a Portugal aos monegascos.

E como é que um franco-monegasco chega a Portugal há 20 anos?
Eu vim para aqui por causa do amor, por causa de uma mulher. E pronto, foi isso que aconteceu. Foi por amor, não foi por razões fiscais, eu não tinha guita nenhuma! Portanto foi só mesmo por amor.

Foi uma boa decisão?
Foi ótima, ótima.

E 20 anos depois é alguém que tem páginas e páginas de fãs no Facebook e é reconhecido na rua por causa do trabalho como comentador de ciclismo. Esperava tal coisa?
Em primeiro lugar, o meu sonho de criança era fazer exatamente aquilo que estou a fazer neste momento, mas nunca imaginei que o viesse a fazer num país em que a língua não era a minha. Para mim é uma coisa inacreditável. Às vezes penso ‘uau, como é que isto é possível’. Depois passei aí uma fase, principalmente nos primeiros anos, que ficava contente por ser reconhecido na rua. As pessoas reconhecem-me, pagam-me copos porque eu estou sempre contente. Agora estou numa outra fase que me toca muito: inicialmente pensava que as pessoas gostavam de mim só por causa do sotaque, mas agora falam de mim com alegria, por eu ser diferente, por ter uma outra visão do desporto, uma visão divertida, igual à visão que tenho da vida. Tenho uma pancada, claramente, assumida. Não escondo nada daquilo que sou. Às vezes até gostava de ir mais longe, mas não posso.

Até onde?
Gostava de comentar todo nu na televisão. Não me importava. Há pessoas que às vezes me dizem ‘Cuidado, pá, às vezes um gajo em Portugal tem de ter cuidado’. É aquela questão da credibilidade. A credibilidade não é uma noção importante na minha vida, importante é aquilo que eu digo e são as análises que eu faço que são análises de jornalista. Mas a minha forma de ser... sou assim, doido e estou preparado para tudo. Às vezes até tenho de ter cuidado comigo próprio e com os meus limites. O que eu tento é transmitir a minha alegria às pessoas, isso é o que mais me importa.

Somos um povo um pouco austero. É exatamente essa sua informalidade que faz com que as pessoas gostem tanto dos seus comentários?
Não tenho dúvida nenhuma. Porque em Portugal ainda há essa mentalidade que tudo tem de ser muito sério. Recentemente participei num debate na televisão portuguesa e fui sem gravata. Tive amigos portugueses que me disseram ‘Cuidado com essa merda, tens de levar uma gravata’. E depois ao nível do desporto, aqui é tudo uma coisa super séria, tipo, ‘uau’. Estamos a falar de futebol e parece uma coisa assim... Eu adoro debater o futebol, mas podemos rir. Podemos interromper-nos, mas a rir, não é preciso insultar. Podemos rir sem perder a credibilidade. Mas isto tem a ver com a minha essência. Cada povo é como é e eu também não critico. Eu também não me considero representante do povo francês. O que eu tento transmitir é outra visão do desporto e não ser chauvinista – detesto, detesto o chauvinismo. Tento falar de outras coisas, de política, de geografia, de gastronomia.

A gastronomia que é algo muito presente durante as vossas transmissões.
De forma doentia!

Dá para perceber pelas emissões que a comida portuguesa é um assunto que lhe é muito caro. Consegue fazer assim um best of de iguarias?
São tantos que valha-me deus, pá. Sou absolutamente tarado por massada de peixe, um prato que descobri há pouco tempo na zona da Caparica. Às vezes faço vários restaurantes para ver qual é a melhor massada de Portugal.

No mesmo dia?
Não, no mesmo dia não! Mas às vezes faço dois restaurantes na mesma noite com os meus filhos. Sou perfeitamente capaz de ir a um restaurante numa noite e depois ir a outro a seguir. E os meus filhos dizem ‘Uau, um outro restaurante? Nós já não temos muita fome’ e eu digo ‘Calem-se, pá’. Alegria é comer num restaurante, sair e ir ao restaurante ao lado. Mais pratos? Caldeirada de peixe, sou doido. E depois os três tradicionais: leitão assado e no top 2 cozido à portuguesa e feijoada à transmontana.

Gostava de fazer um programa do género Volta a Portugal da gastronomia?
Ah, sim! Aliás tenho ainda um objetivo profissional em Portugal que é apresentar um talk show na televisão que ligasse as quatro paixões da minha vida: o desporto, a cultura, a gastronomia e o sexo. Para mim seria uma coisa brutal.

E de que forma é que tudo isso se poderia juntar?
Então era eu todo nu, a comer uma feijoada e a falar da Fundação Gulbenkian [risos]. E eu gostava de fazer isto porquê? Na televisão convidam sempre as mesmas pessoas. E não é só em Portugal. Eu adorava quebrar as barreiras nas entrevistas e falar de forma diferente. Lá está, sem gravata.

Entretanto, está aí o Giro à porta. Mais uma grande volta e mais um jogo de apostas entre o Olivier, o Luís Piçarra e o Paulo Martins. É desta que finalmente vai ganhar?
Pfff. Gostava tanto... Acho que fazemos isto há seis anos, portanto são umas 20 voltas e eu não ganhei uma vez! Eu quero ganhar como é óbvio para calar a boca dos meu dois colegas de trabalho. Fico surpreendido: às vezes estou na rua e há vizinhos e outras pessoas que me perguntam ‘Épa, é desta que vais ganhar essa merda?’. Sinto pressão e essa pressão, quando estou na liderança, faz-me cair no erro, porque sou um gajo romântico, anti-pragmatismo. O problema é que um gajo romântico não consegue calcular de forma fria.

