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Allez allez! Vem aí o Tour e é preciso rever a matéria dada

O Tour arranca este sábado, na Alemanha, com 198 ciclistas no pelotão e o sonho de sempre: conquistar a prova-rainha das provas-rainhas do ciclismo. Candidatos, momentos-chave e outros apontamentos para se preparar para a prova

Filipa Silva

JEFF PACHOUD/AFP/Getty Images

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Vender jornais nunca foi tarefa fácil, mas dificilmente alguém adivinharia que a estratégia de uma revista desportiva no início do século XX para aumentar o número de leitores e expor a marca resultaria na mais importante prova velocipédica da história do ciclismo.

O Tour sai este sábado à estrada e há muito que ultrapassou as fronteiras do hexágono. Não só porque, como vem sendo habitual, arranca fora do país - este ano é em Dusseldorf, na Alemanha - mas porque capta os olhares de meio mundo. Só na beira da estrada são esperados 10 a 12 milhões pela organização - até o Diabo costuma aparecer - mas muitos mais seguem a prova no planeta: há 2 mil jornalistas credenciados.

O que esperar da edição 104 do Tour? Se a ideia é que importa quem lá está, a resposta será: o melhor, sempre. É verdade que há ausências de peso, de Nibali a Dumoulin, passando por Tejay Van Garderen. Mas dir-se-à que isso pode não ser uma má notícia. Na verdade, as equipas parecem querer ganhar foco em vez de colocarem a carne toda no assador. O pragmatismo compensa? Logo se verá.

Os favoritos

Chris Froome (Sky) é o homem de quem se fala. Vencedor de três edições do Tour (2013, 2015 e 2016), chega a esta volta como favorito na corrida pelo título. Corre pela história para ultrapassar Thys, Bobet e Greg Lemond (todos com três títulos) e aproximar-se de Anquetil, Merckx, Hinault e Induráin (todos com cinco Tours no currículo). A época tem sido pouco auspiciosa e até se conta que ganhou o Tour sempre que venceu o Critérium Dauphiné, coisa que não aconteceu este ano. Mas Froome diz que não é dado a superstições.

O britânico, de 32 anos, já considerou este Tour como o mais desafiante que tem pela frente, até pelo número reduzido de contra-relógios - serão apenas dois, e curtos. “Acho mesmo que o percurso deste ano se apresenta como o maior desafio que já enfrentei na minha carreira. É uma corrida aberta e o nível dos meus adversários está mais alto do que nunca”.

Quem são esses adversários? Nairo Quintana (Movistar) é seguramente um deles. Este pequeno grande trepador colombiano chega ao Tour depois de uma vitória na clássica Tirreno-Adriático e um segundo lugar no Giro, a volta a Itália, que perdeu para Tom Dumoulin (Sunweb). Parece que lhe falta sempre um bocadinho assim, mas estará seguramente na corrida.

Por falar em clássicos, Alberto Contador (Trek) é outro. É provavelmente o mais premiado do pelotão no que a grandes voltas diz respeito. Vencedor de três Vueltas (2008, 2012, 2014), dois Giros (2008, 2015) e dois Tours (2007, 2009), procura o regresso aos pódios, contando com uma equipa teoricamente mais fraca que a Sky ou a Movistar. O melhor da época foi um segundo lugar na clássica Paris-Nice.

Em matéria de adversários, é ainda obrigatório incluir Richie Porte (BMC), o australiano de 32 anos que já não serve Froome e chega ao Tour com algumas vitórias na bagagem; Romain Bardet, o líder da AG2R, que foi segundo no Tour do ano passado; Fábio Aru (Astana), que chega à corrida depois de ter falhado o Giro por causa de uma queda e que conta na sua fileira com o vencedor do Critérium Dauphiné deste ano, Jakob Fuglsang; Esteban Chavez (Orica) e Thibault Pinot (FDJ) talvez sejam nomes a recordar neste caminho.

Os ausentes

Há alguns nomes a que estamos habituados de que não se ouvirá falar este ano no Tour. Entre eles estão o de Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), vencedor do Tour em 2014, que optou por se concentrar no Giro (3º da geral) e na Vuelta; Tom Dumoulin, vencedor de duas etapas no Tour em 2016 e do Giro já este ano, que tomou a mesma opção de Nibali; Tejay Van Garderen (BMC) cuja equipa escolheu Richie Porte para chefe-de-fila no Tour; Adam Yates (Orica), vencedor da camisola da juventude no ano passado, que também fica de fora da equipa comandada por Esteban Chavez e que integra o irmão Simon Yates; e Rui Costa (UAE Emirates), o português com oito presenças consecutivas no Tour, e que já lá venceu três etapas (uma em 2011 e duas em 2013). O poveiro, que foi ao Giro e ficou em 27º lugar, foi deixado fora da lista apresentada pela Emirates.