Quem vê as transmissões de ciclismo na Eurosport gosta porque há ali entre vocês sempre muito boa disposição. É sempre assim ou vocês pegam-se às vezes?
Dentro e fora do estúdio temos uma ótima relação. Mas em estúdio, quando estou a defender uma ideia e alguém discorda e dá argumentos que eu não considero válidos, isso irrita-me. E eles os dois têm uma capacidade para me irritar... é um dom! Sobretudo o Luís Piçarra. Mas a nossa relação é exececional.

Em todos estes anos a comentar as três grandes voltas, qual foi assim aquele momento que enquanto comentador o fez saltar da cadeira de emoção?
Há dois acontecimentos que me fazem vibrar no ciclismo. O primeiro quando um grande campeão faz uma etapa de doidos: lembro-me por exemplo do Chris Froome na Volta a França há três anos, quando arrasa o Nairo Quintana no Mont Ventoux. Naquela altura eu sabia que estava a assistir a um grande momento de desporto. Mas também gosto do drama. Porque eu acho que é nos momentos dramáticos que os campeões ficam mais simpáticos. Não é nas vitórias, é estranho. Por exemplo, quando o Froome no ano passado caiu na Volta a França e foi a pé pela montanha fora, ou quando o Contador está em dificuldades. Lembro-me também do Miguel Indurain no fim da carreira, sofria que nem um cão na montanha. São estes momentos que me fazem gostar mais de desporto.

São os momentos mais humanos.
São os momentos em que estes campeões começam a ver alguma fragilidade, em que vês que são humanos. E tu olhas para tudo o que eles fizeram, tudo o que eles ganharam... para mim aquelas imagens tornam-se mágicas.

No ano passado quando viram em direto essa imagem do Froome a ficar sem bicicleta em plena montanha e a correr, qual foi a vossa reação?
Eu fiquei sem palavras. Mas ao mesmo tempo lembro-me de ter ficado logo com a certeza que aquilo era uma imagem forte em termos de televisão. Uma imagem única que não pode ser banalizada. É ‘uau’, o homem no meio da montanha, o camisola amarela, a correr.

Perguntei pelo momento mais emotivo, agora vou perguntar pelo pior momento. Mas deixe-me adivinhar: Grega Bole [No Tour de 2010, Bonamici liderava o jogo das apostas à última etapa quando apostou no ciclista esloveno para a vitória. Bole terminou em penúltimo; Bonamici tombou para último].
É um esloveno que vai ficar para toda a minha vida. Sabes que eu já enviei mensagens ao Grega Bole? Mas o rapaz... como é que se diz em português quando queres seduzir uma mulher e ela não te liga nenhuma? Levar uma quê?

Uma tampa?
Uma tampa, isso! Eu levei uma tampa do Grega Bole. Escrevo-lhe e ele não me liga nenhuma! Inacreditável. Mas há outro episódio genial no jogo das apostas, com o espanhol Jonathan Castroviejo. No Giro de Itália de 2014 escolhi-o como vencedor do contra-relógio – e ele é dos melhores – e ele enganou-se no caminho! Como é que eu aposto num gajo que se engana no caminho? Também cheguei a apostar num ciclista italiano que nesse dia acabou hospitalizado. Tive medo que ele morresse. Se ele morresse eu nunca mais apostava, como é óbvio. Vá, só ficou uma semana no hospital.

E as vitórias portuguesas em etapas das grandes voltas, dá prazer comentar?
A minha emoção não se liga a portugueses ou a franceses. Liga-se mesmo ao momento para o desporto. Eu ficaria emocionado se visse o Contador a ganhar uma última grande volta, porque eu gosto das grandes histórias e das histórias que acabam bem. O meu favorito para o Paris-Roubaix deste ano era o Tom Boonen porque era a última corrida dele.

Aquela emoção de estar a assistir a história a acontecer.
Exatamente, é isso que eu gosto no meu trabalho. É assistir a um momento histórico.

Falando agora desta edição centenária do Giro. Para o Olivier quem são os favoritos?
Vou destacar quatro ciclistas. Primeiro o Nairo Quintana, que me parece o favorito. Vai fazer a Volta a Itália e depois a Volta a França e sabemos que desde 1998 que ninguém ganha as duas provas no mesmo ano. Resta saber se ele vai estar a 100%. Depois Vincenzo Nibali que tem a pressão de estar em Itália, sobretudo na 100.ª edição do Giro e logo após a morte de Michele Scarponi... vai ter uma pressão gigantesca. Em terceiro Thibaut Pinot, que não vai fazer a Volta a França porque sabe que não pode ganhá-la e por isso faz o Giro para finalmente vencer uma grande volta. E, para terminar, um ciclista que eu não sei se vai ganhar este ano, mas que para mim vai ser o grande ciclista do futuro se não fizer nenhuma asneira, que é o holandês Tom Dumoulin. Tem tudo para ser o futuro Chris Froome.

Quintana e Nibali, os dois principais favoritos ao Giro

Quintana e Nibali, os dois principais favoritos ao Giro

JEFF PACHOUD/Getty

E os portugueses, o que podem fazer?
Os portugueses estão lá para ganhar etapas. O Rui Costa tem alguma pressão sobre ele nesta Volta a Itália, ele que este ano optou por não fazer o Tour. Sobretudo porque está ausente o outro líder da UAE Team Emirates, o Diego Ulissi, o que mostra que a equipa está claramente a apostar nele. E porque já passaram quase quatro anos desde o título de campeão do mundo. Por isso estou muito curioso para ver o que ele pode fazer.

Concorda com o cancelamento do prémio para o melhor ciclista em descida?
Eu acho que o Giro tem uma coisa engraçada: é a prova que tenta mexer mais. O Tour, por exemplo, é uma prova muito mais conservadora. O prémio teria sido ótimo para o espectáculo, agora se é para haver uma morte, obrigadinho mas não.