Os portugueses

Só há um. Os seus méritos servem sobretudo o contra-relógio e foi pelo irmão que soube que ia estar no Tour este ano. De resto, Tiago Machado (Team Katusha) - que corre na equipa de que é diretor geral outro português, José Azevedo - já tem oito presenças em grandes voltas, sendo o melhor do seu currículo um 19º lugar na Volta à Itália. Correm consigo outros aspirantes a vitórias por etapas, como o sprinter norueguês Alexander Kristoff e o contrarrelogista alemão Tony Martin.

Além de Machado, também André Cardoso (Trek) era para correr no Tour, mas um resultado de controlo anti-dopping anómalo - a revelar a presença de eritropoietina (EPO) - colocou-o fora da competição. O português, de 32 anos, reclama inocência, espera pelo resultado da contra-prova, mas é certo que fica fora da “entourage” de Alberto Contador para este Tour.

As etapas-chave

O conselho é que se veja tudo - para quem pode, claro está - mas há etapas desenhadas para decidirem o Tour deste ano.

Contra-relógios há dois: um este sábado, em Dusseldorf, na Alemanha, de 14 quilómetros; e outro, na véspera da chegada aos Campos Elísios, em Marselha, a 22 de julho.

Pelo meio, claro, há a montanha. Este Tour tem reservadas cinco etapas de média montanha e outras cinco de alta montanha.

A primeira paragem no capitulo das etapas decisivas é a etapa 5, a 5 de julho, com a primeira chegada em subida, a La Planche des Belles Filles. Será o primeiro grande teste ao pelotão e uma oportunidade para alguém se destacar da concorrência.

Nova paragem na etapa 9, a 9 de julho, entre Nantua-Chambéry, com três contagens de categoria especial que incluem o Grand Colombier (8,5 Km a 9,9% de inclinação) e o Mont du Chat (8,7 Km a 10,3%).

Saltamos para a etapa 12, a etapa mais longa nos Pirinéus, entre Pau e Peyragudes, com uma contagem de categoria especial em Port de Balés (11,5 Km a 7,7%) e uma contagem de primeira categoria já próxima do final. Uma jornada bem longa para montanha: 214,5 quilómetros.

A etapa 13 é uma inovação. Feita para sair à estrada no Dia de França, a 14 de julho, vai ter apenas 100 quilómetros. É curta, mas está longe de ser fácil, uma vez que inclui três contagens de primeira categoria.

Daqui passamos para a etapa 17, no maciço dos Alpes, a 19 de julho, entre La Mure e Serre-Chevalier. Tem duas contagens especiais: o Col de la Croix de Fer, um clássico, e o Col du Galibier, o ponto mais alto do Tour deste ano, a 2.642 metros de altitude.

Logo no dia seguinte chega a última etapa de montanha do Tour, entre Briançon e o Izoard. Um dos três finais em subida este ano e que é também uma novidade. Até ao mítico Izoard são 14,1 Km a 7,3%, mas haverá outras dificuldades pelo caminho.

O contra-relógio de sábado, 22, que parte e chega ao Velodróme de Marselha, será seguramente decisivo para as contas de última hora do pelotão.

Há ainda dois dias de descanso - e os corredores nem sempre reagem bem a isso - marcados para 10 e 17 de julho. O Tour vai passar por quatro países este ano: Alemanha, Bélgica, Luxemburgo e França.

O resto do pelotão

De Dusseldorf - onde a prova arranca este sábado - até aos Campos Elísios - onde termina a 23 de julho - são 3.540 quilómetros de distância e há 198 homens que se vão fazer à estrada este sábado para cumprir o percurso.

O espectro etário deste Tour faz-se dos 22 aos 40, com Elie Gesbert (Fortuneo-Oscaro) a ser o mais novo do pelotão, com 22 anos, e Haimar Zubeldia (Trek) o mais velho, com 40. A camisola do “repetente” vai para Sylvain Chavanel (Direct Energy), de 38 anos, que parte pela 17ª vez no Tour, tantas quantas Hincapie ou Stuart O’Grady.

Outros nomes a guardar no bloco de apontamentos? André Greipel (Lotto Soudal), Mark Cavendish (Dimension Data), Marcel Kittel (Quick Step) e o inesgotável Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) são bem capazes de vir a figurar nos oráculos televisivos deste Tour.

O que convém não esquecer é que o Tour não se faz só de homens, faz-se também das suas circunstâncias e são elas quem muitas vezes assume o protagonismo. Um furo, uma queda, uma falha na alimentação, um desarranjo intestinal e toda uma volta pode ser posta em risco.